BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result
No Result
View All Result
BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result

De Madureira à Penha, moradores e pesquisadores se mobilizam para reocupar antigas salas de rua

BRCOM by BRCOM
julho 19, 2025
in News
0
A fachada do antigo Cine Vaz Lobo resiste no tempo ao lado da banca de jornal — Foto: Júlia Aguiar
  • Corrida na Quinta da Boa Vista: Inscrições estão abertas; saiba como participar
  • ‘Cada erva tem uma missão’: Mercadão de Madureira aposta no digital e mantém viva a tradição; vídeo

Aos 65 anos, Luiz Carlos Pereira de Souza conhece cada canto do bairro onde nasceu e cresceu. A banca — que herdou recentemente — oferece muito mais do que jornais. Em meio a celulares antigos, quadros, luminárias e relíquias de outras décadas, ele também preserva histórias.

— O cinema era o motor do bairro — diz Pereira de Souza. — Puxava gente, comércio, conversa, vida. Hoje, muitos só veem um prédio fechado. Eu vejo a rua cheia, criança correndo, fila na porta, o burburinho antes de o filme começar.

A fachada do antigo Cine Vaz Lobo resiste no tempo ao lado da banca de jornal — Foto: Júlia Aguiar

Ao lado da banca, o antigo Cine Vaz Lobo ainda sobrevive. Na lateral, a vegetação cresce sem controle. Nos muros, proliferam os avisos de “Vende-se” e, em letras improvisadas, a palavra “herança”. A dona do imóvel, herdeira da família proprietária, ainda mora no prédio, convivendo diariamente com a estrutura desativada e com o peso do passado. Tombado por fora, desativado por dentro, o edifício permanece de pé — altivo, mesmo no abandono e apesar das ameaças de demolição. Sua arquitetura ainda impõe respeito, mas a função original se perdeu no tempo.

A memória desse espaço foi resgatada pelo professor e documentarista Luiz Claudio Lima no curta “Que cinema é esse? — Cine Vaz Lobo”, exibido este ano na Mostra de Tiradentes (MG). Um dos fundadores do Cineclube Subúrbio em Transe, Lima se dedica há mais de uma década a registrar os cinemas de rua da Zona Norte, buscando preservar o patrimônio cultural que esses espaços representam. Entre seus trabalhos estão curtas e médias-metragens que documentam a decadência e a resistência desses espaços, como o premiado “Cine Vaz Lobo”.

Os relatos colhidos por Lima mostram que, embora espalhadas por diferentes bairros, as histórias seguem roteiros semelhantes: salas que marcaram gerações hoje sobrevivem apenas nas lembranças de quem viveu seus tempos de glória.

Durante as décadas de 1940 a 1980, praticamente todos os bairros da Zona Norte contavam com pelo menos uma sala de exibição. Vaz Lobo, Madueira, Irajá, Cachambi, Méier, Penha, Anchieta, Bento Ribeiro, Rocha Miranda. Alguns cinemas ostentavam arquitetura suntuosa, inspirada nos grandes palácios de exibição americanos. Outros, como o Cine Guaraci, em Rocha Miranda, eram os queridinhos das distribuidoras, palco de lançamentos exclusivos e sessões sempre cheias.

  • Atentados a bicheiros: por que a Barra da Tijuca é cenário frequente das emboscadas? Pesquisador explica

Mas o cenário começou a mudar. O avanço da televisão, do videocassete, dos shopping centers e das transformações urbanas foi empurrando essas salas para o esquecimento. Muitos prédios foram demolidos; outros se transformaram em depósitos, estacionamentos, supermercados ou templos religiosos. Quando muito, sobraram fachadas. É o caso do antigo Cine Madureira. Na esquina da Avenida Ministro Edgar Romero, um velho prédio amarelo abriga hoje uma igreja evangélica. Sob os letreiros religiosos, restam discretos vestígios da antiga fachada do cinema, quase invisíveis para quem passa apressado.

Cine Rosário. O prédio em Ramos é alvo de campanha de revitalização — Foto: Felipe Hanower/11-6-2015
Cine Rosário. O prédio em Ramos é alvo de campanha de revitalização — Foto: Felipe Hanower/11-6-2015

— Fui ver “Cinderelo Trapalhão” com meu irmão. Nunca esqueci — diz Lima, que se dedica a registrar as memórias dos cinemas suburbanos.

