O primeiro-ministro interino da Tailândia, Phumtham Wechayachai, advertiu nesta sexta-feira que os confrontos mortais na fronteira com o Camboja — os mais graves em mais de uma década — podem “desencadear uma guerra”. O alerta ocorre no segundo dia de confrontos transfronteiriços que deixaram mais de 15 mortos e dezenas de milhares de pessoas evacuadas.
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“Se a situação se agravar, pode evoluir para uma guerra, embora por enquanto continue limitada a confrontos”, declarou à imprensa em Bangkok, no segundo dia de combates entre os dois reinos do sudeste asiático.
Na quinta-feira, 24, uma disputa territorial de décadas derivou em hostilidades intensas entre ambos os reinos, com a mobilização de aviões de combate, artilharia, tanques e infantaria, que preocuparam a comunidade internacional.
O Ministro do Interior tailandês afirmou que mais de 138 mil civis nas quatro províncias que fazem fronteira com o Camboja, incluindo 428 pacientes hospitalizados, foram transferidos para abrigos temporários.
O número de mortos nos confrontos na Tailândia subiu na sexta-feira para 15 — um soldado e 14 civis — e 46 feridos.
Em seu primeiro relatório desde o início das hostilidades, as autoridades provinciais cambojanas relataram um morto e cinco feridos.
Os combates recomeçaram em três áreas na manhã desta sexta-feira (hora local), informou o Exército tailandês.
As forças cambojanas bombardearam a área com armas pesadas, artilharia e foguetes BM-21, e as tropas tailandesas responderam “com o apoio de fogo apropriado”, explicou.
Na cidade cambojana de Samraong, a cerca de 20km da fronteira, jornalistas da AFP ouviram disparos de artilharia distantes na manhã de sexta-feira.
Ao ouvir os tiros, famílias com crianças rapidamente carregaram seus pertences em seus carros e fugiram da área, enquanto alguns soldados pegaram lançadores de foguetes e se dirigiram rapidamente para a fronteira.
– Moro muito perto da fronteira. Estamos com medo porque eles começaram a atirar novamente por volta das 6h – explicou Pro Bak, um homem de 41 anos que está levando a esposa e os filhos para um templo budista para se abrigarem. – Não sei quando poderemos voltar para casa – acrescentou.
O primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, cujo país preside temporariamente a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), disse ter conversado na quinta-feira com seus homólogos do Camboja e da Tailândia.
Ele explicou em uma mensagem na noite de quinta-feira que pediu aos dois países-membros da ASEAN um cessar-fogo e diálogo, e eles demonstraram “sinais positivos e disposição”.
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Esses confrontos representam uma escalada dramática em uma disputa de longa data entre esses dois vizinhos, que compartilham 800 quilômetros de fronteira e atraem milhões de turistas estrangeiros todos os anos.
Dezenas de quilômetros dessa fronteira, pontilhada de templos antigos, permanecem em disputa. Conflitos ocorreram entre 2008 e 2011, deixando 28 mortos e dezenas de milhares de deslocados.
Uma decisão favorável ao Camboja pela Corte Internacional de Justiça da ONU resolveu aquela crise de uma década, mas as tensões ressurgiram em maio com a morte de um soldado Khmer em um novo confronto.
Os combates de quinta-feira ocorreram em seis locais diferentes, incluindo dois templos antigos, de acordo com o Exército tailandês.
Tropas de infantaria apoiadas por tanques lutam pelo controle do território. Tropas cambojanas dispararam foguetes e projéteis de seu território, e o Exército tailandês usou caças para bombardear alvos militares na fronteira com o país vizinho.
Ambos os lados se acusam mutuamente de iniciar as hostilidades. Por sua vez, a Tailândia acusou o Camboja de atacar infraestruturas civis, como um hospital e um posto de gasolina, resultando em várias vítimas.
Horas antes dos combates, a Tailândia expulsou o embaixador cambojano e chamou de volta seu enviado em Phnom Penh para consultas em resposta à explosão de uma mina terrestre que feriu cinco soldados cambojanos.
O Camboja respondeu rebaixando as relações diplomáticas ao “nível mais baixo”, chamando de volta todos os seus diplomatas, exceto um, em Bangkok, e expulsando seus homólogos tailandeses em seu território.
A pedido do primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, o Conselho de Segurança da ONU se reunirá em caráter de urgência e a portas fechadas nesta sexta-feira para tratar do conflito.
Os Estados Unidos e a França, antiga potência colonial no Camboja, apelaram ao fim imediato das hostilidades.
A União Europeia e a China expressaram profunda preocupação com os confrontos e apelaram ao diálogo.