O quanto uma vida pode mudar em 10 anos? Hoje zagueiro de Cabo Verde, que quer fazer história na Copa do Mundo ao tentar se classificar para o mata-mata diante da Arábia Saudita, às 21h, no Grupo H, Roberto “Pico” Lopes viveu uma trajetória inusitada para chegar ao maior palco do futebol mundial. E a sua história vai além da já famosa mensagem no LinkedIn o chamando para defender a seleção cabo-verdiana, que foi inicialmente ignorada por estar em português antes de uma segunda tentativa em inglês.
Em 2016, Lopes, nascido em Dublin e filho de um cabo-verdiano com uma irlandesa, se dividia entre uma carreira semi-profissional de jogador no Bohemian, da Irlanda, e um trabalho de meio-período em um banco na capital do país. Naquele momento, aos 24 anos, a falta de perspectivas quase o fez desistir do futebol, mas uma proposta mudou a trajetória do zagueiro. Contratado pelo Shamrock Rovers, maior campeão do futebol local, o jogador pôde finalmente se dedicar exclusivamente ao esporte.
A mais de 4 mil quilômetros de Dublin, em um arquipélago na costa da África, uma outra decisão iria impactar a vida de Roberto Lopes. Com um projeto de desenvolver o futebol local, a Federação Cabo-Verdiana de Futebol passou a procurar jogadores que poderiam ter a dupla-nacionalidade para atuar pela seleção africana. Além de uma busca ativa, a federação passou a receber indicações. E foi assim que o nome do zagueiro irlandês chegou ao então técnico Rui Águas. Foi do português que partiu a mensagem no LinkedIn, em 2018, para chamar Lopes para defender a seleção de Cabo Verde. Ao GLOBO, o treinador contou detalhes da história que viralizou nas redes sociais após a convocação para a inédita Copa de Cabo Verde.
— A Federação não tinha grandes condições para viajar. Eu vi o currículo e era bastante significativo para o nosso contexto. Depois vi as imagens.Como não tinha contatos, lembrei do Linkedin, pesquisei lá e cheguei nele. Pensei que ele falava em português, enviei uma mensagem, mas nunca tive respostas. Fiquei um pouco sem esperança, mas passado algum tempo, decidi tentar uma última vez. Não faria mais que isso, também tenho meu orgulho, como qualquer um. Felizmente, decidi mandar em inglês e ele respondeu quase imediatamente, muito feliz, e disse que estava pronto — relembrou Rui Águas.
E ele estava pronto mesmo. Três semanas depois da segunda mensagem, Roberto Lopes já estava em campo pela seleção de Cabo Verde em um amistoso contra Togo, na França. De lá para cá, Pico, como é conhecido, que já era um dos principais jogadores do Shamrock Rovers, também virou um dos capitães e referência da seleção. E isso se deve a algo que é exaltado da Irlanda à Cabo Verde: seu jeito de “cara legal” e sua tranquilidade.
— As pessoas às vezes confundem liderança com falar alto ou falar muito. Ele é uma pessoa muito calma, muito correta. E isso foi importante para ser aceito pelos seus colegas. Ele chegou e tornou-se um igual entre os colegas. E ele, sem dúvidas, era o que chegava com mais currículo, com mais títulos, foi campeão da Irlanda uma série de vezes. Virou uma peça fundamental, tanto no campo como fora dele. Uma pessoa excelente — disse Águas.
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Na Irlanda, a liderança de Roberto Lopes chegou a outro patamar. Recentemente, ele foi eleito presidente da Associação de Jogadores Profissionais (PFA, em inglês). Sob o seu comando, a PFA teve papel importante para fazer a federação local transferir o jogo contra Israel, pela Liga das Nações B, em setembro, de Dublin para um local neutro, que ainda será escolhido. A realização da partida gerou protestos e organizações, clubes e jogadores apoiaram um boicote ao duelo pelos conflitos envolvendo Israel no Oriente Médio, especialmente em Gaza.
— Pico teve uma posição firme sobre a Irlanda boicotar o jogo contra Israel. Isso é o reflexo também da opinião da maioria dos jogadores. A PFA fez uma pesquisa e 61% foram a favor do boicote — disse o jornalista Gavin Cooney, do The Irish Times.
Antes de embarcar para a Copa, Pico Lopes recebeu uma festa de despedida dos seus vizinhos de Crumlin, bairro em que cresceu e onde seus pais moram até hoje em Dublin. Um sinal do quanto a sua “liderança tranquila” cativa a todos.
— Acho que a personalidade dele dentro de campo reflete quem ele é fora de campo. Ele é um cara extremamente cuidadoso e comprometido. Ele é um cara gente boa, muito acessível. Um cara normal. Eu, sinceramente, acredito que ninguém tem nada a falar mal dele — completou Cooney.

