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‘Talvez o mundo hoje seja mais industrial do que nunca foi’, diz o historiador Paulo Fontes

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julho 27, 2025
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Aplicativos de delivery e o trabalho hoje. "A tecnologia não tem sido libertadora". — Foto: Guito Moreto

No momento de efervescência da expansão da tecnologia que promete redesenhar o mundo como o conhecemos, o debate sobre as relações trabalhistas nunca esteve tão em alta. O advento das redes sociais, o auxílio da internet para o fornecimento de serviços, o aumento da demanda por negócios feitos na palma da mão, a informalidade crescente e a pressão previdenciária cada vez maior renovam o debate sobre os rumos do que tradicionalmente conhecemos como emprego.

A inteligência artificial generativa, que vem tomando espaço nas companhias e processos, foi, inclusive, um dos temas levados em conta para a escolha de batismo do novo Papa. O americano Robert Francis Prevost citou o advento da tecnologia como um desafio semelhante ao enfrentado pelo Leão antecessor, o XIII, pontífice que defendeu a dignidade dos trabalhadores na era da Revolução Industrial, no fim do século XIX.

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Diante desse novo cenário, como será o futuro do que conhecemos como trabalho? Diante das novas relações trazidas pela tecnologia, veremos, assim como o Papa quer, dignidade? Para o professor Paulo Fontes, do Instituto de História da UFRJ e visitante no Instituto Radcliffe, da Universidade de Harvard, nos EUA, a identidade do trabalho já passa por uma crise, com a indústria perdendo o papel simbólico de transformação social enquanto os avanços tecnológicos não se refletiram em uma melhora de vida.

Quais as transformações que as relações trabalhistas trouxeram no último século?

O século XX foi um século de muitas mudanças, mas o trabalho teve um papel central. As transformações do Estado, as forças políticas e sociais tiveram um aspecto central, que vinha do século XIX, mas já no século XX há a noção política e social de classe trabalhadora. E a identidade do trabalhador unificava boa parte do mundo social. Mas esta identidade tem estado em crise nas últimas décadas. As pessoas acabam esquecendo ou negligenciando o papel central que o trabalho teve durante boa parte do século. Talvez o mundo hoje seja mais industrial do que nunca foi, mas estamos vivendo uma desindustrialização como símbolo de transformação social.

Ela vem dos anos 1980 e 1990, a partir do neoliberalismo. Mudanças que passam pela desindustrialização, enfraquecimento de sindicatos, questionamento de políticas de bem-estar social. Enfim, da identidade baseada na ideia de classe trabalhadora. E a crise de 2008 tem um papel forte de desestruturar as relações políticas em todo o mundo. E veio a pandemia, quando se percebeu o que a dependência de cadeias produtivas globais provocava em situações de crise, muitas vezes com potencial fatal. E, de certa forma, as políticas tarifárias de (Donald) Trump têm essa retórica, de que elas vão trazer de volta (aos EUA) o emprego industrial. Mas a verdade é que a indústria que forjou uma potência como os Estados Unidos não voltará mais.

O avanço tecnológico que vemos hoje alterou nossa percepção sobre as relações de trabalho?

No século XX, a indústria automobilística simbolizou as relações de trabalho graças ao fordismo, com a ideia de que há uma linha de produção em que as pessoas ocupavam determinadas posições na construção de um produto final. Isso gerava todo um ciclo econômico e um ciclo de relações de trabalho e relações sociais. Mas rejeito um pouco a ideia de que transformações tecnológicas trazem transformações sociais. Acho que as mudanças tecnológicas estão dentro de um conjunto de mudanças sociais do qual elas fazem parte. Elas não são prévias, não são elas que provocam. A ideia de que as transformações tecnológicas, de que o trabalho duro, braçal e pouco intelectualizado desapareceria, que as pessoas trabalhariam menos, com mais tempo livre para a família, o lazer, é utópico. Na verdade, o homem está cada vez mais enredado no trabalho. E trabalhando mais. A tecnologia não tem sido libertadora, mas tem aprisionado o homem mais ao trabalho.

A gente vê as pessoas carregando comida de bicicleta em ladeiras, com trabalho braçal, e ao mesmo tempo uma fazenda com última tecnologia, drones que fiscalizam a produção, internet que liga quem está no Mato Grosso à Bolsa em Nova York e Chicago. Embora a gente tenha muito mais tecnologia dentro da nossa casa, até robô que aspira, o trabalho não arrefeceu por conta dela. A tecnologia tem um potencial de liberação, mas ela, por si só, não se realiza naturalmente. Tem que ser fruto de políticas públicas, de relações sociais.

