A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) reagiu nesta terça-feira à proposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de criar o chamado “Selo Acurácia Eleitoral”, iniciativa destinada a premiar institutos cujas estimativas mais se aproximarem dos resultados oficiais das urnas. Em nota, a entidade afirmou que a medida parte de uma premissa equivocada sobre o papel das pesquisas eleitorais e alertou que o mecanismo pode estimular práticas oportunistas e enfraquecer o rigor metodológico.
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Segundo a Abep, composta por institutos como Datafolha, Quaest, Ipsos e outros, as pesquisas servem para medir a intenção de voto no momento em que são feitas, não são “previsões nem promessas de resultados”. “Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, afirma um trecho da nota.
De acordo com a associação, a iniciativa cria um incentivo “perverso”, já que institutos sem um “rigor metodológico” poderiam passar a acompanhar pesquisas de “institutos sérios” e ajustar os números para convergir ao consenso. A Abep ainda afirma que, quando o objetivo passa a ser a conquista do selo, o “incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que maximize a chance de receber o prêmio”. Essa lógica, segundo a organização, enfraquece a qualidade da informação oferecida ao leitor.
‘Árbitro de qualidade’
De acordo com a Abep, o fato de a Justiça Eleitoral buscar assumir o papel de “árbitro de qualidade” nas pesquisas causa “especial preocupação”. Ainda segundo o documento, a avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas, “não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada”.
“Reafirmamos nosso respeito ao Tribunal Superior Eleitoral e ao seu papel fundamental na garantia da lisura das eleições. Justamente por isso, entendemos que iniciativas dessa natureza precisam ser construídas em diálogo com a comunidade científica e com os institutos de pesquisa, para que não acabem estimulando práticas oportunistas e desvalorizando o rigor metodológico que deve orientar toda pesquisa séria” conclui a nota.
A proposta do ministro Kassio Nunes Marques
A manifestação ocorreu após reunião entre o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, e representantes dos principais institutos do país. Segundo relatos feitos ao GLOBO, Datafolha, Quaest, Ipec, Ipsos-Ipespe e MDA manifestaram posição contrária à criação do selo durante o encontro. Apesar das críticas, Kassio afirmou aos participantes que o documento distribuído nesta terça-feira representa apenas uma proposta inicial e afirmou que o tribunal continuará recebendo sugestões até a próxima sexta-feira, incluindo contribuições que já começaram a ser apresentadas pelos institutos.
A minuta apresentada na reunião desta terça trata exclusivamente da criação do selo de acurácia. A expectativa dentro do tribunal é que as sugestões encaminhadas pelas empresas também sirvam de base para a elaboração de uma resolução mais ampla sobre pesquisas eleitorais, disciplinando aspectos relacionados à transparência, ao registro e à divulgação dos levantamentos.
A proposta apresentada aos institutos prevê a criação do “Selo Acurácia Eleitoral”, destinado ao “reconhecimento e valorização” das empresas de pesquisa cujas projeções apresentem maior aderência aos resultados oficiais das eleições de 2026.
Pelo texto, a premiação seria concedida apenas em anos de eleições gerais. Caberia ao TSE premiar pesquisas nacionais para presidente da República, enquanto os Tribunais Regionais Eleitorais ficariam responsáveis pelas pesquisas para governador.
No encontro também houve menção a uma proposta para dar mais transparência à metodologia dos levantamentos. Como mostrou O GLOBO, a expectativa é que o tribunal passe a discutir uma norma determinando que os institutos divulguem de forma mais detalhada a metodologia utilizada em cada pesquisa, informando, por exemplo, se as perguntas foram espontâneas ou estimuladas, além de outros critérios empregados na formulação dos questionários.
Entre os objetivos da minuta estão estimular o aprimoramento metodológico das pesquisas, ampliar a transparência dos levantamentos, conferir visibilidade aos institutos com melhor desempenho e fomentar estudos sobre a aderência entre as estimativas divulgadas e os resultados das urnas.
A avaliação consideraria apenas pesquisas registradas regularmente no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) e efetivamente divulgadas. A minuta prevê duas categorias de reconhecimento: pesquisas de boca de urna e levantamentos publicados nos sete dias que antecedem o pleito.
O texto também estabelece hipóteses de exclusão da premiação, como condenações definitivas por divulgação de pesquisa fraudulenta ou por irregularidades graves que resultem na suspensão ou invalidação do levantamento, além do descumprimento dos critérios técnicos definidos na futura regulamentação.
Na abertura da reunião, Kassio afirmou que o objetivo do encontro era “fortalecer o diálogo institucional” com as empresas responsáveis pelas pesquisas eleitorais e promover uma troca de informações sobre as metodologias utilizadas nos levantamentos. O ministro ressaltou que a Justiça Eleitoral não pretende discutir resultados de pesquisas específicas nem interferir na autonomia técnica dos institutos, mas construir um ambiente permanente de cooperação para ampliar a confiança pública e a segurança jurídica das empresas.
Ao anunciar a proposta, o presidente do TSE também afirmou que chegou o momento de a Justiça Eleitoral “laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia”.
— Diferentemente do que se observa em outros países, as pesquisas eleitorais ocupam posição de especial relevância no debate público. O eleitorado brasileiro atribui significativo valor às informações por elas produzidas, que se consolidaram como sustentáculo na compreensão da dinâmica eleitoral, possuindo impacto efetivo no engajamento desse processo — disse.
Suspensão da Atlas motivou debate
O encontro reuniu representantes dos principais institutos do país e faz parte das discussões iniciadas pelo TSE após a polêmica envolvendo a suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel sobre os impactos do caso Banco Master na imagem do senador Flávio Bolsonaro (PL).
No fim de maio, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão da divulgação do levantamento após representação apresentada pelo PL. Na decisão, o ministro entendeu que parte das perguntas poderia induzir respostas dos entrevistados ao relacionar diretamente o caso Banco Master ao senador. A medida provocou reação da AtlasIntel e abriu um debate entre especialistas e institutos de pesquisa sobre os limites da atuação da Justiça Eleitoral na fiscalização dos levantamentos.
Foi a partir desse episódio que o TSE passou a discutir possíveis mudanças na regulamentação das pesquisas eleitorais. Além da proposta do selo de acurácia, o tribunal também passou a avaliar medidas para ampliar a transparência sobre metodologia, registro e divulgação dos levantamentos.
O encontro reuniu representantes de 16 institutos de pesquisa. Entre eles estava a AtlasIntel, empresa no centro da controvérsia que desencadeou o debate no TSE. Também participaram Datafolha, Paraná Pesquisas, PoderData, Real Time Big Data, Nexus, Data Tempo, Data Povo, Direto ao Ponto, Apex Partners, Perfil e Vox Brasil. Quaest, Ipec, Ipsos-Ipespe e MDA foram representados por uma única porta-voz.

