No dia 22 de julho, em Naviraí, no interior de Mato Grosso do Sul, uma menina de 13 anos morreu diante de uma plateia. A cena foi transmitida ao vivo, por cerca de 45 minutos, num servidor privado do Discord, promovida por um grupo criminoso. O Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça concluiu depois que o que fora registrado como suicídio era homicídio por manipulação. A menina havia sido aliciada pela internet, submetida a coerção psicológica, instigada a maltratar um animal e, por fim, a transmitir a própria morte. A Operação Lívia apreendeu cinco adolescentes e prendeu um homem de 18, em cinco estados.
Na quarta-feira, a Agência Nacional de Proteção de Dados determinou que o Discord suspenda em três dias úteis, em todo o país, a funcionalidade de transmissão ao vivo. A decisão é correta, bem fundamentada — e é insuficiente. Mas vem sendo objeto de muita polêmica.
O problema do Discord está em sua própria arquitetura. Com criptografia de ponta a ponta nas comunicações de áudio e vídeo, inclusive nas lives, a empresa sequer consegue detectar o conteúdo transmitido dentro dela. E esse desenho foi adotado às vésperas da entrada em vigor do ECA Digital.
Portanto o Discord depende de dois mecanismos muito frágeis para prevenir crimes digitais: a análise de sinais comportamentais das contas, incapaz de reconhecer de fato ameaças graves, e a denúncia de usuários. E num servidor privado, criado por convite para a prática do crime, como esperar que os próprios criminosos se autodenunciem?
O problema é muito maior que esse episódio. São comuns e quase diários a tortura de dezenas de animais, a apologia ao nazismo e ao racismo, a indução à automutilação e os ataques contra pessoas em situação de rua — tudo transmitido e aclamado por centenas de espectadores. O roteiro é cruel: crianças ou adolescentes são atraídos por relacionamentos virtuais, induzidos a enviar imagens íntimas e, a partir daí, chantageados — obrigados a se automutilar ou a torturar e matar animais da própria família ao vivo. Em 2023, ataques à escolas foram planejados no Discord.
Imagine receber um telefonema de madrugada avisando que seu filho está prestes a esfolar e matar o gato da família diante de uma plateia. A polícia paulista já fez isso dezenas de vezes, derrubando servidores em plena transmissão. A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância do Rio, julgou vários casos e já encontrou no celular de um adolescente vídeos de estupros de bebês. Sim, é terrível. Segundo a SaferNet, as denúncias contra o Discord cresceram 54% de janeiro a julho, 406 contra 264 no mesmo período de 2025.
Há um efeito pouco percebido e que é assustador: a dessensibilização de quem assiste. Diante da violência extrema repetida, o cérebro se habitua, e a resposta emocional ao horror diminui a cada exposição. São adolescentes que vão perdendo a capacidade de se comover — uma geração educada a achar graça da dor alheia.
Os grupos criminosos caçam os mais frágeis: crianças, pré-adolescentes, meninas, pessoas LGBTQIAP+, quem já está sofrendo, quem está isolado, quem tem pouca supervisão em casa. A vulnerabilidade é o critério de seleção, porque torna possível a chantagem e o isolamento progressivo.
Contra a medida da ANPD, repete-se o argumento de que os criminosos migrariam para plataformas mais ocultas. Ora, o Discord é a plataforma preferida dos criminosos por ser fácil arrastar uma vítima para lá; e uma vez “sequestrada”, as autoridades dificilmente conseguem saber o que acontece com ela. Empurrar essa operação para a dark web não elimina os criminosos, mas dificulta muito o recrutamento e o crime.
Fala-se também em censura, em Brasil se aproximando de regimes autoritários. Isso é desonesto. O Brasil não bloqueou o Discord: o aplicativo segue funcionando para texto, voz e chamadas. Foi suspensa uma funcionalidade específica, com base numa lei aprovada pelo Congresso, dentro de processo administrativo com contraditório, por decisão fundamentada e reversível — basta a empresa comprovar que se adequou. O próprio ECA Digital reserva ao Judiciário, e não à agência, a suspensão das atividades de uma plataforma. Aliás, ditaduras não publicam notas técnicas de 18 páginas explicando o que fizeram e por quê.
Fica de pé, porém, uma pergunta incômoda: como o Discord vai se adequar? A empresa escolheu criptografar as lives e afirma não ter acesso ao que ocorre dentro delas. Ou desfaz essa escolha, ou demonstra controles alternativos de eficácia equivalente — que a ANPD registrou não existirem hoje.
A antropóloga Letícia Cesarino, da UFSC, resumiu na Carta Capital: empresas como o Discord jamais irão, por livre e espontânea vontade, enfrentar realmente o problema, porque só entendem uma linguagem — a do dinheiro. E os únicos meios que o Estado e a sociedade brasileira têm para forçá-las são as multas milionárias e a ameaça de bloqueio.
Por isso a suspensão das lives não basta. É preciso aplicar as multas previstas no ECA Digital, que chegam a R$ 50 milhões por infração. É preciso verificação etária que funcione: a autodeclaração deixou de ser aceita no Brasil desde março, e ainda assim um dos adolescentes envolvidos no caso de Naviraí acessou a plataforma declarando ter 148 anos de idade. É preciso moderação humana em tempo real, com protocolo de interrupção emergencial e comunicação imediata às autoridades. Hoje a polícia só enxerga essas salas por infiltração de agentes ou porque algum espectador indignado filma a tela. Nenhum país civilizado aceita que a fiscalização de crimes contra crianças dependa da boa vontade de testemunhas eventuais.
E se o Discord não se adequar, a saída é o bloqueio, pela via judicial, como a lei determina. Indivíduos e empresas que usam a plataforma para diversão ou trabalho podem encontrar outros canais.
Claro que recursos como esse devem ser usados com parcimônia. Mas empresas de tecnologia operam aqui sob autorização da sociedade, não por direito natural. E não podem deliberadamente ignorar ou favorecer crimes sem ser punidas.
O Discord tem mais de 690 milhões de contas criadas desde 2015, mais de 200 milhões de usuários mensais e o Brasil é seu segundo maior mercado do mundo. Depois de centenas de vítimas e de muito sofrimento, era mais que hora de nosso país reagir.

