Manuel Adorni, um dos auxiliares mais próximos e confiáveis do presidente Javier Milei, afirmou na semana passada que uma aposta total em Bitcoin feita há mais de uma década financiou um estilo de vida luxuoso que agora está sob investigação.
Mas poucos acreditaram. E as declarações ecoaram na consolidada comunidade de criptomoedas da Argentina, que está tendo dificuldade em aceitar a explicação de Adorni para rebater acusações de enriquecimento ilícito.
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Um escândalo que surgiu durante uma viagem a Nova York neste ano agora está cobrando um preço político de Milei, que conquistou apoio dos eleitores como um líder que prometia eliminar a corrupção governamental, mas que agora vê sua administração se defender do quarto grande caso de suspeita de corrupção.
Adorni, atualmente chefe de gabinete de Milei, afirma ter investido cerca de US$ 200 mil em Bitcoin em algum momento entre 2013 e 2018 e obtido aproximadamente US$ 300 mil de lucro. Em outras palavras, o homem de 46 anos diz ter colocado praticamente todo o seu patrimônio líquido da época em um dos ativos mais experimentais do mundo e saído com cerca de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões)— um retorno de 150%.
Na semana passada, admitiu que poupava dinheiro “por fora, como todos” os seus compatriotas, em meio a questionamentos sobre seu patrimônio.
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A história sobre as operações de Adorni com criptomoedas surpreendeu líderes da indústria cripto local, em parte porque eles acreditam que alguém em uma comunidade tão pequena e interligada teria notado sua atividade, dado o nível de risco que ele afirma ter assumido.
“Eu não o conheço como um bitcoiner e nunca o vi em um evento de criptomoedas”, disse por mensagem de texto Ricardo Mihura, que lidera a organização Bitcoin Argentina desde 2016.
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“Ninguém o conhecia como um bitcoiner — nem de longe”, afirmou Nicole Connor, líder da organização Women in Crypto da Argentina, que descreveu as alegações de Adorni como “inconsistentes”.
É verdade que os argentinos adotam criptomoedas há anos, de modo que Adorni dificilmente estaria sozinho nessa estratégia de investimento. O país sul-americano está entre os dez principais do mundo em adoção de criptomoedas, impulsionado pela inflação, pelos controles de capital e pela profunda desconfiança em relação ao peso argentino.
Um porta-voz de Adorni não respondeu a um pedido de comentário até a publicação da reportagem.
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Milei tem apoiado Adorni há meses, apesar das críticas dentro de seu próprio partido e dos apelos mais amplos por sua renúncia, o que levantou questionamentos sobre os motivos para mantê-lo no cargo.
Em meados de fevereiro de 2025, Milei promoveu um projeto de criptomoeda chamado LIBRA na rede X e apagou o tweet logo em seguida. Enquanto isso, o valor da moeda desconhecida disparou e despencou, causando prejuízos de pelo menos US$ 100 milhões para argentinos e estrangeiros.
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A corrupção é a principal preocupação dos argentinos, e os índices de aprovação de Milei continuam próximos dos níveis mais baixos de sua presidência, segundo o LatAm Pulse, pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News.
Assim como Milei, Adorni é um outsider, sem experiência prévia em política ou em investimentos profissionais. Ele começou como porta-voz de Milei em 2023, criticando publicamente a corrupção da classe política argentina, antes de ser promovido a chefe de gabinete no ano passado, em uma decisão que irritou o aliado que se tornou rival de Milei, o ex-presidente Mauricio Macri.
Adorni enfrentou problemas pela primeira vez em março, quando sua esposa, que não trabalha no governo, viajou no avião presidencial durante a “Semana da Argentina” em Nova York promovida por Milei.
Dias depois, vazou um vídeo mostrando Adorni passando férias na praia algumas semanas antes em um jato particular com sua família. Desde então, ele tem tido dificuldades para explicar claramente como financiou suas viagens, bem como a hipoteca de seu apartamento e uma casa de fim de semana nos arredores de Buenos Aires.
Justificativas repletas de contradições
Para muitos argentinos, sua justificativa baseada em criptomoedas está repleta de contradições. Durante meses, Adorni afirmou que não havia cometido nenhum crime, apenas para admitir posteriormente, em uma entrevista de TV, que comprava dólares no mercado paralelo argentino — uma atividade tecnicamente ilegal, mas praticada por milhões de argentinos que raramente são processados. Mais recentemente, reapareceu um vídeo de 2020 no qual ele dizia não entender muito de criptomoedas e que “não estava muito envolvido” com o setor.
Sua postura de investidor discreto que apostou tudo em criptomoedas lembra a de Milei, que também alegou não ter grande conhecimento da indústria quando tentou se desvincular de seu próprio escândalo envolvendo criptomoedas em 2025.
Na época em que Adorni afirma ter feito seu investimento, os argentinos já organizavam encontros e conferências sobre Bitcoin muito antes de o setor contar com bancos, fundos institucionais ou aplicativos voltados ao grande público.
Em Buenos Aires, muitos desses primeiros encontros reuniam apenas 30 ou 50 pessoas. Segundo os organizadores, os entusiastas do Bitcoin costumavam debater, evangelizar e publicar constantemente nas redes sociais. Eles não se lembram de ter visto Adorni.
Placa com a imagem do Bitcoin na fachada de uma corretora de criptomoedas em Buenos Aires
Tomas Cuesta/Bloomberg
O caso também chama atenção porque o mercado de criptomoedas na Argentina era pequeno e tinha liquidez limitada naquela época, sem os mecanismos de acesso que existem hoje. Veteranos do setor afirmam que uma compra de US$ 200 mil por uma pessoa física no país teria sido logisticamente difícil naquele período.
Profissionais argentinos do mercado cripto também observam que Adorni pronuncia a palavra “Bitcoin” em espanhol de forma diferente da maioria das pessoas em Buenos Aires.
— Ele não parece ser alguém que entende de criptomoedas. Ele pronuncia Bitcoin de um jeito estranho — e colocou todas as economias da vida nisso? Isso me soa muito estranho — disse Sebastián Serrano, fundador da Ripio, uma das primeiras empresas de criptomoedas da América Latina. — Você não aposta todas as suas economias em algo que não entende.
Dado o uso intenso que Adorni faz das redes sociais X e Instagram, muitos integrantes da indústria consideram difícil acreditar que ele tenha atravessado os primeiros anos do Bitcoin na Argentina sem participar da vida social do ecossistema.
Segundo o investidor argentino em criptomoedas Santiago Siri, um investimento desse porte não era impossível, mas teria sido altamente incomum para alguém sem um respaldo financeiro significativo.
— Ninguém estava colocando todas as suas economias em uma aposta total no Bitcoin”, afirmou Siri durante um podcast ao vivo do veículo de notícias Infobae. — Parece que toda essa história é uma piada.

