A câmera passeia lentamente pela sala até alcançar Paulo Leminski, sentado diante de uma máquina de escrever, cigarro na boca, óculos de aviador e aquele conhecido bigodão. Tudo em volta dele é papel e livro, amontoados sobre o chão, por prateleiras e demais móveis daquele espaço. Ao fixar os olhos à lente, o escritor recita um poema, aparentemente, improvisado. E completa: “Eu acho que a poesia… ela é um inutensílio. […] ela é a própria razão de ser da vida”.
Esse trecho faz parte dos primeiros minutos do documentário “Ervilha da Fantasia”, dirigido por Werner Schumann, que está na programação Flip + Cinema da Praça. A última exibição acontece neste sábado (2), às 14h, na Praça da Matriz. A obra faz pensar: qual seria, afinal, a utilidade da poesia?
Com mesa amanhã no auditório principal da Flip, Sérgio Vaz é o primeiro a dar um chute:
— Tem uma situação que é assim: alguém nos para na rua, no metrô, na padaria e fala “pô, aquele seu texto mexeu comigo”. Você pergunta o porquê, e a pessoa não sabe explicar. E ela realmente não precisa saber. A utilidade é causar essa sensação, como um samba que você não está apegado à letra, mas a melodia te faz dançar.
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Em uma entrevista, Manoel de Barros, um dos grandes no gênero, afirmou: “Sou absolutamente inútil, só sei fazer poesia. Digo sempre que sou bom administrador do inútil”.
Com doutorado dedicado a Manoel e a Leminski, o poeta Fábio Santana Pessanha, presente na Flip, recorre a uma metáfora para entrar no debate.
— Um copo tem uma utilidade que surge com validade. Quando quebra, nos desfazemos dele. No entanto, há pessoas que podem criar uma função para este copo quebrado, fazendo dele algo novo, diferente. A poesia é isso, está além da materialidade. Ela aparece com esse fazer algo diferente e novo. Se a gente fala que a poesia tem utilidade, ela morre, porque isso a impede de ser inventiva, transformadora.
Pode parecer que essa avaliação se distancia de outra ideia ligada à poesia, a de que ela existe para um extravasamento, um alívio de emoções. Clarice Lispector, por exemplo, costumava dar à escrita esse papel. No livro “Um sopro de vida”, ela foi enfática: “Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”. Mas Fábio avança na questão, afirmando que a poesia não tem uma serventia prática, e sim uma pessoal (para o autor, ou para o leitor).
— A poesia é um caminho para nos apropriamos de nós mesmos. Ela nos salva porque estamos em criação. Sabe aquele dia que parece que nada deu certo? Às vezes, chegar em casa e escrever um poema, que seja uma frase, já pode ser o alívio para a nossa satisfação. A gente se salva palavra por palavra, sem que elas, necessariamente, tenham uma serventia. A utilidade é nosso êxtase.
Alice Ruiz, viúva de Leminski e poeta de agenda cheia nesta Flip:
— Paulo achava que poesia não servia para nada, é isso mesmo. É completamente inútil, não precisa de um porquê para ser feito. E a graça, para mim, é exatamente essa, escrever sem motivo, sem ficar procurando razão.
Essa “desutilidade”, usando termo de Manoel de Barros, é interpretada pela poeta Jéssica Balbino como aconchego. Na Flip para lançamento do livro “Porca gorda” (Barraco Editorial), ela comenta como a ideia de “inutensílio” pode aliviar o trabalho do escritor.
— A nossa sociedade está muito presa à entrega das coisas, a essa obrigação de produtividade, de resultado. Para mim, a inutilidade dita por Leminski possibilita um lugar de descanso. Eu penso: “Dá para ser inútil, dá para somente ser”. E isso é libertador, é completamente fora da lógica atual, tão mercantilizada.
Leminski declarava também que todo poeta nasce com erro na programação genética, que seria a capacidade de brincar e ver beleza nas palavras. Um de seus questionamentos, inclusive, era em relação à quantidade daqueles que se dedicam à poesia após adultos, quando tudo se torna mais importante do que ela. Quem resiste é chamado por ele de herói.
Na grade de programação da festa, o projeto Caprichos e Relachos (nome de um livro do homenageado), no Café da Flip, traz a participação de 15 desses heróis, que têm, cada um, cerca de 20 minutos para ler seus versos. Hoje, às 16h20, vai ser a vez de Estrela Leminski, filha do homenageado.