No raiar do dia de ontem, quando a edição especial de centenário do GLOBO ganhou as ruas, já havia leitores à espera de revisitar a história e, ao mesmo tempo, refletir sobre o futuro com o número 001 do próximo século do jornal. A consultora financeira Sylvana Paiva, de 53 anos, foi às lágrimas com seu exemplar, ao buscá-lo numa banca de Copacabana, no Rio. Em suas mãos, estava a maior edição impressa da história do GLOBO, com mais de 500 páginas e quase dois quilos — sete vezes o tamanho da publicação num domingo comum. E que, para ficar pronto, exigiu meses de esforço de ao menos 360 funcionários da Redação, da área Comercial, do Parque Gráfico, da Logística e de outros setores da empresa.
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O aniversário do jornal é amanhã, mas todo o planejamento das ações para a celebração, que incluem exposição, livros e eventos, teve início em 2023. Já os 14 cadernos especiais publicados ontem começaram a ser concebidos no início deste ano, com reuniões periódicas sob o comando do diretor de Redação, Alan Gripp.
O resultado foi um feito ímpar no jornalismo brasileiro, afirma o editor executivo do GLOBO André Miranda, que coordenou o projeto. Antes, a maior edição do GLOBO havia sido publicada na década de 1990, com 380 páginas, incluindo Classificados.
— É realmente impressionante publicarmos um jornal impresso com mais de 500 páginas em 2025, considerando todos os avanços tecnológicos dos últimos anos. Com essa edição, a gente dá uma resposta de que o bom jornalismo tem, sim, futuro. É isso o que mais importa. O meio, seja impresso ou digital, é apenas uma forma de levar o conteúdo para as pessoas — afirma Miranda, que lembra que todas reportagens do jornal de ontem também foram distribuídas no site e nos canais digitais do GLOBO.
Só na Redação, mais de 40 profissionais estiveram envolvidas, entre editores, repórteres, revisores e diagramadores. Nas pautas abordadas, havia entretenimento, economia, educação, meio ambiente e grandes desafios urbanos, incluindo entrevistas e um compilado de crônicas.
— É como se fosse um presente nosso para o leitor. É conteúdo jornalístico, com grandes reportagens, que mostra como O GLOBO tratou esses temas ao longo de um século e como os vê hoje — destacou Miranda.
Em paralelo ao trabalho da Redação, havia o de captação de publicidade do Comercial. Para viabilizar o projeto, o setor estipulou como meta dobrar os números da edição de 1995 em volume de anúncios e faturamento. A estratégia levou em consideração marcas que já eram parceiras do jornal, assim como buscou outras que poderiam se interessar e garantir o prestígio de estar na edição especial. O saldo superou duas vezes o objetivo: mais de 200 anunciantes dos principais segmentos e setores da sociedade se fizeram presentes.
— É um marco na trajetória do GLOBO e do meio jornal para a publicidade brasileira. Não tenho dúvida de que é a maior edição de anúncios no meio jornal da história recente. Os principais segmentos da economia brasileira estão com a gente, e isso mostra a pluralidade que entregamos na cobertura. Foi um trabalho em equipe que mostra a força do jornal — afirmou Samuel Sabbag, diretor nacional de Negócios da Editora Globo.
Com reportagens e anúncios concluídos, restou rodar as máquinas. Mas nada assim, de um dia para o outro. No Parque Gráfico, a impressão foi feita em três fases. Um primeiro bloco, de dois cadernos, ganhou as páginas na quinta-feira. Na sexta-feira, foram seis cadernos; e, no sábado, outros seis. A cabeça — o caderno central do jornal, com a primeira página, os colunistas e as editorias — foi impressa no sábado à noite.
Para a montagem desse quebra-cabeça, entrou em cena, então, a equipe de distribuição. Havia estruturação específica de transporte para os depósitos de entrega domiciliar e de venda avulsa, além de um empenho de comunicação e planejamento com os parceiros. O esquema especial incluiu ainda reforço de pessoal e de maquinário, além de uma série de preparativos de distribuição do setor de Logística.
— Estivemos todos juntos numa operação de guerra. Tivemos que aumentar a quantidade de veículos, e os entregadores precisaram se apresentar mais cedo no domingo. Fora isso, levamos em conta todos os complicadores, por ser um jornal que não passa debaixo da porta, nem cabe na caixinha do correio — explicou André Schwartz, gerente de Produção do Parque Gráfico
Assim, a edição que emocionou a leitora Sylvana chegou até ela. Ir à banca ontem foi um ato simbólico para a consultora financeira, que desde pequena se informa com O GLOBO. Sua lembrança de infância é de o jornal entrar na sua casa protegendo os ovos que a família comprava. Ela desembrulhava e lia.
— Desde os 4 anos, gostava muito de ler. Ficava pensando que, quando tivesse dinheiro, seria assinante. Estudei, me formei, e O GLOBO sempre me acompanhou — recordou Sylvana, que fez questão de comprar o jornal impresso, mesmo sendo assinante digital. — Não é sobre um papel, um jornal, é sobre a vida.