Estamos entrando em uma nova fase da história da riqueza: a era dos trilionários. Até o fim de 2017, nenhuma pessoa no planeta tinha acumulado mais de US$ 100 bilhões. Hoje, menos de uma década depois, 18 pessoas já ultrapassaram essa marca no ranking de bilionários da Bloomberg. E o próximo salto pode estar perto. Se a SpaceX abrir capital com sucesso, Elon Musk- cuja fortuna já passa de US$ 670 bilhões – pode se tornar o primeiro trilionário do mundo. E, nesse ritmo, ele talvez não seja o único nesta década.
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Isso pode parecer algo totalmente inédito. E, em parte, é mesmo. Mas também lembra outro momento da história. No começo do século XX, os Estados Unidos passaram por mudanças tecnológicas e sociais gigantescas, uma política extremamente polarizada e uma concentração enorme de riqueza no topo da sociedade. O resultado foi um sentimento generalizado de ansiedade e confusão.
Naquela época, as pessoas ainda estavam tentando entender algo novo: o que significava a palavra “bilhão”. Em 1903, um jornal tentou explicar assim: “Um bilhão de dólares é o mesmo número de dólares que minutos que se passaram desde o início do cristianismo”.
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Hoje, porém, nosso desafio é imaginar mil desses bilhões. Ou seja, um trilhão de dólares é aproximadamente o número de minutos desde o início da Era do Gelo.
A diferença entre quatro vírgulas e três é enorme. Um bilionário pode gastar US$ 1.000 por dia durante cerca de 2.700 anos, enquanto um trilionário poderia gastar US$ 1 milhão por dia pelo mesmo período. Seja Elon Musk, Mark Zuckerberg ou um concorrente ainda desconhecido surgido da ex losão da inteligência artificial, o que significa tanto dinheiro nas mãos de uma única pessoa?
A diferença entre um bilhão e um trilhão é enorme. Um bilionário pode gastar US$ 1.000 por dia durante cerca de 2.700 anos. Um trilionário, por outro lado, poderia gastar US$ 1 milhão por dia pelo mesmo tempo.
Então surge a pergunta inevitável: O que significa uma pessoa ter tanto dinheiro assim? Para tentar responder, vale olhar para alguém que enfrentou uma pergunta parecida mais de um século atrás: John D. Rockefeller.
O homem que virou o primeiro bilionário
No final do século XIX, Rockefeller já era um dos homens mais ricos do mundo. Em 1890, quando tinha 50 anos e sua fortuna havia acabado de ultrapassar US$ 100 milhões, muita gente já dizia que ele seria o primeiro bilionário da história.
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Sua empresa, a Standard Oil, dominava o setor de petróleo e gerava rios de dinheiro. Mesmo com uma grande recessão econômica, sua riqueza dobrou até o final do século. No início do século XX, ela cresceu ainda mais rápido. Por volta de 1915, Rockefeller já tinha mais de US$ 1 bilhão.
Se ajustarmos esse valor pela inflação, sua fortuna equivaleria hoje a cerca de US$ 40 bilhões. Isso o colocaria apenas na 54ª posição do ranking atual de bilionários. Mas comparar apenas pela inflação não conta toda a história. Naquela época, a economia dos Estados Unidos era muito menor.
Quando se compara a fortuna de Rockefeller com o tamanho da economia americana, o resultado é impressionante: ele controlava uma riqueza equivalente a cerca de 1/30 de todo o PIB do país. Em valores atuais, isso equivaleria a mais de US$ 1 trilhão. Ou seja: em termos de poder econômico relativo, Rockefeller foi provavelmente o homem mais rico da história.
Quando alguém fica rico demais
Uma pessoa com esse nível de riqueza não é apenas mais um rico. Mesmo entre os muito ricos, há divergências enormes. Bilionários e multimilionários raramente concordam entre si. Nem mesmo sobre temas como impostos. Mas quando a fortuna de alguém ultrapassa certos limites, algo muda. As barreiras começam a desaparecer.
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Essa pessoa passa a ter uma capacidade única de influenciar o mundo. Ainda assim, nem mesmo alguém tão poderoso é totalmente intocável. A história mostra que, quando a concentração de riqueza chega a níveis extremos, a reação da sociedade pode ser feroz.
