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Para Roberto Marinho, os olhos da comunicação deveriam estar sempre voltados para o futuro

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julho 27, 2025
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Na primeira sede do GLOBO, no Largo da Carioca, Roberto Marinho (ao centro) se reúne com os colaboradores Henrique Gigante (à esquerda) e Herbert Moses — Foto: Arquivo O Globo

Em cem anos, o jornalista mais presente na história do GLOBO foi Roberto Marinho — durante seis anos como repórter e outras funções na Redação e mais 72 como diretor daquele que se tornou o maior jornal do país. É uma longevidade que não diz respeito apenas ao jornal fundado por seu pai, mas que se confunde e ajudou a moldar a imprensa brasileira.

Roberto Marinho nasceu em 3 de dezembro de 1904, em uma casa no Estácio, Rio de Janeiro, quando o Brasil ainda vivia sob os ecos da recém-proclamada República. Mais velho dos seis filhos do jornalista Irineu Marinho e de Francisca Pisani Marinho, ele cresceu vendo o pai se tornar um dos mais respeitados jornalistas e empresários da então capital federal. Seu maior empreendimento havia sido o vespertino A Noite, fundado em 1911, mas cuja propriedade foi perdida para os sócios, no início de 1925, ao final de uma viagem que Irineu fizera com a família para a Europa, a fim de tratar da saúde. Quatro meses depois, ele fundou O GLOBO em 29 de julho, e foi ali que Roberto iniciou sua carreira, aos 20 anos. Irineu, no entanto, morreu logo, em 21 de agosto, vítima de um ataque cardíaco.

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Ainda jovem e sem experiência suficiente, Roberto Marinho não assumiu imediatamente a direção do jornal, tarefa que ficou com Eurycles de Mattos até 1931. Foi então que, com apenas 26 anos, assumiu definitivamente o comando da redação e da empresa, num momento conturbado da história brasileira, com a ascensão de Getúlio Vargas que culminaria na ditadura do Estado Novo em 1937.

Na primeira sede do GLOBO, no Largo da Carioca, Roberto Marinho (ao centro) se reúne com os colaboradores Henrique Gigante (à esquerda) e Herbert Moses — Foto: Arquivo O Globo

Ao longo das décadas seguintes, Roberto Marinho se notabilizou por conhecer profundamente todas as etapas da produção do GLOBO. Durante décadas, ele manteve o hábito de ir cedo para o jornal, mesmo após o crescimento dos negócios e a fundação das demais empresas do Grupo Globo, como a Rádio Globo em 1944, a Rio Gráfica e Editora em 1952 (rebatizada de Editora Globo em 1986), a TV Globo em 1965, a gravadora Som Livre em 1969 (vendida para a Sony Music em 2021) e a Globosat em 1991 (incorporada pela Globo em 2019).

— O que caracterizava o Dr. Roberto era a postura, o modo de trabalhar e a forma como lidava com os funcionários. Eu nunca o vi levantando a voz, ele deixava todos muito à vontade. Muito da influência dele vinha do modo como ouvia as pessoas — lembra o editor José Mario Pereira, amigo de Marinho.

Essa influência ultrapassou os limites do jornalismo e do entretenimento. Roberto Marinho era figura ativa na vida cultural e política brasileira, dialogando com artistas, intelectuais e líderes das mais diversas correntes, mas deixando claro ser um homem com visões liberais e empenhado em defender os interesses de suas empresas.

Por consequência, seu posicionamento gerou ruídos políticos com adversários. Carlos Lacerda (governador da Guanabara entre 1960 e 1965) e Leonel Brizola (governador do Rio de Janeiro entre 1983 e 1987 e entre 1991 e 1994) foram alguns dos antagonistas famosos, que repetidamente discordavam e atacavam Roberto Marinho publicamente. No entanto, na ocasião de sua morte, em 2003, Brizola esteve presente ao velório e afirmou: “Embora existissem grandes diferenças entre nós, ele nunca me negou espaço”.

