A escolha do novo líder supremo do Irã no fim de semana, com a ascensão de Mojtaba Khamenei ao cargo que era de seu pai, Ali Khamenei , foi um sinal contundente de resiliência do regime, diante dos maiores bombardeios desde a Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980. Mas a troca no poder também confirmou o que analistas viam como o cenário mais provável para o conflito: hoje, a Guarda Revolucionária dita os rumos do país, e tem em Mojtaba não apenas um aliado, mas um caminho para consolidar o domínio no Irã.
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Mojtaba fez parte das fileiras da Guarda Revolucionária quando tinha apenas 17 anos, e lutou em algumas operações de grande porte no conflito com o Iraque e começou a montar sua rede de contatos dentro da organização.
No batalhão onde serviu, o Habib ibn Mazaher, muitos dos combatentes foram alçados a posições de destaque no aparato de segurança, e o status de seu pai, à época presidente, lhe deu respaldo adicional. Nos anos seguintes, exerceu autoridade direta sobre a máquina de repressão da Guarda Revolucionária — as milícias Basij — e se aproveitou dos tentáculos financeiros da organização para acumular bens no exterior. Segundo a agência Bloomberg, seu patrimônio é equivalente a R$ 700 milhões, espalhados por Suíça, Reino Unido e Golfo Pérsico.
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Antes da guerra contra EUA e Israel, Mojtaba não era o favorito da elite política para suceder o pai, que por décadas o preparou para o posto. A pouca clareza sobre seus pensamentos e planos, a falta de experiência política e repulsa à ideia da hereditariedade do posto de líder supremo, que vai contra os ideais revolucionários de Ruhollah Khomeini, pesavam contra. Mas os cálculos mudaram após os bombardeios, e especialmente depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, vetou seu nome da lista de líderes “aceitáveis”.
Uma liderança sem o mesmo carisma de Khomeini, sem o mesmo poder de Khamenei, mas que parece moldada à perfeição para a Guarda Revolucionária, que controla o Irã desde o início da guerra: Mojtaba é alguém pouco disposto a contrariar os comandantes em tempos de crise, e que não deve implementar grandes mudanças (leia-se reformas estruturais) na República Islâmica.
— A Guarda Revolucionária não está lutando apenas por grupos aliados ou mísseis, está lutando pela sua própria existência. O cartel que eles criaram, um polvo com tentáculos em quase todos os aspectos da sociedade iraniana, da economia à mídia e à religião, subjugou todos os outros atores e facções da República Islâmica — disse um analista iraniano à revista Time, em condição de anonimato.
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Ao contrário das Forças Armadas, encarregadas de proteger a soberania nacional, a Guarda Revolucionária tem como tarefa defender a Revolução Islâmica, indo além de um papel paramilitar.
Na guerra contra o Iraque, unidades combatiam nas linhas de frente e criavam um novo programa de mísseis balísticos. Ao fim do conflito, assumiram os esforços de reerguer do país, fincando posição no lucrativo mercado de engenharia civil. As sanções internacionais serviram de terreno fértil para a criação de uma rede de contrabando de produtos de todos os tipos, desde tapetes até petróleo. Através de empresas de fachada ou fundações, originalmente com finalidades religiosas, a Guarda controla setores como o energético, transporte, bancário, de telecomunicações e imobiliário.
— Eles são extralegais e, na prática, um Estado paralelo. Agora controlam cerca de 50% da economia iraniana — afirmou em entrevista à rádio pública americana NPR Arash Azizi, pesquisador na Universidade Yale. — Eles costumam ser muito pragmáticos. O que eles querem é a preservação de seus próprios privilégios e de sua própria riqueza.
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Logo depois que os primeiros ataques aéreos mataram Ali Khamenei e membros dos altos escalões do governo, a Guarda Revolucionária pressionou a Assembleia dos Especialistas, responsável pela escolha do líder supremo, a acelerar o processo e superar questões sobre a aptidão de Mojtaba Khamenei. Para a milícia, um processo rápido e reconhecido de sucessão mostraria ao mundo que o regime estava funcional, mesmo que, na prática, os aiatolás não mandem mais como antes — agora, decisões cruciais de defesa são tomadas por membros da Guarda, e autoridades como o presidente, Masoud Pezeshkian, são meramente ilustrativas.
— O que resta do regime é a Guarda Revolucionária. E ela será o último vestígio do regime até que ele seja reformulado, seja internamente ou por forças externas — afirmou à rede NBC News Afshon Ostovar, especialista em Irã da Escola de Pós-Graduação Naval da Califórnia. — Assim que a poeira baixar, se não houver uma mudança completa de regime, as pessoas que estarão no comando do Irã estarão associadas ou farão parte do comando direto da Guarda.

Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita interceptam drones iranianos
Nesta segunda-feira, o Irã lançou novos ataques contra países do Golfo Pérsico, dias depois de Pezeshkian afirmar que eles não aconteceriam mais, declaração prontamente refutada pela Guarda Revolucionária. Houve relatos de interceptações e impactos na Arábia Saudita, Catar — cujo premier chamou o Irã de “traidores” — e Emirados Árabes Unidos. Na Turquia, um segundo míssil foi abatido pelas defesas aéreas da Otan, e os destroços caíram perto da fronteira com a Síria. A Chancelaria protestou, mas sem sugerir que o país vai retaliar militarmente.
Após um fim de semana de bombardeios contra o setor energético iraniano, Teerã alertou EUA e Israel para que não ataquem a Ilha de Kharg, chave para as exportações de petróleo do país. Segundo um porta-voz do governo, a ilha é um “cemitério de estrangeiros”, e uma ação traria mais incerteza sobre os impactos ao mercado petrolífero global. Com o Estreito de Ormuz virtualmente fechado, o preço do barril superou os US$ 100 nesta segunda-feira, alta de 30% desde o início do conflito. A cotação, contudo, despencou 11% depois de Trump afirmar à rede CBS News que “a guerra está quase completa”, e que está pensando em tomar Ormuz.
— Isso vai acabar em breve — disse em entrevista coletiva no fim da tarde. — E se recomeçar, eles (iranianos) serão ainda mais afetados.
Em resposta, a Guarda Revolucionária disse que “nós decidiremos o fim da guerra”
“A situação e o futuro da região agora estão nas mãos de nossas Forças Armadas. As forças americanas não acabarão com a guerra”, acrescentou um porta-voz da milícia, em comunicado.
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Também há incerteza sobre os planos de Trump de mandar tropas ao Irã. No fim de semana, o presidente americano afirmou que poderia enviar forças de elite para confiscar estoques de urânio enriquecido do Irã. Em entrevista à rede CBS, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que seria “imprudente” afastar a hipótese, Nesta segunda, Trump disse que nenhuma decisão foi tomada.
Para especialistas, uma invasão terrestre de grande porte seria a única forma de eliminar o regime, apresentado como um dos objetivos da guerra, e mesmo com todo o poderio militar de EUA e Israel esse não seria um desfecho garantido. Os bombardeios eliminaram parte da liderança iraniana, mas a escolha de Mojtaba Khamenei serviu como um sinal de continuidade. A Guarda Revolucionária demonstrou coesão interna e resiliência. Não há sinais de deserções nas forças de segurança, de levantes populares ou insurreições internas — no sábado, Trump afastou a possibilidade de apoiar uma ofensiva de forças curdas iranianas, baseadas no Iraque.
— Você pode eliminar todos os elementos que tornam um Estado uma ameaça e dificultar, ou até mesmo impossibilitar, a realização de operações futuras por parte dele — disse o coronel aposentado da Força Aérea, John Warden, ao Wall Street Journal. — Agora, se você quer que um novo governo assuma o poder, alguém de dentro precisa tomar a iniciativa e assumir o controle.
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Em outra frente da guerra, no Líbano, o número de mortos desde o início da ofensiva israelense passou de 500, com mais de 600 mil deslocados, afirmou o presidente Joseph Aoun. Houve confrontos entre militares de Israel e do Hezbollah no sul do país, além de novos bombardeios contra alvos associados ao grupo. Em comunicado, Aoun defendeu o início imediato de negociações com Israel e o desarmamento do Hezbollah, previsto pelo acordo que encerrou a guerra de 2024. Ele ainda criticou os lançamentos de mísseis contra Israel, que serviram como estopim para arrastar o Líbano a um novo conflito.
“Quem quer que tenha disparado os foguetes, desejava comprar o colapso do povo libanês, sob um ataque e caos, mesmo que isso significasse a destruição de dezenas de nossas aldeias e a morte de centenas de milhares de pessoas, tudo em prol dos cálculos do regime iraniano”, completou Aoun.
Em resposta, Mohamed Raad, parlamentar do Hezbollah, disse que o objetivo é “expulsar o inimigo de nossa terra ocupada” a qualquere custo, e que “claramente, não temos outra opção para preservar a honra, o orgulho e a dignidade senão a resistência”.