Essas lembranças não são só dele. Outras histórias nasceram dentro dessas salas e resistem no tempo, como a de Antônio Carlos Teixeira, técnico de eletrodomésticos, que guarda até hoje o impacto da primeira vez que entrou num cinema. Ainda menino, cruzou a porta do Cine Guaraci e foi como atravessar um portal: da rua empoeirada para o mundo colorido de “Hércules contra os vampiros”. Era 1961. A tela grande, as imagens em movimento, o som que preenchia tudo, numa época em que a televisão ainda era em preto e branco, deixaram marcas profundas.

— Aquilo me arrebatou — lembra. — Eu tenho as imagens nítidas até hoje.

Teixeira frequentava o Cine São Francisco, que fechou primeiro, e depois o Guaraci. Para ele, o cinema era mais do que entretenimento: era o centro da vida social do bairro.

— A gente combinava tudo no cinema. Saía para ver o filme e aproveitava para encontrar os amigos, conversar, namorar, sonhar. E isso tudo a gente perdeu — lamenta ele.

Quando o Guaraci fechou, Teixeira se mobilizou para transformá-lo em centro cultural. Foram anos de tentativas com comerciantes e o poder público. Muitos queriam transformar o espaço em um banco. Ele insistia com sua proposta.

— Um centro cultural atrai gente de fora. Gente que consome, que circula. Mas poucos entendiam isso — diz.

Hoje, o prédio abriga uma loja de departamentos. A fachada foi preservada, mas o interior é outro. Ainda assim, a luta continua, agora ao lado de uma nova geração, como a da pesquisadora Tainá Andrade, autora do livro “Cine Guaraci — Um filme nunca morre”.

Ela chama a atenção para um dado preocupante: apenas 24% dos equipamentos culturais da cidade estão localizados na Zona Norte, onde vive mais de 70% da população carioca.

— Enquanto o streaming entrega o formato clássico de cinema onde quer que o público esteja, os espectadores desejam mais do que uma projeção. Eles buscam experiência, interação, presença, uma demanda que pode ser suprida justamente pelas antigas salas — avalia Tainá.

Apenas quatro cinemas de rua permanecem ativos na Zona Norte, segundo a pesquisadora — todos adaptados a novos formatos. No Méier, o antigo Imperator abriga hoje o CineCarioca, integrado ao Centro Cultural João Nogueira. Em Guadalupe, o Ponto Cine se destaca nacionalmente pela programação 100% dedicada ao cinema brasileiro. No Complexo do Alemão, o CineCarioca Nova Brasília segue em operação. E, em 2024, a Penha voltou a contar com sessões após a reabertura da unidade local, com apoio da RioFilme.

Dois desses espaços — os de Méier e Penha — funcionam em estruturas históricas revitalizadas. Os demais foram inaugurados já neste século, como novas iniciativas voltadas à cultura cinematográfica nas periferias.

Outros, porém, resistem apenas como estrutura física ou memória afetiva. Em Bento Ribeiro, o Cine Anchieta teve a fachada preservada, mas o interior foi completamente descaracterizado. Já o antigo Cine Brás de Pina deu lugar a um comércio popular.

Reocupação. Fachada do antigo Cine Madureira, onde hoje funciona uma igreja evangélica — Foto: Divulgação
Reocupação. Fachada do antigo Cine Madureira, onde hoje funciona uma igreja evangélica — Foto: Divulgação

Para Tainá, a ausência dessas salas impacta diretamente na vida cultural dos bairros:

— Sem cinema, sem cultura, sem visibilidade. Os subúrbios viram dormitórios. A desigualdade cultural se aprofunda.

A prefeitura do Rio, por meio da RioFilme, afirma estar mapeando espaços com potencial de reativação, priorizando áreas com menor acesso à cultura. A reabertura do CineCarioca Penha é um exemplo. O planejamento estratégico da empresa prevê, entre 2025 e 2028, metas para estimular a ocupação cultural de espaços desativados, como antigos cinemas de rua.

