Uma propaganda de 1920 prometia: “Aumenta progressivamente o busto da mulher, dando formosura e elegância, desenvolve, fortifica e aformoseia os seios, fazendo crescer e endurecendo rapidamente por mais moles e caídos que sejam!!!”. O produto atendia pelo nome de Pasta Russa, era vendido em farmácias e perfumarias e assegurava resultado após dois meses de uso. Seu anúncio integra uma publicação daquele ano que reúne centenas de fotografias do Rio e peças publicitárias de produtos e serviços da época.
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Anúncio de 1920 da Pasta Russa, produto que prometia embelezar os seios femininos
Madson Gama
Produzido em homenagem à visita ao Brasil do rei Alberto I, então monarca da Bélgica, com imagens de cenários como Praia do Flamengo, Passeio Público, Arcos da Lapa, Avenida Rio Branco, Largo da Carioca e Theatro Municipal, o “Álbum da Cidade do Rio de Janeiro” é uma das preciosidades em exposição na Biblioteca Carioca, espaço inaugurado em setembro no segundo andar do Centro Cultural Lavradio, no centro do Rio. A obra, assim como 80% do acervo do local, é fruto de garimpos do artista plástico Charles Barreto na Feira de Antiguidades da Praça Quinze. A visitação é aos sábados, das 10h às 18h.
Livros, imagens e objetos antigos compõem o acervo da Biblioteca Carioca, dedicada à história e à memória do Rio, na Rua do Lavradio
Ana Branco
São 880 obras, entre livros, revistas, álbuns, panfletos e anúncios, que preservam a memória do Rio, permeando diferentes aspectos da vida e dos costumes cariocas nos séculos XVIII, XIX e XX. A biblioteca, instalada num casarão de 1874, na Rua do Lavradio, permite uma viagem a universos como o da gastronomia, do comércio, da imprensa, dos bairros, do teatro, da fotografia, das personalidades, da arquitetura, das artes plásticas, da literatura, da música e da fauna e da flora da época.
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O que se comia naqueles tempos? Parte da resposta fica por conta de um exemplar de 1909 do “Cozinheiro Nacional” (Editora Garnier).
Exemplar de edição especial de “Os Lusíadas”, ícone da literatura portuguesa, integra o acervo da Biblioteca Carioca
Ana Branco
Macaco, tartaruga e paca
Um dos primeiros livros de culinária lançados no Brasil, em 1860, ele ensina receitas inusitadas, com ingredientes como macaco, tartaruga ou paca fritos ou ensopados.
“Cozinheiro Nacional”, um dos primeiros livros de culinária lançados no Brasil
Ana Branco
O guia traz ainda sopas, carnes, peixes e legumes, além de orientações sobre a arte de servir à mesa. No Jockey Club Brasileiro, predominava uma combinação das técnicas europeias e brasileiras, com pratos como guisado à milanesa e picadinho de carne seca com quiabo, como mostra uma coleção de 31 menus do local produzidos entre 1972 e 1976. As páginas apresentam, em francês — mas com tradução para o português — os pratos do dia e seus preços. Gravuras com cartões-postais da cidade pintadas a bico de pena, como a própria sede do Jockey e a Praça Paris, também compõem o cardápio.
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Cardápio do Jockey Club na década de 1970
Ana Branco
Ícone da literatura portuguesa, “Os Lusíadas”, poema épico de Luís de Camões, também está na biblioteca. Um dos 112 exemplares publicados numa edição especial de 1880, cuja lista de destinatários inclui Dom Pedro II e o Real Gabinete Português de Leitura, faz parte do acervo. O imperador é também um dos personagens retratados em outra raridade do acervo: um exemplar, dividido por décadas, da edição do centenário do Jornal do Comércio, publicada em 1922, com imagens de Pedro II em sua coroação e de personalidades como a imperatriz Leopoldina e Prudente de Moraes, o terceiro presidente da República.
Tesouro na mala
Em breve, o material exposto será enriquecido por documentos do Teatro Ipanema encontrados dentro de uma mala na feira de antiguidades.
— Era um dia de chuva, e vi a mala no chão, entreaberta. Comprei por R$ 80 e fui embora. Só fui ver o valor real do que eu tinha encontrado quando cheguei em casa: era tudo do Rubens Corrêa e do marido dele, Ivan Albuquerque, sócios do Teatro Ipanema por cerca de 30 anos. Há correspondências, contas, o programa do teatro, fotos em preto e branco e peças com carimbos de censura ou autorização pela ditadura — conta Charles Barreto, idealizador da biblioteca e diretor cultural do Grupo Scenarium, do qual o Centro Cultural Lavradio faz parte.
Natural de Aracaju, Charles, de 59 anos, iniciou sua relação com a Feira da Praça Quinze logo que se mudou para o Rio, há cerca de 30 anos, movido pela curiosidade. Desde então, passou a frequentar o evento todo sábado. Na época, ele ainda atuava na área de tecnologia de uma multinacional americana, profissão que abandonou há 15 anos, após problemas de saúde, para mergulhar de vez nas artes plásticas.
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Hoje, além de colecionar livros raros, dedica-se à pintura e à produção de assemblages, obras tridimensionais construídas a partir da união de materiais do cotidiano.
Charles Barreto, artista plástico e idealizador da Biblioteca Carioca, entre obras de sua exposição no Centro Cultural Lavradio
Ana Branco
O impulso que faltava para a transição de carreira veio após Charles apreciar uma mostra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, que se tornou uma de suas inspirações e, atualmente, é um dos homenageados numa exposição sua no térreo do centro cultural.
— A Praça Quinze passou a fazer parte do meu apreço genuíno por esse universo e se tornou a minha principal fonte de materiais, a partir de garimpagens aleatórias. Normalmente, compro itens entre R$ 30 e R$ 80, porque vou usar algum dia, para colecionar ou por pura curiosidade — explica Charles Barreto.
Manuscrito de 1950, em que um jovem, Leandri, revela ser apaixonado pelo melhor amigo, Mauro
Ana Branco
Dividindo espaço com Bispo do Rosário, há, entre outros achados da Praça Quinze, um manuscrito de 1950, em que um jovem, Leandri, revela ser apaixonado pelo melhor amigo, Mauro. As páginas narram o drama de um desejo não correspondido e reprimido devido ao preconceito e julgamento da família e da sociedade. “Passeei longamente, uma vez, com o Mauro, de lancha. Tomávamos depois banhos de sol em praias desertas, olhando as ondas, falando palavras de encantamento. Depois, ele adormecia suavemente. E eu, noites e noites, ajoelhado ao pé da cama, com a sua adorável e febril cabeça entre minhas mãos trêmulas, cobria-a de beijos”, diz um trecho do diário.
— Aparentemente, era uma família bem situada, que morava no Leme. O pai de Leandri foi nomeado pelo Itamaraty para fazer uma representação do Brasil no Paraguai, durante seis meses. Foi nesse período que ele se sentiu mais livre para ir a shows, ativar a vida sexual e se aproximar mais desse amigo, sempre acreditando que seria correspondido. Embora soubesse das intenções de Leandri, Mauro, que namorava uma menina, não se afastava. Como o diário não é conclusivo, não dá para saber como essa história termina — relata Charles.
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De receitas inusitadas a anúncios de 1920: biblioteca no Centro preserva raridades da história do Rio; confira
