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— Estamos tentando manter os preços do petróleo baixos — disse Trump, em uma entrevista coletiva realizada em seu resort na Flórida. — Eles subiram artificialmente por causa dessa incursão.
Trump não deu detalhes sobre seus planos de retirar sanções, mas disse ter discutido o tema com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em um telefonema mais cedo. A Rússia tem enfrentado sanções sobre sua receita de petróleo em uma tentativa de privar o país de recursos por causa da invasão da Ucrânia.
Mas, de modo geral, as declarações do republicano mostraram uma nova disposição da Casa Branca de indicar publicamente que pode estar se preparando em breve para tentar encerrar o conflito. Os objetivos militares dos EUA poderiam ser descritos como “praticamente completos”, afirmou Trump.
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As declarações do mandatário republicano tiveram impacto no mercado (leia mais abaixo). Investidores se acalmaram enquanto as maiores economias do mundo consideravam um esforço coordenado sobre suprimentos emergenciais de energia, e os comentários de Trump sinalizaram que ele poderia buscar uma conclusão do conflito.
Ainda assim, o Estreito de Ormuz permaneceu praticamente fechado, sem planos definidos sobre como os países vão proteger os navios que passam por essa importante via marítima. Trump disse à CBS que o Estreito de Ormuz está registrando maior tráfego de navios e que ele está “pensando em assumir o controle”, mas não ficou claro qual era o plano em vista.
Para o governo brasileiro, o cenário é de preocupação. Uma alta prolongada e consistente da commodity pressionaria a inflação no Brasil em ano eleitoral, Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou a alta recente dos preços e a guerra.
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Durante visita oficial do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, ao Brasil, Lula disse que conflitos armados no Oriente Médio “produzem efeitos sobre as cadeias de energia e alimentos”, o que pune os mais vulneráveis. — O preço do petróleo está subindo muito e deve subir em todos os países do mundo — afirmou Lula em seu discurso.
A instabilidade na cotação do barril — que encerrou o ano passado na faixa de US$ 63 no tipo Brent — já traz um novo cenário para as petroleiras, que avaliam retirar projetos da gaveta. O movimento começou a ganhar força na semana passada, quando a commodity bateu os US$ 80.
A lista envolve não apenas a possibilidade de antecipar a perfuração de novos poços exploratórios como reabrir áreas fechadas de pouca produtividade e até mesmo postergar algumas paradas de manutenção de forma a gerar mais caixa com o valor maior do barril, afirmam consultores.
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O caso mais aguardado é o da Petrobras, que tem hoje na conhecida “carteira de avaliação” um total de US$ 18 bilhões (R$ 96,3 bilhões) que estão na gaveta, sem data definida para entrar em operação. Agora, a situação pode mudar, assim como uma tentativa de negociar com fornecedores a antecipação da entrada em operação de projetos já em desenvolvimento.
Segundo uma fonte na empresa, as análises estão acontecendo, embora a companhia evite tomar decisão com o “Brent no pico”.
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Em geral, as petroleiras aguardam de 90 a 180 dias para entender se o petróleo chegou em novo patamar, avalia Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP):
— Já há espaço para novas análises preliminares de projetos. Isso já está acontecendo. As petroleiras estão olhando o portfólio e simulando como reagem a diferentes preços do petróleo. Há duas semanas, o barril estava entre US$ 63 e US$ 65. Com isso, muita coisa volta para a prancheta. A decisão final de investimento não será tomada até que se tenha análise mais clara do cenário até porque muito da alta do barril é fruto de especulação.
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Semana passada, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, disse que o cenário é de incerteza, com projeções futuras oscilando entre US$ 50 e US$ 100 por barril.
Para especialistas, o fechamento do Estreito de Ormuz e as ameaças de ataque a instalações de petróleo em países produtores no Oriente Médio são fatores que tendem a manter em alta as cotações de petróleo e gás por um período mais longo. Além do petróleo, a cotação do GNL (gás natural liquefeito) também chegou a avançar mais de 50% em um único dia.
