Hostis à população LGBT+ em seus territórios, onde mulheres também não têm direitos plenos, Egito e Irã se encontram hoje em Seattle, à meia-noite, no auge das celebrações do Mês do Orgulho pela população local, com a pauta feminina também na agenda. Além de disputarem a classificação para a segunda fase da Copa, os times vão protagonizar uma partida que, desde quando foi sorteada, no fim do ano passado, adquiriu potencial para se transformar numa saia-justa com as cores do arco-íris. As bandeiras multicoloridas, aliás, podem aparecer nas arquibancadas.
Seattle é um dos CEPs onde as pessoas são mais apaixonadas por futebol nos EUA. O Seattle Sounders, que disputou a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, é quase unânime. Além do esporte, outra vocação local é a diversidade. A região metropolitana no entorno do estádio Lumen Field, onde Irã e Egito vão jogar, inclui 516 mil adultos que se identificam como LGBT+, de acordo com dados do Censo americano. Chega a 17% a prevalência da população queer (guarda-chuva que reúne as pessoas cuja orientação sexual e identidade de gênero foge à norma), fazendo de Seattle uma das maiores densidades demográficas do grupo, notoriamente também muito concentrado em capitais como San Francisco, Nova York e Los Angeles.
Tradicionalmente, o Sounders realiza a cada ano uma Partida do Orgulho no fim de semana da Parada LGBT+ da cidade. Quando o município se tornou uma das 11 sedes americanas da Copa, organizadores locais convidados pela FIFA passaram a tratar a partida de 26 de junho, a dois dias da passeata, como um equivalente. Daí a expectativa por acessórios multicoloridos entre os espectadores da partida de hoje, que acontece a pouco mais de três quilômetros de onde a parada se concentra, no domingo.
Um dos torcedores do Irã que estarão nas arquibancadas é advogado empresarial, filho de pai persa e gay. O homem, de 38 anos, mora em Seattle desde 2014 e torce para os Sounders. Ele pediu para não ser identificado, mas abriu suas expectativas:
— Estou torcendo muito pelo Irã, mas receio que Salah possa ser um desafio grande demais. É bom que o governo dos EUA tenha flexibilizado as restrições de viagem da equipe. Espera-se que isso os coloque em condições um pouco mais equilibradas — afirmou o torcedor, que considera também ir à Parada LGBT+ e imagina ver sinais dela no estádio hoje: — Imagino muitas bandeiras, adesivos e bottons.
A alcunha adotada pelo comitê local não foi abandonada nem quando as seleções dos países conservadores foram sorteadas para jogar nesta data.
No Irã, a homossexualidade é considerada ilegal e costuma ser punida com pena de morte, seguindo a Sharia (lei islâmica). Há registros de punições com chibata, enforcamentos, decapitações e apedrejamentos, entre outros. No Egito, mesmo que as leis não enquadrem as relações entre pessoas do mesmo sexo, a prisão é o destino dessa parcela da população. O preconceito desses países é reflexo de práticas culturais milenares, associadas à religião e a noções morais.
Com essa herança em seus quintais, as federações de futebol do Irã e do Egito passaram os últimos seis meses tentando barrar associações entre a partida de hoje e as celebrações do Mês do Orgulho LGBT+ em Seattle. Num comunicado conjunto, as duas organizações afirmaram que os países são “muçulmanos com profundas afinidades culturais e religiosas” e que, portanto, “nenhuma cerimônia ou atividade promocional associada a esse movimento deve ocorrer dentro do estádio ou fazer parte do ambiente da partida”.
Os iranianos ainda pediram que a FIFA proibisse bandeiras nas cores do arco-íris dentro dos estádios, medida que a entidade não acatou. O país ameaça ainda abandonar o campo diante de manifestações do tipo, como faz em relação a protestos contra seu regime político.
Em nota reforçada ontem, a FIFA afirma que o torneio é um “evento inclusivo”, que acolhe pessoas de todas as origens, orientações sexuais e identidades de gênero. O texto também diz que “manifestações gerais relacionadas aos direitos humanos — incluindo o uso de bandeiras com as cores do arco-íris (….) — são permitidas, de acordo com o Código de Conduta dos Estádios da Copa”. Em janeiro, o presidente da entidade, Gianni Infantino, declarou à revista suíça Die Weltwoche que, ao contrário do que dizem os organizadores locais, a partida entre Irã e Egito não estaria associada ao Orgulho LGBT+:
— Devo esclarecer que não haverá uma Partida do Orgulho na Copa. Haverá umaem Seattle e, no mesmo dia, eventos organizados por entidades externas, mas isso não tem qualquer relação com a partida em si — afirmou Infantino.
Apesar de toda a resistência, o comitê local ligado à FIFA manteve a nomenclatura relacionada ao orgulho em suas comunicações. Para a noite de hoje, o grupo está, inclusive, ajudando a promover um festival de rua chamado Ballard Regnbue, que reunirá pessoas LGBT+ para assistirem à partida. Um dos mais antigos bares lésbicos dos EUA, o Rough & Tumble,também está entre as indicações.
Na quarta à noite, quando os iranianos chegaram a Seattle, manifestantes pró-aborto vestidas como na série “O Conto da Aia” estavam em algumas das principais vias públicas da cidade. Elas pediam garantias aos direitos reprodutivos femininos, que também são problemáticas no Irã e no Egito. Pouco antes da partida de hoje, um grupo de pessoas transexuais se reunirá para pedir acesso gratuito à saúde e a taxação dos bilionários americanos.

