Depois da máquina a vapor, da eletricidade e da internet, há quem aposte que a inteligência artificial será responsável pelo próximo grande salto tecnológico da humanidade. Os efeitos passam pela transformação na forma como o humano organiza e lida com as informações que existem no mundo. E os impactos são transversais: vão desde a aceleração na descoberta de novas moléculas na medicina até ferramentas que derrubam barreiras linguísticas.
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Pesquisada desde o século passado, a inteligência artificial já operava por trás de sites e aplicativos de bancos, redes sociais ou e-commerce. Também em plataformas industriais, digitais e robóticas. O impulso recente veio com a vertente da IA do tipo generativa, capaz de processar e gerar linguagem humana em texto, voz e imagem. Um avanço que a tirou dos bastidores e a colocou para falar (e criar) diretamente com as pessoas.
Enquanto todas as indústrias se adaptam a esse salto, o jornalismo tem um desafio dobrado. Além de explorar a IA em novas frentes para a apuração e criar ferramentas úteis para o leitor, como faz O GLOBO com o Projeto Irineu, também precisa traduzir o que significam as transformações desta nova era — e traçar a linha entre o que é real e o que é sintético.
Essa é também uma corrida estratégica para o futuro do país. Enquanto Estados Unidos e China disputam a dianteira da inteligência artificial, com bilhões em investimentos e poder computacional únicos, o Brasil busca um caminho próprio para essa corrida, adaptando soluções à realidade nacional, com a exploração de nichos e aplicações próprias da IA.
Em uma área da Amazônia a cerca de 70 quilômetros de Manaus, o alerta da presença de motosserras e de tratores na floresta é captado por pequenas caixas fixadas em troncos de árvores. Equipados com sensores e um modelo de inteligência artificial embarcado, os dispositivos emitem um aviso quando detectam ruídos que indicam invasores na mata.
Chamado de Curupira — o mesmo personagem folclórico escolhido para ser o símbolo da COP30 em Belém — o sistema foi projetado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que testa a tecnologia em uma área protegida. Os sons são identificados pela IA.
— Na floresta não tem tomada nem wi-fi. Trabalhamos com um modelo ajustado para exigir baixíssimo processamento e com transmissão por satélite — diz Raimundo Cláudio, professor da Escola Superior de Tecnologia da UEA e um dos criadores do Curupira.
O sistema é um exemplo de como funciona a IA aplicada a dispositivos físicos — no futuro, a perspectiva é de que cada vez mais objetos e ambientes estejam integrados à sistemas como esses, inclusive os generativos. O projeto traz também o vislumbre de uma alternativa concreta a um dilema global: como garantir autonomia nacional em uma área que tem os principais avanços dominados por poucos países.
A virada recente, e talvez a mais decisiva da IA, veio há três anos com o lançamento do ChatGPT, que reposicionou o foco da indústria. Por trás dele e de outras ferramentas que conversam e criam, estão os grandes modelos de linguagem (LLMs) treinados com bilhões de textos, áudios e imagens responsáveis pelo salto técnico dessa nova era da inteligência artificial.
Esse avanço, porém, também concentrou o poder tecnológico global. Os EUA reúnem mais da metade do investimento privado mundial em IA. Em 2024, empregaram US$ 50,5 bilhões na área, 45 vezes mais do que o Brasil. Todas as gigantes que lideram essa corrida, como OpenAI, Microsoft, Google e Anthropic, são americanas. A China, com forte apoio estatal e plano de longo prazo, é a principal rival.
Plano Brasileiro de Inteligência Artificial
Para se posicionar, o país lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que direciona R$ 23 bilhões para a área até 2028. Também prevê bolsas para pesquisadores, formação de 40 mil profissionais para IA e o reforço a centros como o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), no Rio, que abriga o supercomputador Santos Dumont.
— Não vamos liderar em tudo, mas podemos construir soluções com base local que façam sentido para o Brasil — argumenta Henrique Miguel, secretário de Ciência e Tecnologia para a Transformação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. — A ambição não é competir diretamente com os gigantes globais, mas também não é ficar refém. Precisamos garantir que o Brasil tenha autonomia.
O governo também aposta na aplicação dessas ferramentas para automatizar processos e gerar eficiência na própria estrutura. Ao menos 40 órgãos federais têm projetos voltados para a tecnologia, incluindo assistentes internos e ferramentas de automação. A meta do Ministério da Gestão é formar 115 mil servidores para uso de IA até 2028.
Grandes bases de dados e um mercado que adota rapidamente as novas tecnologias estão entre os trunfos do país. O Brasil é um dos maiores usuários de plataformas digitais, com 227 milhões de smartphones — número superior ao da população — e quase 90% dos lares conectados à internet. Para o fundador de uma das maiores multinacionais brasileiras de tecnologia, Marco Stefanini, o mercado interno e a capacidade de aplicar IA em problemas reais torna o país um terreno promissor, mesmo sem seguir as rotas de China e EUA.
— O LLM é um jogo de bilhões de dólares em que a gente não vai entrar para ganhar. Mas podemos aplicar a IA em áreas que façam sentido para empresas e para a sociedade — diz o presidente e fundador do Grupo Stefanini, empresa com 34 mil funcionários, atuação em 40 países e 250 projetos de inteligência artificial.
Entre as grandes empresas americanas que lideram a área no mundo, o Brasil também é visto como promissor. Além de oferecerem serviços para os usuários, big techs como Google, Microsoft e OpenAI avançam com soluções corporativas. Uma das principais promessas é alavancar a produtividade, com recursos que automatizam tarefas, melhoram o desempenho de sistemas internos e criam de relatórios com grandes bases de dados a campanhas de marketing personalizadas.