— A Zona Norte tem uma vocação cultural histórica. Os cinemas de rua fazem parte da memória afetiva e da vida comunitária dos bairros. Essa tradição ainda se reflete nas telas. Só em 2023, a região recebeu 95 produções audiovisuais — entre filmes, novelas e séries — em 1.448 diárias de filmagem — destaca Leonardo Edde, presidente da RioFilme.

Mas a reativação dos cinemas de rua, segundo Edde, só será viável com articulação entre poder público, sociedade civil e setor privado. Há conversas em curso com organizações, empresas e possíveis patrocinadores para transformar essas estruturas em polos culturais e comerciais sustentáveis.

  • Briga de trânsito: Após batida, motorista quebra bike elétrica de ciclista; vídeo

Exemplos bem-sucedidos já existem. Os CineCariocas da Penha e da Nova Brasília estão hoje integrados às comunidades e promovem ações de impacto direto, como as Sessões Azuis, voltadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA); e as parcerias com as Naves do Conhecimento, o que inclui sessões nas colônias de férias; e com as Vilas Olímpicas, que oferecem cinema gratuito para idosos.

A pesquisadora Tainá Andrade na escadaria do Cine Guaraci, em Rocha Miranda — Foto: Beatriz Orle
A pesquisadora Tainá Andrade na escadaria do Cine Guaraci, em Rocha Miranda — Foto: Beatriz Orle

Conteúdo:

Toggle
  • Não basta tombar, é preciso reativar
      • De Madureira à Penha, moradores e pesquisadores se mobilizam para reocupar antigas salas de rua

Não basta tombar, é preciso reativar

A Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec-RJ) também reconhece a urgência da pauta envolvendo a reativação dos cinemas de rua. Embora ainda não haja um programa permanente para reocupar esses espaços, editais recentes têm priorizado territórios periféricos. O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), por sua vez, atua no tombamento de antigos cinemas de rua no estado.

Entre os imóveis protegidos — seja pelo estado ou pelo município — estão Cine Bento Ribeiro, Cine Cachambi, Cine Guaraci, Cine Madureira, Cine Rosário (em Ramos) e o próprio Ponto Cine, em Guadalupe. No entanto, o reconhecimento formal, por si só, não garante a preservação nem o retorno da função cultural desses espaços.

Para a pesquisadora Tainá Andrade, é preciso ir além.

— Sem ações concretas, como fiscalização, manutenção e incentivo ao uso cultural, os cinemas seguirão se perdendo — afirma.

Ela ressalta que, segundo a legislação, cabe ao poder público zelar pela integridade física dos bens tombados, promover ações de valorização histórica e cobrar dos proprietários privados medidas de conservação e resgate da memória. Na prática, porém, essas atribuições raramente são cumpridas, e muitos desses prédios seguem abandonados ou descaracterizados.

Além disso, o tombamento não impede que os imóveis sejam destinados a outros usos. A medida reconhece a importância histórica e simbólica do local, mas não assegura sua reativação como espaço cultural.

— Para isso, seria necessária a desapropriação por parte do estado ou do município, o que, até hoje, quase nunca acontece — diz Tainá.

A historiadora Maria Celeste Ferreira compartilha dessa visão. Em 2021, ao lutar pelo tombamento do Cine Guaraci, ela chegou a ser vítima de agressões físicas.

— Mas não me calaram — ressalta. — O que está em jogo é muito maior. É o direito à memória.

Para ela, o fechamento das salas de cinema faz parte de um apagamento deliberado da identidade cultural da Zona Norte. Ele cita o artigo “As salas de cinema no subúrbio carioca do século XX”, no qual Raquel Gomes de Souza informa que entre 1935 e 1984 os subúrbios lideraram o número de cinemas na cidade, com 128 salas de exibição — mais que o dobro da Zona Sul, que contava com 53 no mesmo período.

— É um mito essa ideia de que a cultura mora apenas na Zona Sul — pontua. — O artigo detalha ainda que esses 128 cinemas estavam espalhados por 46 bairros suburbanos. Madureira chegou a ter 11 salas. A Penha, oito. Méier e Ilha do Governador, seis cada. Outros bairros tinham entre uma e cinco salas. Bonsucesso passou de uma para cinco; Ramos chegou a quatro; Irajá teve três; Oswaldo Cruz, duas; e Vaz Lobo, uma. Os números foram levantados por Raquel.