Certamente nenhuma crítica é mais frequente do que a direcionada a Marinho pelo apoio ao golpe de 1964 e por sinais favoráveis ao regime nos 20 anos de ditadura militar — um erro inegável e que foi assumido pelo GLOBO em editorial em 2013.

Esse apoio, contudo, não foi incondicional. Roberto Marinho sempre deixou claro seu descontentamento com a censura e a perseguição, protegendo seus jornalistas das ameaças do regime. Num episódio famoso, chegou a enviar a folha salarial completa do jornal aos militares que solicitaram a “lista de comunistas” da empresa. Ao ser questionado pelo governo ditatorial, ele respondeu: “Ué, mas quem tem que descobrir os comunistas são vocês”. É nessa época que ele teria falado a célebre frase “dos meus comunistas cuido eu”.

— O noticiário do GLOBO na ditadura é marcado por ambivalência, o que é comum em jornais em períodos de repressão — afirma Leonencio Nossa, autor de “O poder está no ar” e “A Globo na ditadura”, os dois primeiros volumes já lançados de uma trilogia sobre Roberto Marinho. — Ele em diversos momentos apareceu ao lado de ditadores para evitar que seu negócio sofresse represálias. Mas também abrigou uma geração muito talentosa de profissionais que fez um trabalho fenomenal em expor o regime militar.

Ao lado de talentos que atraía para suas empresas, Marinho transformou a TV Globo em uma potência nacional, apostando no crescimento do mercado publicitário e nos avanços tecnológicos. As novelas da Globo se misturaram com a cultura dos brasileiros e suas transmissões esportivas se tornaram rotina, da mesma forma como o jornalismo dos veículos de Marinho se firmaram como fundamentais para a difusão de informação no país.

Por seus feitos, ele foi eleito para Academia Brasileira de Letras em 1993, e recebeu outras dúzias de prêmios e honrarias ao redor do mundo, como dois Emmys e dois prêmios Maria Moors Cabot, esse último um dos principais do mundo no jornalismo, oferecidos pela Universidade de Columbia.

Em paralelo, Marinho manteve uma vida pessoal tão dinâmica quanto sua carreira profissional. Famoso pela boemia na juventude, praticava caça submarina e hipismo, esportes que manteve até uma idade avançada.

Casou-se pela primeira vez aos 42 anos, com Stella Goulart, com quem teve quatro filhos: Roberto Irineu, Paulo Roberto (morto num acidente de carro em 1970), João Roberto e José Roberto Marinho. A vida familiar extensa incluiu ainda outros dois casamentos (com Ruth Albuquerque em 1979, e Lily de Carvalho em 1991), muitos netos e bisnetos.

No fim da vida, seguiu com o hábito de ler jornais e acompanhar os demais negócios de seus veículos, mas passou a dedicar mais tempo à Fundação Roberto Marinho, criada em 1977 para desenvolver projetos de educação e preservação de patrimônio.

Roberto Marinho morreu em 6 de agosto de 2003, aos 98 anos. Seu velório, na famosa casa do Cosme Velho que hoje abriga um centro cultural com seu nome, reuniu dúzias de amigos, políticos, jornalistas e colaboradores que reconheceram sua relevância para a sociedade brasileira.

Sua trajetória é lembrada como um reflexo não apenas do crescimento do GLOBO, mas da própria evolução da imprensa no Brasil. Jornalista por ofício e paixão, Roberto Marinho sintetizou a essência de um século de jornalismo brasileiro, com todas as suas contradições, desafios e glórias.

Em 1980, foi tema de um programa na TV francesa, para o qual foi entrevistado. Na ocasião, disse: “Hoje, tenho a serena certeza de que, em um país em desenvolvimento, os olhos da comunicação devem estar sempre voltados para o futuro”.

André Miranda é editor executivo do GLOBO

Para Roberto Marinho, os olhos da comunicação deveriam estar sempre voltados para o futuro

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