Pular para o conteúdo
setembro 25, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,1985
News

De volta à ficção, John Green fala sobre envelhecimento, prós e contras da internet e por que dissociou sua identidade do trabalho

Por · setembro 25, 2026
De volta à ficção, John Green fala sobre envelhecimento, prós e contras da internet e por que dissociou sua identidade do trabalho


Kai, jovem ator que é um dos narradores de “Um final de cinema”, novo romance de John Green, reclama das “maratonas de entrevistas” a que precisa se submeter para divulgar seus projetos: os jornalistas sempre fazem as mesmas perguntas. O escritor americano cai na risada quando este trecho é mencionado na conversa. Desde o sucesso de “A culpa é das estrelas” (2012), ele está acostumado a essas maratonas. Foi numa delas que ele falou com o GLOBO, por vídeo, de Nova York — Green mora em Indianápolis, com a mulher, Sarah Urist, e os dois filhos (Henry e Alice), mas foi à megalópole para compromissos de trabalho.
‘A maior frustração profissional’: Zuenir Ventura fez entrevista rara com Fidel Castro, mas teve material confiscado
Siri Hustvedt: Em livro sobre luto, viúva de Paul Auster fala de traumas familiares e machismo no meio literário
Uma pergunta certamente se repetiu em todas as entrevistas: por que ele demorou tanto a lançar um romance novo? Sua última ficção, “Tartarugas até lá embaixo”, protagonizada por Aza Holmes, adolescente com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), saiu em 2017. De lá para cá, Green se concentrou na não ficção — “Antropoceno: notas sobre a vida na Terra” e “Tudo é tuberculose” — e no canal @vlogbrothers, que mantém com o irmão, Hank.
“Um final de cinema” também é seu primeiro romance para o público adulto. Green é o rei da ficção para adolescentes: só “A culpa é das estrelas” vendeu mais de 20 milhões de cópias pelo mundo. O livro novo é narrado por dois atores de 20 e poucos anos. Juniper é uma ambiciosa ex-atriz mirim lidando com o luto da mãe, que também era sua agente (“Sinto falta da pessoa que mais me machucou”, diz). Kai é um rapaz solar, que não pensa duas vezes antes de dizer “eu te amo” e é obrigado a ver um trauma do passado transformado em estratégia de divulgação da cinebiografia “Andy Warhol nunca envelhece”. Kai interpreta um assistente de Warhol e Juniper, uma jornalista empenhada em escrever um perfil do artista que previu a conversão da vida privada em mercadoria.
Ao GLOBO, Green admitiu se esforçar para que o trabalho não se transforme em sua identidade, disse que envelhecer nunca deixa de ser “estranho” e, é claro, explicou por que demorou tanto tempo para voltar à ficção.
George Saunders retrata horas finais de negacionista em novo livro: ‘Ser bom também é ser transformador’
Andy Warhol é figura central no livro. De certa forma, ele previu dilemas enfrentados pelos personagens, não?
Warhol anteviu o mundo que estava por vir. Ele percebeu que caminhávamos para a mercantilização do eu, a transformação de tudo em telas, a bidimensionalização da experiência humana. Questões que antes só estrelas de Hollywood enfrentavam agora dizem respeito a todos nós.
É como se todos fôssemos atores de Hollywood.
Sim! Hollywood leva ao extremo o que estamos todos vivendo. Qualquer post, sobre um divórcio ou a morte de um animal de estimação, vira matéria-prima para a internet fazer o que quiser. Anos atrás, quando meu irmão foi diagnosticado com câncer, percebemos que não tínhamos escolha: ou falávamos disso publicamente ou Hank desapareceria oito meses da internet. Além do medo e trauma que acompanham uma doença grave, tínhamos que pensar na repercussão, na vida real e na internet.
‘Nossa luta continua viva’: Angela Davis fala de envelhecimento, troca intelectual com a esposa e ameaças aos direitos das mulheres
Sua esposa é curadora e especialista em Andy Warhol. Como ela influenciou o livro?
Escrever sobre Warhol, de certa forma, foi uma declaração de amor a Sarah. Ela é minha primeira e mais importante leitora. Na primeira versão de “Um final de cinema”, eles rodavam um filme de guerra. Ela leu e disse: “Gostei muito, mas não entendi por que eles fazem um filme de guerra se o livro é sobre a tensão entre a vida pública e a vida privada.” Anos antes, eu havia escrito uma história sobre um autor que tentava escrever um livro chamado “Andy Warhol nunca envelhece”. Sarah sugeriu que eu aproveitasse a ideia. Se não fosse ela, Warhol nem estaria no livro.
Kai diz que gosta de atuar para ter uma “trégua” de si. Também é por isso que você escreve, dar um tempo de si?