Luiz Claudio Lima, Tainá Andrade (ao centro) e Celeste Ferreira diante do Cine Vaz Lobo — Foto: Júlia Aguiar
Luiz Claudio Lima, Tainá Andrade (ao centro) e Celeste Ferreira diante do Cine Vaz Lobo — Foto: Júlia Aguiar

Celeste alerta que o desaparecimento desses espaços impactou diretamente o cotidiano e a vitalidade dos bairros:

— Os cinemas movimentavam o comércio, traziam segurança, geravam fluxo de pessoas. Eles não representava apenas um negócio, eram equipamentos culturais. Espalhados em cada bairro, moldavam costumes, lançavam modas e divulgavam diferentes visões de mundo, mesmo com o quase monopólio de filmes americanos. Com o fechamento deles, muitos desses bairros deixaram de ser pontos de encontro para virar apenas lugares de passagem.

Outro guardião dessa memória é o historiador André Pereira, que mantém uma página nas redes com fotos e registros históricos de Vaz Lobo. Parte desse acervo estará no livro “A história do bairro Vaz Lobo”, com uma imagem rara do antigo cinema na capa. Ele lembra que os antigos cine-teatros eram verdadeiros monumentos, com arquitetura imponente em estilo art déco ou neoclássico.

— Hoje ninguém entra num shopping para admirar o teto de uma sala de cinema — constata.

Nas décadas seguintes, muitas dessas construções foram compradas por igrejas evangélicas, principalmente pentecostais, por já contarem com palco, cadeiras e boa acústica.

— Se não fossem as igrejas, muitos teriam sido demolidos. Hoje, a preferência recai sobre galpões e estruturas mais baratas, devido ao custo de manutenção — diz.

Pereira defende a reocupação dos cinemas com projetos de uso misto — cinema, centro cultural e espaço educacional. Ele criou um plano para o Cine Vaz Lobo, com sessões populares, oficinas e visitas escolares. O prédio ainda preserva parte da estrutura original, mas sofre com o abandono.

O jornalista e professor doutor em Políticas Sociais Claudio Jorge Soares, vice-presidente do Instituto Cultural 100% Suburbano, é um dos defensores da preservação dos cinemas de rua. Morador da Zona da Leopoldina, ele cresceu frequentando salas do subúrbio e se tornou militante da cultura popular e pesquisador das transformações urbanas nos territórios periféricos. Para Soares, a degradação desses cinemas é sintoma de um problema mais amplo que engloba o abandono pelo poder público, o avanço desenfreado de shoppings e condomínios e a substituição de espaços culturais por modelos que ignoram a memória local.

Ele lidera a mobilização pela revitalização do Cine Rosário, fechado desde 1997 e tombado, mas sem receber políticas efetivas de preservação. Apesar do abandono, o prédio mantém elementos originais, como lustres austríacos e piso de mármore.

— Sem fiscalização, o tombamento é um gesto vazio — frisa.

O instituto propõe transformar o espaço em centro cultural. Soares já garantiu uma promessa de verba federal — condicionada, no entanto, à parceria com a prefeitura, que até agora não demonstrou interesse, afirma. Para ele, o descaso é reflexo do preconceito institucional contra os subúrbios:

— Falta vontade política. Mas há uma rede mobilizada e uma consciência crescente sobre o valor cultural desses territórios.

Soares destaca que a reativação do Cine Rosário pode marcar a recuperação da autoestima da Leopoldina, fomentar a economia local e fortalecer a cultura do bem viver — passos fundamentais para devolver vida a bairros historicamente deixados de lado.

De Madureira à Penha, moradores e pesquisadores se mobilizam para reocupar antigas salas de rua

Previous Post

Francese, de Elia Schramm, abre as portas em Ipanema

Next Post

Pesquisa: 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6×1, mostra a Quaest

Next Post
Pesquisa: 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6x1, mostra a Quaest

Pesquisa: 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6x1, mostra a Quaest

  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.

No Result
View All Result
  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.