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setembro 23, 2026
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Diplomatas levaram meses para elaborar acordo sobre Groenlândia que pudesse apresentar recuo de Trump como vitória

Por · setembro 23, 2026
Diplomatas levaram meses para elaborar acordo sobre Groenlândia que pudesse apresentar recuo de Trump como vitória


Em janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou clara sua necessidade de assumir o controle de toda a Groenlândia e transformá-la em território americano. Na época, o líder republicano chegou a dizer que isso era o que sentia ser “psicologicamente necessário para o sucesso”, acrescentando que “a propriedade lhe dá coisas e elementos que você não consegue obter apenas assinando um documento, que permite que você tenha uma base”.
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Na terça-feira, porém, ele assinou um documento que abre caminho para a ampliação da presença militar americana na ilha, com a abertura de novas bases. Mas o texto não chega a transferir qualquer território aos Estados Unidos, e ninguém — especialmente a Dinamarca, que governa o vasto, mas em sua maior parte desabitado território — enfatizou esse ponto por receio de que Trump pudesse renunciar ao acordo que acabara de classificar como “extraordinário para a Europa e para os EUA”.
Para Trump, foi um grande recuo. Ele levantou pela primeira vez a possibilidade de comprar a Groenlândia durante seu primeiro mandato e nunca abandonou a ideia. Mesmo antes de tomar posse, já apresentava argumentos de segurança nacional para incorporar o território aos Estados Unidos, plenamente consciente de que, se conseguisse fazê-lo, seria uma aquisição em escala comparável à compra da Louisiana pelo presidente Thomas Jefferson.
A pressão americana também se tornou um dos principais pontos de atrito entre o governo Trump e os aliados europeus, sobretudo diante do temor de que Washington pudesse recorrer a uma ação militar contra o território pertencente à Dinamarca, integrante da Otan. Não há evidências de que Trump tenha considerado seriamente essa possibilidade, mas isso não foi suficiente para dissipar as preocupações entre os europeus.
Mudanças limitadas
Diplomatas envolvidos na elaboração do acordo de dez páginas disseram que passaram meses trabalhando na redação do documento e, depois, aguardaram o que consideravam ser o momento adequado para apresentá-lo a Trump. Mesmo assim, havia apreensão sobre a reação do presidente e sobre a possibilidade de ele decidir alterar os termos negociados, como fez com a Arábia Saudita apenas um dia após assinar um acordo sobre energia nuclear.
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Os negociadores reconhecem que não é possível determinar se Trump abandonou definitivamente sua insistência em possuir a Groenlândia. A estratégia, segundo eles, foi oferecer ao presidente americano elementos suficientes para que pudesse apresentar o acordo como uma conquista, mesmo que muitas de suas disposições já estivessem implícitas no pacto firmado em 1951 e nos entendimentos posteriores.
— É um preço extraordinariamente alto a pagar por mudanças relativamente limitadas — disse Mikkel Runge Olesen, pesquisador do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, descrevendo o documento final como apenas uma melhoria moderada para os EUA, alcançada a um custo político considerável, e acrescentando que as ameaças de Trump provocaram danos duradouros às relações com a Dinamarca, a Groenlândia e a Europa.
O acordo de 1951 já concedia aos EUA, na prática, o direito de construir bases em diferentes pontos da Groenlândia. No auge da Guerra Fria, os americanos mantinham mais de uma dúzia de instalações na ilha. Em determinado momento, Washington chegou a desenvolver um plano para instalar uma base de armas nucleares sob o gelo groenlandês.
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Os altos custos de manutenção das instalações e, depois, o fim da Guerra Fria levaram ao abandono de muitas dessas estruturas. Uma das bases que permaneceram em operação é a Base Espacial de Pituffik, visitada pelo vice-presidente americano, JD Vance, em 2025. Durante a viagem, ele afirmou que os EUA precisavam “acordar” para as ambições da China e da Rússia na região e que a Groenlândia não podia “simplesmente enterrar a cabeça na neve”.
A visita de Vance provocou novas preocupações sobre as intenções dos EUA, mas as reações ao acordo anunciado nesta semana foram positivas na Dinamarca e na própria Groenlândia. Para Naaja Nathanielsen, integrante do Parlamento dinamarquês e membro de um partido groenlandês de esquerda favorável à independência, uma das partes mais significativas está na página de assinaturas. Pela primeira vez, a Groenlândia aparece, ao lado da Dinamarca, como signatária direta de um acordo internacional juridicamente vinculante.
— Esta é a primeira vez que realmente tivemos um lugar à mesa — disse. — Isso é algo de que nos orgulhamos.
A participação direta da Groenlândia no acordo poderá estabelecer um precedente para uma autonomia maior do território em questões de política externa, acrescentou. O texto também introduz uma disposição sobre o que aconteceria com o pacto caso a Groenlândia exercesse seu direito à autodeterminação e se tornasse independente. Nesse cenário, diz o documento, “o governo do Reino da Dinamarca e o governo da Groenlândia deverão, em conjunto, assegurar que o Estado groenlandês independente concorde em permanecer na Otan”.

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