Os mexicanos decidiram não trabalhar em um dia da Copa do Mundo de 1970, afinal Pelé estaria em campo para liderar a campanha que terminaria em tricampeonato da seleção brasileira. Seis décadas depois, a admiração especial do México pelo Brasil, indicada naquele cartaz colocado no centro de Guadalajara, ainda é presença forte no dia a dia do país que sonha com um título mundial e enfrenta a Inglaterra, às 21h de hoje, pelas oitavas de final.
A partida acontece no estádio Azteca, onde o Rei brilhou na goleada sobre a Itália naquela decisão. O principal estádio do México passou por uma obra de modernização que durou cerca de dois anos, mas teve preservada uma parte de importante de sua decoração externa: pinturas de vários ídolos do futebol brasileiro em seus arredores.
A brasileira Nathalia Carvalho mora no México desde o início do ano e conta sua surpresa na primeira vez que visitou o icônico local:
— Tem muita coisa referente ao Brasil. Muita coisa do Pelé, da Copa de 1970, do Ronaldinho (Gaúcho). E com a camisa da seleção, não do Barcelona. Também do Ronaldo, agora estão pintando o Neymar. Ícones na parede, louvados mesmo, mais até do que referências de jogadores do próprio México. Eu fiquei maluca, por ser brasileira — relata a turismóloga.
A imagem de Pelé com um sombreiro no gramado após o título daquela Copa atrai especial carinho.
— Agora, passam umas propagandas com o Pelé de costas, comemorando com o chapéu do México, uma foto dele super emblemática, e isso está em todos os lugares daqui. O México vive muito o Pelé. Os mexicanos falam muito dele quando se fala do Brasil, e eles têm um orgulho muito imenso de ele ter jogado aqui. E muitas pinturas são antigas, não estão fazendo só para esse ano.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/Z/G/qPTCrFTuOjIBCqFCSpJw/76838099-cidade-do-mexico-mexico-21-06-1970-futebol-copa-do-mundo-de-1970-final-brasil-4-x.jpg)
A lenda local da Cidade do México conta ainda que o Azteca não foi o único local onde o ídolo brasileiro entrou em campo. Apesar da falta de registros fotográficos, relatos dão conta de que isso também teria acontecido em uma quadra comunitária no bairro de Tepito — conhecido historicamente como um centro de resistência e identidade cultural na capital, assim como pela violência e marginalização — que recebe um nome mais do que conhecido: Maracanã.
O campo de grama sintética fica em local curioso, encravado entre um mercadão do bairro e uma igreja dedicada a São Francisco de Assis. Cenário diferente do cenário de 1968, quando o Centro Social y Deportivo Tepito nasceu em chão de terra batida — 14 anos depois, o nome foi simplificado para Deportivo Tepito. Desde então, jogam nele principalmente equipes formadas por moradores e comerciantes do chamado Barrio Bravo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/r/u/p3lKfpST2X8PAGChxPJQ/img-2552-1-.jpg)
A crença popular diz que jogadores da seleção brasileira teriam visitado Tepito para fazer compras após vencer a Copa do Mundo de 1970. Pelé estava no grupo que acabaria disputando uma partida contra uma equipe do local. Em homenagem à suposta visita, a população apelidou a quadra tal qual o principal estádio do Brasil.
Mas o Maracanã mexicano não viveu apenas dias de glória. Entre 2012 e 2018, a quadra caiu em desuso e virou uma zona de alto risco. A situação só mudou quando um grupo de moradores retomou o comando e passou a organizar uma competição de equipes amadoras. Hoje, o campo está renovado, com pintura característica e atraindo todos os tipos de pessoas para as arquibancadas.
Por isso, mais do que um complexo desportivo, o local que vem atraindo turistas que vão à Cidade do México é quase um lugar de família para ajudar os moradores a escaparem por breves momentos da dura realidade que os cerca.
— Eu senti uma energia bem carioca estando lá (risos). Tem muitas comidas, bebidas e coisas falsificadas, mas nada se compara a qualquer coisa que já tinha visto no Brasil — brinca Nathalia. —Esse campo se tornou não só um lugar histórico mas também um lugar político, os visitantes não podem entrar para preservar a quadra e ela é utilizada para eventos especiais.
— Um dos eventos que estou ansiosíssima para conhecer é o jogo de “Las Gardenias”, uma equipe de mulheres trans que disputa partidas anuais como parte das celebrações do padroeiro local, San Francisco de Asís, enfrentando times locais em meio a uma grande festa comunitária. Essa partida é super famosa aqui, e acontecerá em julho — finaliza a brasileira.

