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A Noite, O GLOBO e mais duas ou três notas sobre Irineu Marinho

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julho 27, 2025
in News
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Almoço na casa da família Marinho, na década de 1910. Roberto Marinho é a criança de pé, ao centro. Irineu e Dona Chica estão próximos, sentados no canto à esquerda — Foto: Acervo Roberto Marinho

Irineu Marinho nasceu em 1876, fundou o jornal A Noite em 1911 e morreu em 1925, menos de um mês após ter fundado o jornal O GLOBO. Esta poderia ser a biografia resumida de um jornalista que não criava apenas notícias, criava jornais.

Mas a vida de um grande personagem não se mede apenas pelo que ele fez. Mede-se também pela capacidade de plantar seus sonhos em qualquer terreno. Por isso é comum que realizações notáveis se deem em períodos de mudança, quando os sonhos não encontram fortes resistências do passado.

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Em 1891, quando Irineu Marinho ingressou no mundo da imprensa, o país e o jornalismo viviam grandes mudanças. A República recém-proclamada não alterou muita coisa no sistema de poder, mas, tendo sido os cafeicultores paulistas os artífices da nova forma de governo, a indústria, a urbanização, e o trabalho de imigrantes europeus passaram a ser miragens da nova sociedade em marcha.

Nossa imprensa, por sua vez, vinha sendo redefinida desde as campanhas abolicionista e republicana, quando se viu sacudida pelo ambiente de debates públicos e passou a mirar jornais dos EUA e de países da Europa ocidental que democratizaram sua linguagem em busca de leitores em massa. Irineu Marinho tinha 15 anos de idade quando a cidade e a imprensa se tornaram para ele fatores da equação moderna, afetando o seu padrão dominante de comportamento e de sentimento. Essa é a primeira coisa a se ter em mente quando se pretende conhecer Irineu Marinho.

Mas o sonho não se realizou de imediato; e talvez nem estivesse completamente definido. Por aquela época, Irineu Marinho era apenas mais um dos rapazinhos que, após as aulas, se dirigiam à porta da redação do Diário de Notícias, aguardando que o chefe dos revisores lhes concedesse algum trabalho. Ali se deu a sua iniciação profissional, que consistiu no aprendizado prático junto a veteranos da imprensa. Em geral, era dessa fricção entre velhos jornalistas e jovens aprendizes que nasciam fortes lealdades, afeto genuíno e estratégias de inscrição, conformando as chamadas “panelas”. E foi uma delas que propiciou a entrada de Irineu Marinho na Gazeta de Notícias, comandada pelo experiente Manoel de Oliveira Rocha, o Rochinha, última estação de onde partiria para fundar o seu próprio jornal: A Noite. O sonho, afinal, se definira.

Almoço na casa da família Marinho, na década de 1910. Roberto Marinho é a criança de pé, ao centro. Irineu e Dona Chica estão próximos, sentados no canto à esquerda — Foto: Acervo Roberto Marinho

Contudo, um jornal, além de profissionais competentes, precisa conhecer o público a que se destina. E esse é o segundo elemento capaz de explicar o sucesso de Irineu Marinho em uma conjuntura tão imprevisível como a dos anos iniciais da república: ele “lia” corretamente a cidade do Rio de Janeiro e se identificava com a potência transformadora presente na vida popular.

A Noite foi, portanto, um formato de jornal e uma forma de jornalismo adequados ao público da capital federal. E para que se viabilizasse, foram necessárias novas práticas no ambiente cultural do jornalismo e na própria vida familiar de Marinho e D. Chica — apelido de Francisca Pisani, a esposa com quem Irineu Marinho selou uma parceria colaborativa e amorosa.

O termo “parceria colaborativa” surgiu no ambiente artístico do século XX, quando Braque e Picasso, por exemplo, trabalharam juntos no desenvolvimento do cubismo. No jornalismo, a colaboração enfatiza a natureza relacional do ofício, isto é, os efeitos que as pessoas envolvidas naquela atividade exercem umas sobre as outras. Sobretudo em A Noite, cujas maiores reportagens exigiam a produção de um “contexto” em que os leitores se vissem envolvidos — o que impunha a mobilização conjunta de redatores, fotógrafos e editores munidos de um forte sentimento de equipe.

D. Chica desempenhou um papel estratégico naquele cenário, organizando almoços semanais para o grupo de Irineu Marinho. As “domingueiras” eram momentos dedicados a sedimentar amizades, mas também a regular práticas em curso, agenciar favores e negócios… enfim, eram ocasiões em que as dimensões pública e privada diminuíam suas fronteiras. E se, em relações conjugais, as parcerias mais frequentes são as que um dos cônjuges se dedica a apoiar o sonho do outro, entre Marinho e Chica parece ter prevalecido um pacto mais ou menos consciente de colaboração num projeto comum. Afinal, é conhecida a atenção que ela dedicava aos jornais da família e às notícias publicadas, como atesta a carta que endereçou em 1932 a seu primogênito Roberto, à frente do GLOBO após a morte de Irineu Marinho, em que o adverte quanto a mudanças não desejáveis no alinhamento político do jornal.

Por fim, um terceiro aspecto que se pode considerar representativo da novidade introduzida por Irineu Marinho foi a antevisão de uma economia regional suportada por atividades eminentemente urbanas, como a indústria da informação e do entretenimento, em que repórteres e artistas teriam um lugar privilegiado. Também aí — e principalmente nesse caso — Irineu Marinho ultrapassou os limites do que a sua geração concebia como modo exclusivo de inscrição e sucesso em um país agrário exportador.

Maria Alice Rezende de Carvalho é socióloga (PUC-Rio) e autora do livro “Irineu Marinho — Imprensa e cidade” (Globo Livros)

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