Você acredita que os serviços por aplicativo têm alterado a percepção da sociedade sobre o trabalho?

Sem dúvidas. A ponto de as pessoas acharem que estão trabalhando por conta própria, que têm autonomia. E essas plataformas pegam um desejo legítimo de autonomia e ressignificam esse desejo que, no fundo, leva a uma precarização do trabalho e, na verdade, leva a mais trabalho ainda.

Aplicativos de delivery e o trabalho hoje. “A tecnologia não tem sido libertadora”. — Foto: Guito Moreto

Portanto, a crise que você citou não atinge igualmente todas as classes?

Não. Os setores mais pobres, menos escolarizados, têm sofrido mais o processo de precarização. No delivery, por exemplo, você não encontra pessoas com mestrado ou doutorado, como nos transportes por aplicativo. Há uma estratificação social nessas plataformas. É preocupante.

E como você vê o advento da inteligência artificial?

Sou cético em relação à ideia do potencial necessariamente inovador e libertador dessas tecnologias. A gente vive num mundo em que poucas empresas dominam de fato a produção dessa tecnologia. Acho que ela tem um potencial revolucionário, sim, mas isso deve estar articulado a relações políticas e sociais. Por ora, a IA está sendo monopolizada por grandes oligopólios, que não necessariamente têm interesse público, transformador, permitindo que as pessoas trabalhem menos e melhor. A tecnologia vai ser, como tem sido, um instrumento de ampliação da riqueza de alguns e de aumento do trabalho da maioria.

E qual a sua perspectiva sobre o futuro do trabalho?

As perspectivas das agências que costumam fazer projeções parecem otimistas de um lado, porque acham que a IA poderá potencializar conhecimento, mas, do ponto de vista das pessoas comuns e do trabalho, há pessimismo, porque percebem o risco. A tecnologia, por si só, não é transformadora, mas dentro de um conjunto de transformações políticas e sociais, não sabemos para onde elas caminharão.

Flexibilidade é uma demanda crescente. Como você vê este movimento?

A ideia de busca por autonomia é antiga, nasce junto com o próprio trabalho, pois os trabalhadores sempre buscaram controlar seus processos. E hoje ela aparece com força porque estamos controlados pelo trabalho. O trabalho domina a vida da maioria das pessoas. E é uma busca de tentar escapar desse controle quase absoluto.

E como deverá ser a educação para o trabalho do futuro?

O investimento em educação no Brasil tem sido errático por diversos governos. A educação não pode ser apenas em função do mercado, mas, obviamente, precisa dialogar com isso, para, enquanto nação, poder estar dentro dessas grandes transformações. Acho que isso deve estar articulado, pois hoje temos novos desafios. Pensar em uma educação com pensamento crítico e que estimule a transformação social dentro desse contexto é um enorme desafio para a sociedade.

E qual o futuro dos sindicatos?

O sindicalismo como instituição é algo muito importante para a democracia e para combater desigualdades sociais, e continuará sendo. O enfraquecimento de sindicatos, que tem acontecido nos últimos anos em nível global, é algo que deve ser lastimado, pois sindicatos fracos acabam favorecendo a ampliação das desigualdades, da precarização do trabalho, o que favorece sociedades mais violentas. E isso precisa ser revertido pelos próprios trabalhadores, mas também pelo movimento sindical, que comete muitos erros, burocratiza-se e se afasta dos trabalhadores. É preciso pensar essa nova classe, em que o papel da mulher é essencial e as relações raciais precisam estar em primeiro plano.

E a dignidade, como você enxerga este tópico nas relações atuais?

A dignidade do trabalho é algo absolutamente central para a própria ideia de classe trabalhadora. É pensar que cada trabalho, por mais braçal, merece ser considerado digno. E os movimentos sociais constituídos em torno do trabalho tiveram na busca da dignidade um aspecto vital na sua própria constituição. E essa crise do trabalho vem colocando em xeque a ideia de dignidade. O centro do debate é voltar a buscar a dignidade do trabalho como um aspecto central na nossa sociedade. É um elemento chave que deveria estar no centro da busca de todas as forças políticas interessadas na mudança social no Brasil.

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