Assim, podem ganhar impulso investimentos em diferentes regiões do Brasil, como áreas em toda a Margem Equatorial, que vai do litoral do Amapá ao Rio Grande do Norte. Blocos em Sergipe-Alagoas e antigos campos em outras regiões como Campos e Santos também entram na mira. As sísmicas na Bacia de Pelotas tendem a ganhar mais fôlego, embora os trabalhos por lá só devam ser finalizados no fim da década.
As companhias aproveitam para acelerar os planos de elevar a produção mais rapidamente. Um exemplo é a reabertura de poços fechados com baixa produção e o adiamento de manutenções programadas.
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Para Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, a estratégia é agilizar a geração de caixa enquanto o petróleo está em alta:
— A ideia é produzir mais para aproveitar o preço em campos em terra e em mar no Brasil. Em países como EUA e Argentina, onde há produção de shale gas, pode ocorrer aceleração para conectar poços já perfurados. As empresas tentam ver onde há mais possibilidade de ganhos mais rápidos.
Os especialistas lembram que a própria Opep+ anunciou no último fim de semana aumento de produção em 206 mil barris diários em abril. Assis lembra que a demanda por petróleo continua crescendo em ritmo menor que a ampliação da oferta global, relação que vinha derrubando preços da commodity no último ano.
O aumento na cotação do petróleo tende a elevar as receitas das companhias, abrindo espaço para mais investimentos, avalia Márcio Felix, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip) e CEO da EnP Energy Platform, que reúne diversos ativos de petróleo. Segundo ele, esse movimento tende a reforçar as atenções para projetos de óleo e gás, reduzindo o apetite por renováveis.
— Certamente as empresas estão voltando a analisar projetos com essa nova perspectiva— afirma Félix.
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Para ele, o Brasil e outros países fora da região do conflito devem ganhar atenção das petroleiras. Especialistas lembram que o país prepara novos leilões neste ano. No próximo dia 13, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) fará audiência pública para tratar da atualização do edital da Oferta Permanente de Partilha da Produção, com a inclusão de 15 novos blocos exploratórios.
O edital vigente conta com oito blocos. Com a adição dos novos blocos, o total passará a ser de 23 blocos em oferta. Além disso, a ANP pretende fazer o 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão, que conta com 450 blocos exploratórios e cinco áreas com acumulação marginal em 11 bacias sedimentares.
- Bacia de Santos: Principal fronteira de produção de petróleo do país com os campos de pré-sal. Além da Petrobras, petroleiras internacionais vêm ampliando a presença na região, como Shell, TotalEnergies, Equinor, Petronas, CNOOC, CNPC e Galp Energia.
- Bacia de Campos: A Petrobras segue como a principal operadora da região, mas nos últimos anos houve aumento da presença de empresas independentes e multinacionais, como PRIO, Equinor, Shell, Trident Energy e Perenco, que adquiriram ativos e ampliaram investimentos em campos maduros.
- Margem Equatorial: A Petrobras perfura o primero poço na Bacia da Foz do Amazonas e tem planos de perfuração em outros poços no Rio Grande do Norte. Além da estal, grandes petroleiras internacionais também possuem blocos ou participações em projetos na região, entre elas ExxonMobil, Chevron, Shell, CNPC e CNOOC, que adquiriram áreas em leilões recentes.
- Sergipe-Alagoas: A Petrobras lidera o desenvolvimento de campos na região, considerada uma das principais novas fronteiras de produção de gás do país. Petrogal Brasil, Murphy Oil, Karoon Energy e ExxonMobil adquiriram áreas.
- Pelotas: Localizada no litoral do Rio Grande do Sul, é considerada uma nova fronteira exploratória e está hoje na fase de sísmica. Petrobras, Shell, Chevron, CNOOC e Karoon Energy levaram blocos recentemente.
(Colaborou Ivan Martínez-Vargas)

