Depois de trabalhar com o roteirista americano Tom King nos gibis da Supergirl, a desenhista Bilquis Evely achou que estava na hora de se dedicar a um “projeto autoral”. Mandou para King (que está por trás de séries bem-sucedidas da Marvel e da DC e já roteirizou até histórias do Batman) um punhado de referências que faziam a cabeça dela, de literatura fantástica a ilustrações de romances do século XIX (ela é fã de Jane Austen). A partir daquelas imagens (e influenciado por “Conan, o bárbaro” e pela releitura de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë), ele inventou a história de Helen de Wyndhorn.
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Filha de um escritor maldito, Helen perdeu o pai aos 16 anos e é resgatada da prisão (onde foi parar por seu comportamento dissoluto) por uma preceptora contratada por seu avô para colocá-la na linha. As duas se mudam para uma mansão gótica no interior, onde Helen passa os dias dormindo ou agarrada a uma garrafa de vinho. À noite, ela se refugia no quarto da preceptora, dizendo que há monstros lá fora. Helen só sai de seu estado melancólico quando o avô começa a levá-la a excursões por um mundo mágico, não muito longe dali, mas que a preceptora custa a acreditar que existe.
“Helen de Wyndhorn” foi indicada a seis prêmios Eisner (o “Oscar dos quadrinhos”), incluindo o de melhor roteiro, para King, de melhor colorista para Matheus Lopes e de melhor desenhista para Bilquis. Em julho, ela se tornou a primeira brasileira a conquistar o troféu. Antes, apenas brasileiros homens haviam levado o prêmio, como Rafael Grampá, Marcelo D’Salete e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. “Helen de Wyndhorn”, que também foi eleita melhor série limitada, acaba de sair no Brasil pela Suma (selo da Companhia das Letras).
Em entrevista ao GLOBO em seu estúdio em São Paulo, Bilquis diz que a vida não mudou tanto assim depois de ganhar o Eisner:
— A vida de quem trabalha com quadrinhos é bem solitária. A gente passa muito tempo sozinho, desenhando. Quando acontece alguma coisa assim, muda um pouco, claro, mas está tudo tranquilo — diz ela, que tem 35 anos, cresceu em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo e tem o nome (em árabe) da Rainha de Sabá, personagem da Bíblia que se impressiona com a riqueza e a sabedoria do Rei Salomão.
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Rafael Grampá afirma que raramente viu um prêmio tão merecido quanto o de Bilquis: “provoca um orgulho coletivo em todos que fazem e apreciam quadrinhos”, avalia Grampá, que destaca “a exuberância dos traços” da desenhista.
— O trabalho dela evoca os grandes mestres do passado e provoca aquela sensação rara de estar diante de algo quase bíblico, de uma escultura renascentista ou de uma pintura clássica — diz o gaúcho, que recriou o Batman para a DC. — O que realmente me impressiona é a disciplina e o compromisso dela com a qualidade. Ela dedicou a vida inteira, quase de maneira monástica, a atingir a excelência, se entrega completamente à arte. Quando você olha para um trabalho dela, o que vê é fé, suor e entrega total.
Quando Bilquis ganhou Eisner, Tom King a chamou de “superstar” nas redes sociais e disse que havia sido “uma alegria e um presente e uma honra” trabalhar com ela em “Supergirl” e “Helen de Wyndhorn”. Eles só se viram duas vezes: numa visita às gravações da adaptação de “Supergirl”, dirigida por James Gunn e com Milly Alcock (“A casa do dragão”) na pele da heroína, e na entrega no Eisner, na Comic-Con de San Diego, nos Estados Unidos. Belquis que a parceria deu tão certo porque os dois se complementam.
— Eu gosto do ritmo das histórias dele. Tom é muito direto nas palavras e me deixa bem livre para desenvolver a narrativa. Por exemplo, tem uma cena de “Supergirl” em que a personagem Ruthye está parada em frente a uma porta meio alienígena, cheia de espinhos. A única indicação que ele tinha me dado era que ela estava em frente a uma porta, o que me deu bastante espaço para criar, para desenvolver o cenário. Essa dinâmica é essa, me sinto bem livre — explica a desenhista.
Fã de fantasia (J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis), Bilquis sempre gostou de desenhar, mas só pensou que essa poderia ser sua profissão aos 14 anos, quando descobriu uma revista da “Supergirl” desenhada pelo artista brasileiro Ed Benes. Antes, ela nem era tão ligada em quadrinhos.
— Quando vi a revista, tive certeza de que o meu futuro seria aquele — conta ela, que estreou desenhando a série “Luluzinha e sua turma”.
Aos 16 anos, Bilquis começou a fazer aula de quadrinhos em São Paulo. Só havia mais uma menina na turma. Na época, ela tinha apenas duas referências femininas no meio: a brasileira Adriana Mello (que participou uma antologia vencedora do Eisner) e a americana Jill Thompson (“grande mestre dos quadrinhos”, “maravilhosa”). Nas aulas, ela descobriu artistas como o americano Alex Raymond e o espanhol radicado na Argentina José Luis García López e passou a vasculhar os sebos da Praça da Sé atrás de revistas antigas.
— O traço do Alex Raymond explodiu minha cabeça! É muito complexo, sabe? Começa fininho, engrossa e afina de novo. É incrível como ele consegue passar tantas ideias com pouquíssima coisa — elogia a desenhista, que mantém uma ilustração do americano Walt Simonson na parede de seu estúdio, bem acima de sua mesa de trabalho, para “calibrar a mente” e o traço “sair fluido”.
O traço de Bilquis de fato impressiona pela delicadeza, precisão e atenção aos detalhes. Ela é uma desenhista à moda antiga: suas ferramentas de trabalho são papel, tinta preta e um pincel fininho, francês, chamado Raphaël 8404, que compra pela internet. Quanto a seu próximo projeto autoral, ela pensa em continuar ilustrando histórias fantásticas:
— Quero soltar o meu traço, desenhar umas coisas mais malucas.
Autores: Tom King, Bilquis Evely e Matheus Lopes. Tradução: Angélica Andrade. Editora: Suma. Páginas: 176. Preço: R$ 99,90.