Uma das coisas mais estranhas de ser uma pessoa é estar o tempo todo dentro de uma única consciência, que vê o mundo de uma perspectiva específica. Até as pessoas que são mais próximas de mim, eu as enxergo em relação a mim, no meu contexto. Minha responsabilidade como escritor é imaginar os outros em toda a sua complexidade, sentir empatia e, tanto quanto possível, tentar compreender como é ser outra pessoa. Dá muito trabalho, mas é um jeito de escapar de mim.
Juniper diz: “Aquela história de que o que não te mata te fortalece, ou que tudo acontece por um motivo, é uma baita mentira, mas uma coisa é verdade: você sobrevive.” É como sua obra aborda o sofrimento, talvez seu tema mais recorrente.
Simplificar ou minimizar o sofrimento é um enorme desserviço. Precisamos encontrar maneiras de ter esperança sem deixar de reconhecer a realidade catastrófica e injusta à nossa volta. Na minha carteira, eu guardo um papel que diz que no ano em que eu terminei o ensino médio, 12 milhões de crianças com menos de 5 anos morreram. No ano passado, foram menos de cinco milhões. É um lembrete de que os seres humanos são bem-sucedidos quando se unem para tornar o mundo um lugar mais seguro. Ainda assim, cinco milhões de crianças vão morrer este ano em consequência do nosso fracasso. Sustentar essa contradição é uma das coisas mais difíceis e também mais importantes do mundo. Do contrário, simplificamos demais a história humana.
A resenha de “Um final de cinema” no New York Times diz: “Green certamente se vê em Juniper.” É verdade?
Nós dois somos mais ambiciosos do que gostaríamos, mas felizmente minha identidade está cada vez menos ligada ao trabalho e mais ao fato de eu ser um pai de meia-idade em Indianápolis que leva os filhos a jogos de vôlei. É bom que seja assim, porque, se a maior parte da minha vida gira em torno do trabalho, minha identidade acaba atrelada à reação das pessoas a meus livros. É um jogo perigoso, porque sempre haverá muitas reações negativas. Deixar essas reações me definirem pode ser muito destrutivo. Já vi isso acontecer na vida de muitas pessoas.
Mas a recepção aos seus livros costuma ser positiva.
É verdade, mas eu só vejo o narrativo. As resenhas do livro novo têm sido extraordinárias, os leitores são muito generosos comigo. Preciso internalizar isso melhor.
Por que ficou tanto tempo afastado da ficção?
Não sabia para que a minha ficção servia. Escrever “Um final de cinema” me devolveu o sentimento que conheci aos 8 anos, quando comecei a escrever histórias. Não escrevia pensando no público, nem encarava a escrita como trabalho. Escrevia porque era um ato prazeroso de expressão criativa. Em algum momento, perdi contato com essa alegria, que recuperei escrevendo este novo romance.
Quando soube que desta vez não estava escrevendo para adolescentes?
Percebi muito cedo, porque queria escrever sobre os problemas que enfrentamos aos 20 e poucos anos. Com essa idade, eu me sentia completamente despreparado para o mundo adulto. É nessa fase que escolhemos quem serão as pessoas com quem vamos compartilhar a vida — e isso é mais importante do que escolher o que vamos fazer da vida.
Você fez um vídeo celebrando a resenha do New York Times e disse que a pior parte foi ter sido chamado de “autor de 49 anos”. Como lida com o envelhecimento?
É estranho envelhecer, se dar conta de que o seu corpo é menos capaz do que era dez anos atrás. Isso nunca vai deixar de ser estranho. Minha esposa costuma me lembrar de que nunca seremos tão jovens como agora, então devemos aproveitar nossa relativa juventude. Estamos neste mundo por um período muito curto e é uma enorme dádiva estar aqui, mesmo que o presente seja tão complicado e doloroso. Caminhando para cá, nesta manhã fresca de outono em Nova York, pensei nas versões anteriores de mim que nunca imaginaram que chegaria onde cheguei e que encontraria tanta alegria nesta fase da vida.
Em “Antropoceno”, você pergunta: “O que significa eu ter minha maneira de pensar, e minha maneira de ser, tão profundamente moldadas pela lógica da internet?” Já chegou a uma resposta?
Minha vida e meu pensamento estão tão ligados à internet que é difícil me desvincular da experiência on-line. Por um lado, sou extremamente grato à minha comunidade virtual, a quem assiste aos vídeos que Hank e eu fazemos. Por outro, reconheço que a economia da atenção empobreceu as experiências culturais e que as redes sociais muitas vezes desumanizam as pessoas. A questão da internet é complexa, não dá para reduzir a uma resposta única. A internet é tanto o Google Maps, que acho incrível, quanto o Twitter, extremamente problemático. É difícil separar.
Serviço:
‘Um final de cinema’
Autor: John Green. Tradução: Alda Lima. Editora: Intrínseca. Páginas: 288. Preço: R$ 69,90.

De volta à ficção, John Green fala sobre envelhecimento, prós e contras da internet e por que dissociou sua identidade do trabalho