Brasil e Noruega duelam por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo neste domingo. Nos Estados Unidos, a rivalidade é alimentada por tabus históricos: a seleção brasileira nunca venceu os noruegueses e quer continuar sonhando com o hexa inédito e com o fim do jejum de 24 anos sem conquistar um Mundial. No Brasil, no entanto, um ex-jogador norueguês aproxima as duas nações e dedica a vida e 100% do seu tempo a transformar a sensação de espanto da sua chegada ao país em algo muito diferente.
—Eu me perdi. Perdi a minha identidade. Não sabia mais quem era, porque o meu mundo era o futebol — afirmou Tommy Nielsen em entrevista ao GLOBO. O ex-jogador, hoje com 50 anos, machucou o joelho aos 25 e, depois disso, não conseguiu mais voltar a praticar o esporte que tanto amava como profissão.
Em 2004, após a lesão, decidiu vir ao Brasil de férias e, tomado por uma paixão fulminante, soube que aqui era o seu lugar. Depois de três semanas no Brasil, voltou para a Noruega e, em questão de um mês, vendeu tudo que tinha e retornou ao Brasil para ficar de vez. No início, morou no Jardim de Alah, na Zona Sul do Rio. Lá, se espantou com as diferenças sociais latentes da realidade brasileira.
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— Eu era vizinho da comunidade Cruzada São Sebastião e meus amigos brasileiros eram todos de lá. Eles me apresentaram a Cidade de Deus, a Rocinha, o Cantagalo, o Pavão-Pavãozinho e tudo que eu pensava era: “Caramba! Quantas pessoas incríveis inseridas dentro de uma realidade sem oportunidade. Caramba! Que contraste da minha vida segura na Noruega pra essa realidade” — relembrou Tommy. Dessa inquietude e de uma expressão bem brasileira, surgiu a vontade de transformar essa realidade.
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O Instituto “Karanba” de Tommy, com “K” para diferenciar o projeto da expressão e “N”, de Noruega, começou no condomínio dele em 2006. No boca-a-boca, saiu de um pequeno grupo de crianças para mais de duzentas em um ano.
— No início, não tinha conta bancária, não tinha patrocinador, não tinha estrutura física nenhuma, não tinha bola, não tinha uniforme, não tinha nada; era só um maluco e um sonho muito grande de usar futebol e educação para transformação social — disse. Vinte anos depois, mais de 10 mil crianças já passaram pelo projeto, que hoje está estabelecido em São Gonçalo — em espaço próprio com três campos de futebol e duas salas de aula — e conta com apoio de empresas norueguesas, como a Equinor, da Lei de Incentivo ao Esporte e de pessoas físicas, que continuam a acreditar no projeto.
Muito orgulhoso, Tommy contou que, hoje, o Karanba tem mais horas de apoio escolar do que esportivas. São 78 horas semanais dedicadas à educação, com aulas de apoio no contraturno escolar, e 74 dedicadas à prática esportiva, atendendo a 750 crianças, de 6 a 20 anos, em 2026. Além disso, através do projeto Gols de Caneta, o instituto banca matrículas em universidades para 11 meninas. — Desde muito cedo eu tenho essa preocupação de fazer com que o Karanba fosse um trampolim para uma vida sustentável, melhor, digna — contou Tommy.
Alessa da Silva Oliveira, de 18 anos, é uma das meninas que participa do “gols de caneta”. Hoje, ela cursa administração numa universidade privada, custeada pelo Karamba, e recebe uma bolsa mensal de R$400 para outras despesas.
— Terminei meu terceiro módulo agora. E eu tô treinando, eu tô estudando, eu tô trabalhando e tudo tem a ver com Karanba de algum jeito. Então, é tipo…é uma loucura, mas é uma loucura que eu gosto, uma loucura que eu tô acostumada — afirmou a jovem, que também é muito elogiada pela habilidade em campo.
Um dos únicos pré-requisitos para que as crianças, em sua imensa maioria de São Gonçalo, participem do projeto é a apresentação das declarações escolares três vezes por ano. Verônica Lima, 35, professora de educação física, coordenadora esportiva e funcionária da instituição há 14 anos, endossa a importância do acompanhamento escolar.
— É a nossa maior preocupação. Teve ano que batemos menos de 1% de evasão escolar entre os nossos alunos. É motivo de orgulho e vira um propósito de vida — contou Verônica.
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Tommy Nielsen disse que, no instituto, é comum usar o verbo “Karanbar”, que resume o trabalho de todos dentro do Karanba e a influência na vida das crianças que passam por ali. Desde Lidiane da Silva Antunes, que passou pelo Karanba e em 2023 foi defender a equipe feminina do Damaiense, de Portugal, profissionalmente, a Jenderson Alves, de 34 anos, integrante da primeira turma do Karanba, de 2006, e há 13 anos marinheiro mercante na Noruega, o verbo “Karambar” encontra significado.
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Neste ano, em celebração aos 20 anos de existência do Karanba, Tommy vai viajar com 43 crianças do projeto para a Norway Cup, na Noruega. O torneio é a maior competição de categorias de base do país e, a participação de 2026 marca a décima vez do Karanba no torneio noruguês.
Serão 16 meninos e 16 meninas, respeitando as diretrizes de equidade do instituto e mais 10 lideranças — além da filha de 5 anos de Tommy —, que esperam mais um bom resultado na competição.
— No Karanba a gente diz que o foco não é 100% no esportivo, mas acreditamos que temos chances e vamos chegar lá para sermos campeões, no masculino e feminino — afirmou a coordenadora esportiva Verônica Lima.
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Em 2007, um ano após a criação do Karanba, Tommy decidiu procurar treinadores através de um anúncio de jornal. A equipe do GLOBO achou o anúncio inusitado e foi atrás da história do norueguês pela primeira vez. O título desta matéria, inclusive, relembra a primeira reportagem que ajudou Tommy a encontrar seus primeiros treinadores para o instituto e, também, os primeiros apoiadores no Brasil.
A reportagem traz dois personagens: os gêmeos Jenderson e Vanderson Alves. À época, os dois faziam parte do projeto e integravam a primeira turma do instituto, que ainda utilizava o prédio de Tommy, na zona sul do Rio, como sede.
Quase 20 anos depois, Jenderson trabalha na marinha mercante e atribui as oportunidades que teve ao projeto.
— Tommy é como se fosse um pai para mim , o conheci em 2006 e desde então temos uma relação de muito respeito e orgulho. Ingressei na marinha mercante e este ano fiz 13 anos trabalhando numa empresa na Noruega. Comecei como moço de cônves e hoje atuo como Mestre. Agradeço ao Tommy e a todos que contribuíram para o Projeto Karanba dar certo — concluiu Jenderson.
Hoje, mais brasileiro do que norueguês e morador de São Gonçalo, Tommy não se esquivou ao falar do resultado da partida deste domingo.
— O Brasil é o grande favorito. A Noruega pode até vencer, mas acho difícil — disse o ex-jogador.
Em busca do retorno às quartas de finais de uma Copa do Mundo e, também, de uma vitória inédita sobre a Noruega, o Brasil entra em campo neste domingo, às 17h (horário de Brasília), no estádio de Nova York/Nova Jersey (EUA).

