Pular para o conteúdo
outubro 5, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,2232
News

De infestação de ratos na Ceasa a estradas sem conservação: os desafios dos seis oficiais da PM à frente de órgãos do governo do Rio

Por · outubro 5, 2026
De infestação de ratos na Ceasa a estradas sem conservação: os desafios dos seis oficiais da PM à frente de órgãos do governo do Rio


O coronel Marcelo Corbage havia acabado de deixar o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) para assumir o Comando de Operações Especiais (COE) quando recebeu uma ligação. Mudança de planos. Em vez de comandar as unidades especiais da Polícia Militar, veio uma missão no mínimo inusitada: dar um choque de ordem na Ceasa de Irajá, a principal central de abastecimento do Rio. Ao fazer o reconhecimento dos dois quilômetros quadrados do entreposto, seu primeiro desafio foi acabar com uma infestação de ratos. Saiu da caserna para a faxina.
Memória audiovisual: Arquivo Nacional e Museu da Imagem e do Som fazem campanhas para receber aparelhos de videocassete e filmes em DVD
Voos panorâmicos: FAB altera rotas de helicópteros no Rio após série de acidentes
Além do secretário de Polícia Militar, coronel Sylvio Guerra, Corbage é um dos seis oficiais da corporação que o governador interino Ricardo Couto escolheu para pôr ordem em órgãos com suspeitas de fraudes em contratos de obras e serviços e forte influência política. Completando a tropa, Carlos Eduardo Sarmento da Costa preside o Detran; Mauro Flies, o Detro; Gabryela Reis Dantas, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ); Antônio Fernandes Costa Neto, a Companhia de Desenvolvimento Rodoviário e de Terminais (Coderte); e Marcus Vinícius Porto Vieira, a Rio Trilhos. Dos seis, apenas Costa Neto é tenente-coronel. Os demais são coronéis “full”, como se diz no jargão militar.
Ao assumir interinamente, em março, Couto começou chamando procuradores do Estado para vagas no governo. Depois, estendeu o convite aos oficiais.
— A valorização do servidor público é um dos pilares da nossa gestão. Esses oficiais têm uma trajetória de dedicação ao Estado, experiência em liderança e capacidade de gestão. Tenho certeza de que estão preparados para dar sua contribuição para uma gestão eficiente — justificou Couto.
‘Caça-fantasmas’
Os seis relatam histórias parecidas: encontraram comissionados recebendo salário do governo, mas que os servidores de carreira nunca tinham visto. Não à toa, a primeira medida foi cortar os fantasmas. Somadas, as exonerações nos seis órgãos chegam a 770.
Houve ainda situações insólitas. Na Coderte, todos os contratos estavam vencidos, e ninguém sabia dizer de onde vinham os móveis das repartições, porque estavam sem identificação patrimonial. No DER, a empresa contratada para fazer segurança armada não tinha um único vigilante com arma.
— Na PM, a gente passa o comando com tudo escrito e segue à disposição de quem sentou na cadeira. Aqui, pegamos a cadeira vazia — ressalta a coronel Gabryela Dantas, única mulher do time.
A oficial herdou um DER com orçamento anual de R$ 718 milhões, com R$ 193 milhões contingenciados. Havia três anos e meio que não existia contrato de conservação das rodovias. Faltava até material para asfaltar, algo básico para um órgão cuja finalidade é cuidar das estradas. Enquanto isso, ela lista 45 obras emergenciais que aguardavam uma solução, 18 delas agora postas em andamento.
— Na folha, um engenheiro ganhava R$ 1.800, enquanto funcionários que não apareciam para trabalhar recebiam R$ 14 mil — conta Gabryela, que exonerou 85 comissionados e propôs concurso para contratar 20 engenheiros e 15 técnicos, à espera da assinatura do governador.
Acelerar é preciso
Outro ex-comandante do Bope, o coronel Sarmento, presidente do Detran, atuou antes no departamento como assessor-chefe de gestão e modernização. Ele é categórico:
— Costumo dizer que o Detran é uma PM sem ônibus queimado e bala perdida. Os problemas são parecidos: presença nos 92 municípios, muitos contratos e atendimento direto ao público.
Ao tomar posse, em maio, Sarmento diagnosticou que controles que existiam há dez anos, como câmeras nos carros usados nos exames de habilitação, se perderam.
Ele percebeu ainda que era preciso acelerar. Nos primeiros 100 dias, calcula ter feito 35% mais exames práticos de direção. Mas um gargalo, diz ele, continua sendo a identificação civil. A nova Carteira de Identidade Nacional e a exigência federal de prova de vida levaram aposentados e idosos em massa aos postos, com mais de 505 mil atendimentos em 100 dias.
