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outubro 6, 2026
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Elenice, de 'Quem Ama Cuida': por que é tão difícil sair de uma relação abusiva?

Por · outubro 6, 2026


“Por que ela simplesmente não vai embora?”. A pergunta costuma surgir quando uma situação de violência doméstica é observada de fora. Em “Quem Ama Cuida”, Elenice, personagem de Mariana Sena, mostra como a resposta pode estar distante da ideia de uma decisão simples.
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Casada com Tom, vivido por Allan Souza Lima, a personagem entrou na trama como uma mulher batalhadora que vivia em uma relação marcada pelo controle. O marido se colocava como provedor e a impedia de trabalhar. Com o avanço da história, vieram o ciúme, a violência psicológica e, depois, as agressões físicas.
Mais recentemente, Tom chegou a trancá-la dentro de casa, enquanto a filha tenta convencê-la a denunciá-lo. Ainda assim, Elenice encontra dificuldade para romper o vínculo.
O que prende uma mulher a uma relação abusiva? A história de Elenice ajuda a entender
Divulgação TV Globo
A trajetória reproduz uma dinâmica presente em muitos relacionamentos abusivos: a violência pode se instalar de maneira gradual, enquanto a dependência emocional, financeira e afetiva dificulta a percepção de que é possível sair daquela situação.
Para o psiquiatra Ciro Jorge, esse processo pode afetar a maneira como a própria vítima enxerga o relacionamento.
“Existe uma construção progressiva. A pessoa pode passar a acreditar que não consegue viver sem aquele parceiro, sentir culpa pela possibilidade de terminar ou manter a expectativa de que ele vai mudar. Quando autoestima, autonomia e rede de apoio vão sendo enfraquecidas, aquilo que parece uma decisão óbvia para quem está de fora pode se tornar extremamente difícil para quem está vivendo a situação”, explica.
Violência nem sempre começa com uma agressão
Um dos aspectos centrais da história de Elenice é justamente a escalada dos episódios. Antes da violência física, a personagem já enfrentava controle e restrições à própria autonomia. A trama também mostrou situações de violência psicológica e patrimonial.
Reconhecer essas manifestações é importante porque a violência doméstica não se resume à agressão física. A advogada Silvana Campos destaca que a legislação brasileira também prevê outras formas de violência contra a mulher.
“Ainda existe a ideia de que violência doméstica só existe quando há agressão física. A legislação brasileira reconhece também as violências psicológica, moral, sexual e patrimonial. Controlar dinheiro, impedir a mulher de trabalhar, ameaçar, humilhar ou criar mecanismos para limitar sua liberdade também são situações que precisam ser levadas a sério”, afirma.
A dinâmica pode se tornar ainda mais difícil de romper quando períodos de agressividade se alternam com pedidos de desculpas, promessas de mudança e momentos de aparente tranquilidade.
Para Glaucia Santana, terapeuta do Espaço Hi, essa alternância ajuda a entender por que o vínculo não desaparece necessariamente depois de um episódio de violência.
“Uma mulher pode amar aquela pessoa e, ao mesmo tempo, sofrer dentro daquela relação. Pode lembrar de quem o parceiro foi no início, acreditar nas promessas de mudança e se apegar aos períodos em que tudo parece voltar ao normal. Aos poucos, ela também pode começar a duvidar da própria percepção e se perguntar se está exagerando ou se provocou determinada situação. É por isso que acolhimento é muito mais importante do que julgamento”, observa.
‘Por que ela não denuncia?’
Na novela, Dafne, filha do casal, tenta convencer a mãe a procurar a polícia. Elenice, porém, chega a assumir a responsabilidade pelos abusos e não consegue se afastar imediatamente de Tom.
A situação ajuda a ilustrar outro aspecto comum nesses casos: a pressão para que a vítima tome uma decisão imediata pode não considerar os fatores que a mantêm naquele relacionamento.
“Quando dizemos ‘você precisa sair daí’ sem compreender medo, dependência, filhos, questões financeiras e o enfraquecimento emocional provocado pela própria relação, corremos o risco de fazer a vítima se sentir ainda mais incompreendida. A rede de apoio precisa ajudá-la a recuperar segurança e autonomia”, diz Ciro.
A separação também pode envolver riscos que não existem em um rompimento convencional. Segundo Silvana, a mulher precisa ter acesso a informação e apoio para avaliar os caminhos disponíveis.
“Quando existe violência, não devemos tratar a separação simplesmente como o fim de um relacionamento comum. A mulher precisa conhecer seus direitos, procurar uma rede segura e, quando houver risco, buscar os órgãos competentes e orientação jurídica para que as medidas de proteção adequadas sejam avaliadas”, ressalta.
É justamente nessa dimensão que a história de Elenice se distancia da ideia de uma vítima que reconhece imediatamente o abuso e rompe o relacionamento. A personagem mostra como a percepção da violência pode acontecer ao longo do tempo, enquanto medo, dependência, esperança de mudança e falta de autonomia dificultam a ruptura.
“Romper um vínculo de dependência emocional envolve reconstruir coisas que foram sendo perdidas ao longo da relação: autoestima, confiança, autonomia e a percepção de que existe vida fora daquele relacionamento”, conclui Glaucia.

Elenice, de 'Quem Ama Cuida': por que é tão difícil sair de uma relação abusiva?