“Ela sente medo e humilhação. Me contou que está sendo tratada como bandida, sem ter feito nada de errado. Nunca se sentiu tão humilhada na vida. Diz que perdeu tudo: a casa, o carro e os filhos.” O desabafo é de uma amiga próxima da empresária brasileira Nikole Fernandes, mãe solo de três filhos, incluindo uma de 4 anos, detida por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos) na porta de casa, em Massachusetts, no último dia 27. Nikole, segundo a amiga, passou por penitenciárias comuns, tendo de deixar as filhas aos cuidados de amigos e, agora, vive sem saber o que será do seu futuro.
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A prisão de Nikole aconteceu na frente da filha de 18 anos, que fez aniversário na última sexta-feira e se formou no colégio no domingo — sem poder comemorar com a mãe. Segundo a filha, Nikole havia saído para tomar um café quando foi abordada pelos agentes com carros descaracterizados. Abalada, a jovem filmou a cena da detenção, dizendo que a “mãe não tem problema nenhum, só tem o visto expirado”. “Não! Levaram minha mãe”, diz a menina no vídeo, chorando.
Mãe solo de duas filhas, brasileira é presa na porta de casa
— Levaram ela apenas com a roupa do corpo e o passaporte. Não teve chance de falar com ninguém — contou a amiga, que preferiu não se identificar com medo do ICE, em entrevista ao GLOBO. — Quando eu soube da notícia, fiquei sem saber o que fazer. Fui correndo até a casa dela, mas ela já tinha sido levada. Peguei as filhas e levei pra minha casa. Foi desesperador.
Nikole, que vive nos Estados Unidos desde 2019, entrou legalmente com visto, mas acabou permanecendo além do prazo permitido — ficando sem status migratório. Ela cuidava sozinha das filhas após a separação do pai das crianças. O marido, inclusive, viajou do Brasil aos EUA para participar do aniversário e da formatura da filha mais velha, mas foi surpreendido ao encontrar a ex-esposa presa.
— Ela levava uma vida normal: entrava e saía de qualquer lugar, fez eventos, viajou de avião dentro dos EUA. Ela, agora, está sem status. Veio com visto, mas ultrapassou os seis meses, como milhões de brasileiros aqui — disse.
Segundo a amiga, Nikole foi levada inicialmente para uma penitenciária comum.
— Ela ficou numa cela com 20 pessoas, onde só cabiam três. Uma luz branca forte ligada o tempo todo, muito frio. Eles fazem pressão psicológica pra pessoa desistir e pedir deportação. Isso é parte da tática deles — relatou.
Ainda de acordo com ela, Nikole passou por duas prisões comuns, em um delas em uma cela solitária, antes de ser levada para o departamento do ICE, no Texas, onde tem direito a ligações e contato com pessoas.
— Ela me contou que ficou em uma solitária sem ouvir nenhum som, nenhuma voz. Nem no banho de sol ela via pessoas. Mas, quando teve direito a uma ligação pelo telefone do ICE, viu em cima da mesa deles o cartão de uma doceira que ela sempre contratava. Então, ligou para a doceira e pediu o telefone da filha [que ela não sabia decorado]. Foi assim que começamos a nos comunicar — contou a amiga, que cuidou das filhas da Nikole nos primeiros após a prisão, até a chegada do pai das crianças nos EUA.
Além do trauma emocional, Nikole enfrenta o medo da deportação e a incerteza sobre o futuro.
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— Ela diz que perdeu tudo. Casa, carro, os filhos. Se voltar pro Brasil, não tem mais nada. Ela construiu a vida aqui — afirmou ao GLOBO.
Natural do sul do Brasil, Nikole, que acumula mais de 5 mil seguidores nas redes sociais, fez carreira como produtora de eventos em Sorriso, no Mato Grosso, antes de se mudar para os EUA. Em solo americano, fundou o projeto “Love Coach”, voltado ao fortalecimento de casais cristãos, e era presença constante em eventos da comunidade brasileira em Boston.
Com a prisão, a família e os amigos criaram uma campanha na plataforma “GoFundMe” para arrecadar recursos que ajudem a cobrir despesas da casa, o cuidado com as filhas e a contratação de um advogado de imigração.
“Nikole é uma mãe solo, guerreira e dedicada, que vive aqui com suas duas filhas pequenas —a mais nova tem apenas 4 aninhos. Essa situação inesperada e devastadora coloca em risco não apenas o futuro dela, mas o bem-estar das crianças que dependem exclusivamente de sua presença, cuidado e amor”, diz a nota da campanha de arrecadação.
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O caso de Nikole se soma a uma crescente onda de detenções de imigrantes sem documentos após a volta de Donald Trump à Casa Branca, que prometeu deportar milhões de estrangeiros. No domingo, o estudante Marcelo Gomes, de 18 anos, foi abordado a caminho de um treino de vôlei, quando seu carro foi interceptado por três veículos descaracterizados do ICE. O jovem foi levado sob custódia e permanece detido em um centro de imigração em Burlington, segundo a rede de TV CBS.
— A gente sempre acha que nunca vai acontecer com a gente. Diziam que estavam prendendo bandidos e quem tinha problema com a Justiça. Mas ela não tinha nada e, por isso, todo mundo estava tranquilo. Uma situação desesperadora — concluiu a amiga.

