Os mercados globais já reagem ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. As negociações com o dólar no Brasil só começam às 9h e o pregão da B3, Bolsa de Valores de São Paulo, terá início às 10h. Mas, na madrugada um fundo de ETF negociado no Japão que acompanha as ações brasileiras chegou a subir 14%, enquanto o ETF iShares MSCI Brazil, negociado nos Estados Unidos, avançava mais de 12% nas negociações de pré-abertura em Nova York.
Os derivativos cambiais negociados na bolsa CME também sinalizavam um dia de forte valorização para o real.
Os investidores consideram Flávio Bolsonaro mais propenso a promover um ajuste fiscal, apesar do governo de Jair Bolsonaro ter encerrado com manobras como a exclusão de precatórios das metas das contas públicas e uma expansão de gastos na reta final das eleições. Lula, por sua vez, em grande parte evitou se comprometer com cortes de gastos, e a ampliação de programas de assistência social e de alguns subsídios nas últimas semanas da campanha reforçou as dúvidas dos investidores sobre sua disposição para ajustar as contas públicas.
Os ativos brasileiros devem disparar na segunda-feira, depois que o senador Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um desempenho muito melhor do que o cenário para o qual os investidores estavam posicionados.
Fabrício Taschetto, sócio-fundador e gestor de portfólio da Ace Capital, estima uma queda de 3% do dólar e alta de 7% do Ibovespa em reação ao resultado. Segundo Felipe Arslan, CEO da Morada Capital, ações de varejistas, construtoras de imóveis, administradoras de shopping centers e empresas dos setores de consumo e vestuário devem liderar o movimento de alta do índice acionário.
— Como o segundo turno parece estar nas mãos de Flávio, os ativos brasileiros devem subir — disse Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos. — O real e os juros devem ter um desempenho muito bom — acrescentou.
O JPMorgan estima que, com um ajuste fiscal, o real poderia se valorizar 6%, os juros dos títulos públicos locais poderiam recuar para perto de 13% e as ações poderiam subir até 50%. Uma deterioração fiscal, por outro lado, poderia enfraquecer a moeda em magnitude semelhante, elevar os juros dos títulos públicos para perto de 15,5% e derrubar as ações em 21%.
Os mercados foram surpreendidos pelos resultados de domingo em dois aspectos: a vantagem de cerca de dois pontos percentuais de Flávio e o desempenho expressivo de candidatos de direita nas disputas pelos governos estaduais, pela Câmara e pelo Senado, segundo Guilherme Abbud, da Persevera Asset Management.
— Do ponto de vista da governabilidade e da agenda econômica, as condições nunca foram tão favoráveis — afirmou o CEO da gestora de recursos, que administra R$ 4,8 bilhões (US$ 921 milhões). — A reação deve ser muito forte, e há potencial para que a alta se prolongue por vários dias.
Nas últimas semanas, com as pesquisas apontando para Flávio e Lula tecnicamente empatados, os investidores optaram em grande medida por derivativos e outras operações capazes de capturar os ganhos de um resultado favorável ao mercado e, ao mesmo tempo, limitar as perdas caso a eleição decepcionasse.
— A segunda-feira será um dia muito melhor do que até os investidores mais otimistas esperavam — disse Paulo Abreu, sócio e gestor de portfólio da Mantaro Capital. — O mercado estava pouco posicionado, e esse resultado levará os investidores a aumentar a exposição.
Na preparação para a eleição de 2022, os investidores locais mostravam muito mais cautela em relação a Lula do que os estrangeiros, que em geral tinham uma visão menos pessimista sobre o petista. A divergência persistiu — investidores locais tendem a se preocupar mais com a disposição limitada do governo para promover o tipo de ajuste fiscal que consideram fundamental.
Ainda assim, os mercados brasileiros percorreram um caminho turbulento, mas no fim das contas positivo, desde que Lula voltou ao poder em janeiro de 2023. O dólar, que atingiu a máxima histórica em 2024 durante uma onda generalizada de compra da divisa provocada pelo aumento das preocupações com a trajetória fiscal do país, acumula queda de pouco mais de 1% durante o mandato.
Juros elevados, dólar global mais fraco e um movimento de diversificação para fora dos mercados dos EUA ajudaram a impulsionar os ativos brasileiros, assim como os mercados emergentes de forma mais ampla.
Uma pesquisa da XP, a maior corretora do país, com 116 investidores institucionais sobre as expectativas para o mercado brasileiro, mostrou que o dólar deve ceder cerca de 4% e Ibovespa deve subir 6%, considerando a mediana das estimativas.
Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, disse que, embora seja esperada alguma volatilidade antes do segundo turno, a magnitude da surpresa já deve levar a uma “reavaliação significativa” das perspectivas para o Brasil.
— O resultado do primeiro turno, algumas disputas pelos governos estaduais, incluindo São Paulo, e os resultados preliminares do Congresso melhoraram substancialmente a percepção do mercado sobre o Brasil e podem marcar o início de uma reprecificação mais ampla e sustentada dos ativos brasileiros — disse.
Dólar e Bolsa hoje: mercados reagem ao resultado do primeiro turno das eleições 2026