Fora do circuito das big techs, centros de inovação criam soluções comerciais próprias. Com 1,9 mil patentes de softwares, o CPQD, no interior de São Paulo, desenvolve sistemas de voz, reconhecimento biométrico e atendimento com IA usados por bancos e operadoras. A pesquisa evoluiu para criação de vozes artificiais com sotaque regional e de sistemas que detectam emoções ao telefone.
Outro exemplo positivo é o Porto Digital, no Recife, um dos principais distritos de inovação da América Latina, que reúne mais de 21 mil profissionais e 475 empresas de tecnologia, incluindo startups de IA que atuam na área financeira e de recursos humanos.
— Como país, temos condições de colocar uma agenda em IA para o mundo — aposta o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, que afirma que empresas e governo podem se beneficiar da inteligência artificial aplicada, mas alerta que o país precisa formar mão de obra especializada. — Sem gente disponível, ficamos fora do jogo.
Antes do salto atual da inteligência artificial, o Brasil figurava entre os países mais bem posicionados em produção científica na área, ressalta Fábio Gozman, coordenador do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina da USP. Hoje, está na 20ª posição:
— Com investimento certo, poderíamos retomar posições mais altas, como já ocupamos no passado — diz o coordenador do centro, que abriga projetos em áreas como saúde, cidades inteligentes e indústria.
Os pesquisadores defendem que o país aproveite o momento atual para desenvolver soluções próprias a partir de grandes modelos de IA abertos, que podem ser customizados e adaptados. Um deles é o recém-lançado Gaia, de código aberto e voltado ao português, desenvolvido com apoio do Google e parceiros locais, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), a primeira do país a oferecer uma graduação em inteligência artificial.
— A ideia do Gaia é ser um modelo feito no Brasil, com sotaque brasileiro, para resolver problemas brasileiros — diz Marcellus Amadeus, cofundador da startup Amadeus.AI, que também participou do desenvolvimento do modelo.
Cláudio Pinhanez, pesquisador da IBM Research Brasil, compara o entusiasmo atual com a tecnologia com o fim do milênio passado, quando o mundo especulava o impacto da internet. Para ele, a IA generativa vive hoje o mesmo momento de euforia.
Em parceria com a USP e a partir de modelos de código aberto, o pesquisador lidera projeto que adapta sistemas de IA para falar línguas indígenas. Na primeira etapa, o grupo criou uma ferramenta de tradução e correção na língua Guarani Mbya, para o povo de Tenondé Porã, no sul de São Paulo. Na próxima etapa, a ferramenta será adaptada ao Nheengatu, língua derivada do tupi e falada na Amazônia.
— Assim como a internet, a IA não vai resolver todos os problemas do mundo. Mas vai exigir que o mundo mude — afirma Pinhanez.
Era o início da década de 1970. Com seu embrião recentemente desenvolvido em uma rede de transmissão de dados do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, a Arpanet, a internet era um experimento restrito a centros de pesquisa. Os computadores ainda levariam alguns anos para virarem um bem de consumo massificado. Mas O GLOBO já levantava uma das perguntas que, meio século depois, seriam uma das grandes inquietações do nosso tempo: a inteligência artificial poderá superar a humana?
Com a chamada “Inteligência artificial, o longo caminho a vencer”, a reportagem da página 11 da edição de 21 de janeiro de 1970 avisava que, para criar uma verdadeira IA, seria preciso algo mais do que os sistemas “ingênuos” da época. Eram necessários modelos capazes de aprender com o mundo ao redor e que soubessem lidar com ambiguidades da linguagem. Como já sabemos hoje, mas que até então parecia distante.
Entre exemplos mais avançados da época, estavam os primeiros robôs que podiam circular em ambientes e desviar de objetos por meio de sensores. O texto concluía que ainda precisaria surgir alguém “bastante arguto” para criar uma máquina que imitasse os sutis processos do cérebro humano, que seguia, até então, “como o mais inteligente sistema em operação”.
Doze anos depois, em 1982, O GLOBO anunciava outro salto, dessa vez da robótica. “Aí vêm os robôs” dizia o título de reportagem de página inteira que detalhava a nova geração de máquinas em fábricas de automóveis, metais e eletrônicos — eram 14 mil no mundo, segundo a estimativa da época. Com olhos de câmera e braços hidráulicos, os robôs soldavam, pintavam e manuseavam prensas. A previsão era de que 1 milhão estariam instalados em fábricas americanas nos anos 2000.
O texto de 1982 ainda trazia previsões para o século XXI. A robotização abriria espaço para novas profissões e mudanças sociais mais amplas, como jornadas mais curtas de trabalho. Seria um futuro também de fim do dinheiro físico e de um cotidiano em que ninguém mais precisaria sair de casa para fazer compras. “Nenhum de nós será o mesmo na virada do século”, cravava a reportagem.
Quando o século efetivamente virou, os primeiros ares do que viria nas duas décadas e meia seguintes apareciam estampados na manchete do domingo de 11 de junho de 2000, com um dos protagonistas da indústria de tecnologia nos anos que viriam depois: “Novos serviços vão revolucionar celular”, dizia o título, antes do complemento: “com acesso à Internet, telefone vira computador de bolso”. A reportagem previa o que hoje é realidade: conexões móveis, aplicativos e a vida digital na palma da mão por meio de corriqueiros smartphones e tablets. Dali para o “fim” do dinheiro físico e as compras a um clique na tela era uma questão de tempo.