A sobretaxa americana sobre mercadorias exportadas pelo Brasil, anunciada no início de julho, deverá atingir em cheio uma das marcas da cultura brasileira mais difundidas nos EUA, especialmente nas praias da Califórnia: as tigelas de açaí.
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Embora as cifras não sejam bilionárias, as exportações de açaí foram citadas pela Abrafrutas, associação nacional de produtores de frutas, como uma das que mais correm risco com o tarifaço de Donald Trump.
Os EUA são o principal destino das vendas no exterior da fruta amazônica, cuja produção está concentrada no Pará. No mercado americano, o açaí pode ser encontrado em redes especializadas e casas de suco, onde é consumido adoçado e combinado com frutas e granola, do jeito como se popularizou pelo Brasil, fora da Amazônia.
A Sambazon, fundada pelo americano Ryan Black no ano 2000 e tida como pioneira em levar a fruta processada para os EUA, leva o açaí a cerca de 50 mil pontos de venda por lá (segundo entrevista à revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, em março) e, desde 2010, tem lojas com a própria marca no mercado americano (conforme o site da empresa).
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A rede Oakberry, que começou em São Paulo, em 2016, tem cerca de 50 lojas nos EUA — a marca informa ter 900 lojas em cerca de 50 países, incluindo 350 no Brasil — e pretende chegar a 70 até o fim deste ano.
Em pouco mais de dez anos, a Ubatuba Açaí, criada na Califórnia, está para inaugurar sua 23a loja, em Brea, cidade a 50 minutos de carro de Los Angeles. Desde a inauguração, em 2013, a rede vem crescendo ano a ano, enfrentou o desafio da pandemia de Covid-19 e, agora, se vê diante da sobretaxa de Trump, prevista para entrar em vigor semana que vem.
Apesar da apreensão, a dona da empresa, Daniela Demétrio, brasileira que mora nos EUA desde 1996, acha melhor esperar. A Ubatuba Açaí recebe a matéria-prima do Brasil todos os meses, mas pode adiar alguns pedidos.
— Tenho estoque. Vou pular uma data de pedido? Podemos dar uma parada — disse Daniela por telefone ao GLOBO, dias após inaugurar a 22ª loja, na cidade de North Hollywood, a 20 minutos de carro de Los Angeles.
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Segundo a empresária, na estratégia operacional da rede, chegam ao seu depósito central na Califórnia dois contêineres de açaí processado, congelado, por mês. Como o estoque é refrigerado, a Ubatuba Açaí teria matéria-prima suficiente para dar conta de quatro ou cinco meses de vendas, conta Daniela.
Outro motivo para esperar antes de repassar custos para o preço final é que talvez seja possível comportar o encarecimento do insumo apertando as margens. Isso é possível porque a estratégia de negócios da empresa inclui ter fornecedor direto no Pará, em busca de preços melhores do que o cobrado por distribuidores estabelecidos nos EUA.
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Daniela conta que a ideia do negócio surgiu justamente da avaliação de que a fruta estava sendo consumida de forma americanizada demais. Nos anos 2000 era possível encontrar açaí batido com suco de maçã ou com espinafre, segundo a empresária. Assim, o fornecedor direto serviu tanto para oferecer o açaí mais parecido com o que é consumido no Rio e no litoral de São Paulo, onde Daniela cresceu, quanto para buscar custos menores.
US$ 45 milhões em exportações em 2023
Os dados da balança comercial não trazem detalhes sobre exportações de açaí e derivados, mas estima-se que o Pará para o exterior 61 mil toneladas de açaí e derivados em 2023, gerando US$ 45 milhões, conforme um estudo do ano passado da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), vinculada ao governo do Pará. No total, o Brasil exporta pouco mais de US$ 1 bilhão em frutas por ano, segundo dados compilados pela Abrafrutas.
A quantidade exportada de açaí também é pequena ante a produção nacional de 1,7 milhão de tonelada, registrada em 2023, segundo o estudo da Fapespa, mas cresceu exponencialmente. Em 1999, o Pará exportou apenas 1 tonelada de açaí, mostra o levantamento do ano passado.
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O comércio exterior é importante para equilibrar oferta, demanda e preços do fruto processado, diz Denise Martins Acosta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frutas e Derivados do Estado do Pará (Sindfrutas):
— A exportação cria um certo equilíbrio, porque a fruta não fica tão barata, prejudicando os produtores. Quando deixamos de exportar, é muito provável que a gente tenha uma superoferta para mercado interno, então vai baixar preço de fruta, prejudicando os produtores rurais.
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Boa parte da produção de açaí não é cultivada, mas vem de práticas extrativistas de famílias ribeirinhas que vivem de colher a fruta, diz Denise. Jhoy Gerald Rochinha Jr., diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB), acrescenta que as safras passada e atual foram prejudicadas pelo calor excessivo. O receio é que os produtores tenham pouco para vender, enquanto a demanda por parte das fábricas, com oferta de sobra, despenca.
Cadeia movimenta R$ 7 bi por ano
O Sindfrutas estima que a cadeia de negócios do açaí movimente R$ 7 bilhões ao ano no Pará. Segundo Denise, são 180 fábricas que processam o fruto para vender congelado para outros estados do Brasil e para o exterior.
Mesmo no centro dos holofotes com a COP30 chegando — Belém sediará a conferência anual das Nações Unidas sobre o clima em novembro —, os paraenses seguem consumindo açaí como manda a tradição, ou seja, como acompanhamento diário do peixe ou do camarão, ao lado de arroz e farofa, entre outras opções.
Xarope de guaraná, banana ou granola passam longe. Reza a lenda que, antes de ganhar o mundo, o consumo como lanche saudável para a prática de esportes foi difundido Brasil afora pela família Gracie, pioneira do jiu-jitsu no Brasil, que é oriunda do Pará.