Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado na terça-feira mostra que o Brasil tem 1% de jovens de 25 a 34 anos com mestrado, patamar que deixa o país na lanterna de um ranking de 41 países, junto da Costa Rica, da Indonésia e da África do Sul. A média dos países da OCDE incluídos na edição anual do estudo “Education at a glance” é de 16% de jovens de 25 a 34 anos com mestrado.
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Turquia (3% com mestrado), México e Chile (2% com mestrado cada) estão logo acima do Brasil na lista. Na liderança, aparece Luxemburgo, com 39%, seguido de Polônia, Eslováquia e Croácia, com 31%, 29% e 27%, respectivamente. O relatório reforça que indivíduos com mestrado ou título equivalente apresentam, em média, taxas de emprego e de rendimento significativamente maiores do que os com bacharelado ou título equivalente.
— Vivemos em uma sociedade do conhecimento e em uma economia do conhecimento. O país precisa de gente altamente qualificada para enfrentar esses desafios — alerta Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e ex-ministro da Educação, ressalvando que houve uma melhora na pós-graduação brasileira. — Há 20 anos, quando fui diretor da Capes, a gente formava 35 mil mestres. Esse número agora está perto de 60 mil.
A evolução no número de mestres formados por ano no Brasil foi uma das poucas metas atingidas pelo país no Plano Nacional de Educação (PNE), criado em 2014. Um indicador superado foi o que determinava pelo menos 75% dos professores de ensino superior com mestrado. No último balanço, eles chegaram a 86,6%.
A desigualdade do Brasil em relação aos outros países é ainda maior entre a formação dos professores do ensino fundamental: a proporção dos docentes que têm mestrado é apenas próxima a 1%. A média entre os países na OCDE é de 34%, segundo o relatório.
— No Brasil, o professor não precisa ter mestrado para dar aula no ensino fundamental. Esse é o caso de muitos países da OCDE — diferenciou Cristhyne Carvalho, coordenadora de Estatística Internacional Comparada e responsável no Inep por fornecer os dados à OCDE, durante uma transmissão ao vivo sobre os resultados do “Education at a glance”.
Divulgado anualmente, o relatório reúne e compara os principais indicadores internacionais ligados à educação com dados fornecidos pelos próprios países. Fazem parte economias desenvolvidas ligadas à OCDE, como Alemanha, EUA e Japão, e também países emergentes como Turquia e México. Outro grupo de nações, como o Brasil e Argentina, participa do levantamento, mas como convidado.
O “Education at a glance” mostra ainda um desequilíbrio nas carreiras mais procuradas no Brasil em relação às buscadas nos outros países da OCDE. Os dois cursos com mais estudantes são de administração e direito, que, com as formações em áreas de negócios, reúnem 34% dos graduados. As formações em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, que hoje são agrupadas no acrônimo STEM, de acordo com seus nomes em inglês, têm 16% dos bacharelados. A área de artes e humanidades, ciências sociais, jornalismo e informação reúne 8%.
Nos países da organização, a divisão é mais equânime. As formações mais procuradas estão nos STEM e nas profissões das áreas de negócios, administração e direito, com 23% dos estudantes em cada um dos dois grupos, respectivamente. A área de artes e humanidades, ciências sociais, jornalismo e informação compõe um terceiro grande grupo de alunos, com 22%.
O relatório confirmou ainda que o gasto com dinheiro público com alunos de ensino superior no Brasil é maior do que com os da educação básica.
Na educação superior, o investimento na rede pública chega a US$ 15,6 mil por estudante, um patamar similar à média da OCDE e da União Europeia. Mas o gasto com alunos do ensino fundamental é de US$ 3,8 mil. Esse patamar é menor do que o países como Chile, Costa Rica e Grécia. A média da OCDE é de US$ 12,4 mil.
Outro ponto negativo da educação brasileira está na conclusão dos cursos de nível superior. De acordo com o relatório da OCDE, só 24% dos jovens de 25 a 34 anos no país possuem o ensino superior. Na média dos países da OCDE, o percentual chega a 49%. Nas instituições públicas brasileiras, 51% dos ingressantes não terminam seu curso nem três anos depois do que era esperado, enquanto na média da organização o percentual fica em 30%.
O gasto alto por aluno de ensino superior no país está relacionado ao papel das universidades federais como as principais instituições de pesquisa. Além disso, os últimos 15 anos foram marcados pela inclusão de jovens de classes baixas nas universidades e pela ampliação de vagas, o que levou a um aumento de investimento em políticas de moradia, alimentação, transporte e outros auxílios.
Nos próximos anos, o valor investido por aluno na educação básica pode subir a patamares mais equilibrados, se for confirmada a previsão de uma redução do número de nascimentos. De acordo com o “Education at a glance”, a quantidade de crianças de 0 a 4 anos vai cair 9% até 2033 no Brasil.