O Bar Madrid completou 10 anos no último sábado. Desde quando eu era vizinho de bairro, ou nos dias em que atravesso o túnel só pra garantir um maracugibre gelado, o bar da Almirante Gavião segue sendo daqueles endereços que não se medem em distância, mas em importância. Não é só um balcão, é uma bússola afetiva. Para celebrar a data redonda, resolvi listar dez coisas que só o Madrid é capaz de dar.
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1. O Madrid nasceu inspirado nas tabernas espanholas — daquelas de Madri, Galícia e até do caminho de Santiago de Compostela. Mas, ao aportar na Tijuca, ganhou sotaque próprio: mistura quase perfeita entre duas grandes escolas da mesa e do copo. A espanhola, da tapa generosa; e a tijucana, da mesa farta e da cerveja gelada. Resultado: um bar ibero-carioca que poderia ser tese de antropologia da boemia.
2. Pastel de jiló com linguiça mineira. No Madrid, jiló é amor antigo: muito antes de figurar em cardápios moderninhos, já brilhava no balcão doutrinando qualquer comensal para esquecer a birra com o amarguinho.
3. Serve tinto de verano — vinho, gelo, limão e Sprite — sem cerimônia, como quem lembra que a vida pode ser simples e gostosa. As bebidas são a alma da casa. Ali está a melhor batida de maracujá do Rio e uma das melhores de gengibre. Mas nada supera quando as duas se encontram na pororoca etílica tijucana chamada maracugibre: patrimônio líquido do bairro.
4. Há um retrato (oficial e original!) de Getúlio Vargas na parede, uma foto do Papa Francisco e outra do Brizola que mereceu até inauguração. Mais cativante que todos, um quadro de Julio Iglesias. Beber com Julio estampando um “hay que beber y lo sabes” é convite irresistível ao brinde. Poucos bares no Rio têm patrono tão improvável quanto charmoso.
5. Patronos distintos, alma da casa singular: trata-se do Severo, um dos melhores garçons do Rio. A antítese do estereótipo de que a cidade não sabe atender com destreza e simpatia.
6. De vez em quando, surgem as coxinhas de frango com alho-poró. E quando aparecem, deixam qualquer concorrente dopada de catupiry no chinelo. São aparições raras que valem como gol de placa: você exibe como troféu e ainda mostra a foto.
7. Os adornos do Madrid também são um compêndio futebolístico de contrastes: os gigantescos Zidane e Real Madrid dividem parede com o America e o La Coruña, que já viveram tempos melhores. Todos juntos, porque no Madrid a bola (e o cliente) são tratados com devoção, estejam no champagne do sucesso ou na ressaca da má fase.
8. Atrás do balcão, dois sócios e um contraste perfeito: Felipinho, um taberneiro bronco que disfarça coração doce; e o Deco, simpatia em estado líquido — às vezes pra lá de líquido, mas sempre em equilíbrio.
9. Se bebe… e também se aprende. Tem as aulas na rua do Simas, a Livraria Casa da Árvore em frente… É o boteco que mostra que cerveja e pensamento crítico valem ser misturados no mesmo copo americano. No aniversário de 10 anos, nada de DJ na calçada — o brinde foi um lançamento de livro de José Trajano, americano e lendário, como o próprio bar.
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10. O Madrid já foi bar da moda. Hoje não é mais, e ainda bem. Nunca quis ser “experiência”: sempre foi bar de bairro, jeitão de mercearia de rua, prazer em chamar a vizinha por nome e gosto. Essa vocação de proximidade fez a fama atravessar zonas, cidades e até países. E garantiu a sobrevivência em dez anos difíceis, mas maravilhosos. Que venham outros. Porque o Rio fica melhor quando o Madrid está aberto.
Bar Madrid. Rua Almirante Gavião, 11. Tijuca. De quarta a domingo, das 11h às 18h.