Arlete Salles considera a morte “um absurdo”. “Sei que este momento existe e está cada dia mais próximo. Ainda assim, prefiro não pensar no assunto”, confidencia a atriz, de 88 anos. Nos palcos, porém, a postura é outra. Afeita a novidades, não se intimidou diante da ideia de encarar o tema em “Mande notícias do lado de lá”, seu primeiro monólogo em quase sete décadas de carreira, que acaba de estrear no Rio. “Não preciso de mais desafios na vida, mas eles seguem atraentes, tiram a gente do lugar de conforto.”
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Em cartaz até o início de outubro no Teatro dos 4, na Gávea, a peça é escrita e dirigida pelo jornalista Carlos Jardim, que diz ter pensado desde o início na veterana como intérprete de sua personagem. No caso, Eulália Eugênia, uma mulher que precisa ir ao cemitério para se despedir de uma amiga de longa data. “Tinha que ser a Arlete”, afirma o autor. “O texto tem muitos saltos, por vezes bruscos, entre o humor e a emoção. Então, pensei: ‘Quem, além dela, seria capaz de fazer isso com maestria e versatilidade?’.”
Missão dada é missão cumprida. Arlete sustenta a montagem de 70 minutos com o texto na ponta da língua (“Hoje em dia existe o recurso do ponto eletrônico, mas sou de uma geração ‘antiguinha’”, gaba-se) e admirável vigor físico, entre números de dança e canto. “Era um desejo dela não ficar parada e se movimentar bastante em cena”, comenta Roberta Serrado, que assina a direção de movimento ao lado de Natacha Travassos. “Topou absolutamente tudo o que propusemos. Nunca trabalhei com uma atriz tão disciplinada e focada.”
O tônus, mantido com caminhadas diárias e exercícios com personal trainer três vezes por semana, já havia sido notado anos atrás pelo médico, durante o tratamento contra o câncer de mama, diagnosticado em 2014. “Lembro-me de ele mandar um bilhete para a moça que iria me aplicar a quimioterapia dizendo: ‘Ela tem 77 anos, mas aparenta muito, muito, muito menos’. Sempre foi assim”, recorda-se, entre risadas. Ao olhar adiante, a proximidade dos 90 tampouco a intimida. “Tenho uma amiga querida, a Fernanda (Montenegro), que me dá ainda mais coragem. Vou chegar bem. Afinal, são só dois anos. O que pode acontecer até lá?”
Arlete Salles em cena de “Mande notícias do mundo de lá”, seu primeiro solo
Divulgação/Cris Rasec
Tão forte quanto o corpo é a mente. Arlete recebe a reportagem na ensolarada sala de sua casa, na Gávea, rodeada por Cissa, Ricota e Lion, três cães serelepes e amigáveis. Sobre o sofá, o jornal impresso, com os óculos de grau repousados em cima das páginas, denuncia a rotina de leitura matinal. “Antes, ficava achando que podia encontrar a felicidade lá fora”, diz, inclinando a cabeça em direção à rua. “Mas a alegria está dentro do meu coração e da minha alma, embora tenha levado um tempo para perceber isso. É muito prazeroso ficar aqui. Gosto de ler, falar ao telefone com os amigos e assistir aos meus seriados favoritos.”
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Mãe de Alexandre e Gilberto, ambos do casamento de 12 anos com o ator Lúcio Mauro (1927-2019), Arlete tem dois netos e um bisneto. Ao longo da vida, teve outros relacionamentos, mas encontrou conforto na solitude. “Fui vítima da síndrome de Cinderela. Pensava que ia achar o príncipe encantado. Casava, não dava certo, e começava tudo de novo. Essa busca atrapalhou muito a minha vida, assim como a de várias mulheres da minha geração”, reconhece. “Só depois entendemos que não existe príncipe, embora também não precise ser um sapo. Não sei se faltou isso, mas cheguei à parte conclusiva da minha vida sozinha. Porém, não estou infeliz. Até porque sigo trabalhando, e o palco tem esse poder de rejuvenescer e revitalizar.”
Idade, de todo modo, nunca foi muito mais do que simples combinação numérica na vida da atriz. Já na década de 1970, ela interpretou personagens casadas com homens mais novos em telenovelas. Nos anos 2000, cativou o público como a libidinosa Copélia, no humorístico “Toma lá, dá cá”, da TV Globo, e deu um sacode em quem menosprezava a vida sexual dos mais velhos. Qualquer semelhança com a vida pessoal, neste caso, nem sempre é mera coincidência. “O meu temperamento sempre me fez caminhar à frente do meu tempo. Vinham, então, as recriminações, os julgamentos e as censuras. Mas eu era forte para enfrentá-los. Hoje em dia, não estou adiante nem atrás do tempo. Apenas estou aqui.”