Na Ilha do Governador: Advogada acusada de desviar dinheiro de idosa tem prisão convertida em preventiva
— A principal aposta é acabar com o modelo atual de vistoria. Hoje são 51 postos próprios, ineficientes e loteados politicamente. A ideia é substituí-los por cerca de 500 pontos operados por empresas credenciadas, modelo já adotado em 22 estados, entre eles São Paulo — propõe Sarmento.
Já no Detro, o coronel Flies prepara um relatório para quem assumir o departamento no próximo governo. Dos 361 servidores do órgão, 139 foram exonerados. Como é costume na PM, ele reuniu a tropa e deu seu recado:
— Eu disse que quem quisesse fazer o certo teria o meu apoio, e quem tivesse outras intenções seria atropelado. Quem ficou vem lutando para melhorar o órgão.
Pagamento suspenso
O caso mais grave averiguado foi uma dívida de R$ 25 milhões reconhecida administrativamente pela gestão anterior com o consórcio responsável pelos reboques e pelo pátio de veículos apreendidos. A nova gestão não encontrou fundamento para o pagamento e o suspendeu. Em quatro meses, diz Flies, a economia chegou a R$ 11,2 milhões, somando exonerações, revisão de contratos, redução da frota e cortes no vale-refeição. Ainda assim, o Detro opera com déficit de R$ 3,6 milhões.
Corbage, por sua vez, assumiu em julho com a prioridade de resolver problemas como o combate à infestação de ratos. Depois, partiu para a limpeza da Ceasa. Oito toneladas de lixo foram retiradas:
— Sou presidente, mas na prática sou prefeito de uma cidade de dois quilômetros quadrados. A Ceasa tem seis unidades no estado. Só a de Irajá movimenta cerca de R$ 2 bilhões por mês, gera oito mil empregos e recebe 75 mil pessoas por dia, em uma área cercada por 25 comunidades.
Caixotes espalhados representam um desafio a resolver em Irajá
Divulgação/Ceasa
A lista de desafios do coronel é extensa. Das 170 câmeras de segurança, só 36 funcionavam. Duas das três câmaras frigoríficas do Banco de Alimentos estavam paradas. Outra demanda era melhorar as contas da Ceasa. Corbage exonerou 30 comissionados e reduziu a inadimplência dos lojistas.
— Não foi milagre, foi trabalho — afirma o coronel, que diz ainda precisar resolver a desordem de caixotes espalhados pelo entreposto.
Corrigindo rumos
Na Coderte também havia urgências. Com mestrado em administração pela FGV, Costa Neto assumiu a companhia em agosto. Foi chamado às pressas quando o governo descobriu que a concessão da Rodoviária Novo Rio vencia em 29 de agosto sem nenhum plano para renová-la. No dia 25, com a Procuradoria-Geral do Estado e a Casa Civil, entregou um termo aditivo extraordinário com duração de um ano. O governador optou por deixar a decisão de firmar um contrato de 30 anos a quem for eleito.
Todos os contratos da companhia estavam vencidos, e um bloqueio judicial de R$ 7,2 milhões era iminente. A dívida foi renegociada, com abatimento de R$ 1,2 milhão.
— De janeiro a julho, o caixa acumulou déficit de R$ 2,5 milhões. Em agosto, tivemos superávit de R$ 700 mil — comemora Neto.
Ele exonerou 55 pessoas. O método foi simples: percorrer a lista nome por nome e perguntar quem conhecia cada um. Quando ninguém conhecia, a pessoa era exonerada
O último a chegar ao governo, há pouco mais de 40 dias, foi o coronel Marcus Vinícius Porto Vieira, que era vice-presidente de Flies no Detro. Na reserva desde o início de 2024, ele integrou a equipe de planejamento de grandes eventos da Secretaria de Segurança. Assumiu uma Rio Trilhos que cuida do patrimônio das linhas 1 e 2 do metrô, inclusive áreas remanescentes das desapropriações, entre elas as do camelódromo da Uruguaiana e da estação Siqueira Campos, em Copacabana. Agora, ele planeja a expansão da malha e gerencia a obra da estação Gávea, prevista para 2029.
Como os colegas, deparou-se com contratos a reavaliar, servidores desviados de função, nenhum inventário e um corpo técnico qualificado que não era ouvido.
— O fiscal da obra da Gávea é um engenheiro de 83 anos. Não recebi nenhum pedido de nomeação. Tenho autonomia total — afirma.
Os seis prometem deixar tudo por escrito aos sucessores. Acreditam que a presença deles fora dos quartéis vale mais para a imagem da Polícia Militar do que muitas campanhas institucionais. A promessa é de deixar “a casa arrumada”.

De infestação de ratos na Ceasa a estradas sem conservação: os desafios dos seis oficiais da PM à frente de órgãos do governo do Rio