O que fazer com tanto dinheiro?
No início do século XX, as pessoas simplesmente não conseguiam imaginar o que alguém faria com US$ 1 bilhão. Naquela época, um único dólar já podia pagar o prato mais caro de um restaurante sofisticado. Mesmo hoje, gastar US$ 1 bilhão em uma única vida ainda é logisticamente difícil.
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Veja o caso de Jeff Bezos. Seu casamento em Veneza teria custado cerca de US$ 20 milhões. Mesmo com um evento desse tamanho, o casal poderia renovar os votos todo fim de semana durante um ano inteiro sem chegar perto de gastar um bilhão.
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Dentro do império Rockefeller
Para entender melhor como funciona a vida dentro de uma fortuna gigantesca, visitei o Rockefeller Archive Center, em Tarrytown, no estado de Nova York. O local fica em uma antiga propriedade da família que tinha mais de 1.200 hectares. Ali estão guardados documentos, cartas e registros das atividades da família Rockefeller e de suas fundações filantrópicas.
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Decidi começar lendo as cartas trocadas entre Rockefeller e seu filho único. O filho, John D. Rockefeller Jr., sempre admirou profundamente o pai e durante décadas seguiu suas orientações em quase tudo. Mas, a partir de 1910, ele começou a assumir cada vez mais o controle dos negócios da família, enquanto o pai já aposentado se dedicava a uma rotina disciplinada de golf e passeios de automóvel.
Obsessão dos ricaços em economizar
Uma coisa curiosa aparece logo nas primeiras cartas: a obsessão da família por economizar dinheiro. Rockefeller construiu a Standard Oil sendo extremamente eficiente em cada detalhe do negócio, desde o refino até o transporte de petróleo.
Seu filho herdou essa mentalidade. Em uma carta, ele lista detalhadamente seus gastos anuais: US$ 83.238,35. Entre eles, uma doação de US$ 25 mil para a Universidade Brown, onde estudou. Em outra carta, ele recusa uma reforma nos estábulos de sua casa em Nova York, dizendo que seria desnecessária.
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E em outra agradece ao pai por uma economia significativa na casa graças ao envio de US$ 11,10 em aspargos. Hoje isso parece trivial. Mas, na época, um trabalhador de fábrica ganhava 20 centavos por hora. Ou seja: aquele pacote de aspargos era um luxo inimaginável para quase todo mundo.
Mas talvez a maior diferença entre aquela época e hoje seja como a sociedade reagiu à desigualdade. No início do século XX, a revolta contra os super-ricos foi intensa. E os políticos responderam.
Em 1903, um deputado americano propôs algo radical: declarar qualquer pessoa com mais de US$ 10 milhões uma ameaça pública e confiscar o resto da fortuna. O presidente Theodore Roosevelt iniciou uma ofensiva contra os grandes monopólios empresariais, incluindo a Standard Oil. Ele também defendeu um imposto sobre herança para evitar que enormes fortunas passassem intactas de geração para geração.
O bilionário mais odiado da América
Rockefeller acabou se tornando um dos homens mais odiados dos Estados Unidos. Jornalistas investigativos revelaram as táticas agressivas usadas por sua empresa para eliminar concorrentes. Em 1911, a Suprema Corte ordenou que a Standard Oil fosse desmembrada em dezenas de empresas menores.
A tensão social era enorme. Em uma carta ao pai, Rockefeller Jr. descreveu um mundo tomado por agitação política: uma revolução na China, uma enorme greve de carvão na Inglaterra, propostas políticas nos EUA para taxar pesadamente os ricos… Pouco depois, o país aprovou o primeiro imposto federal de renda.
A riqueza também traz perigo
A hostilidade contra os Rockefeller não era apenas política. Em 1914, guardas de uma empresa de carvão ligada à família mataram grevistas e suas famílias em um confronto conhecido como Massacre de Ludlow, no Colorado.
Rockefeller Jr., que fazia parte do conselho da empresa, foi acusado de responsabilidade moral pelo massacre. Logo depois, uma bomba destinada à família explodiu em Nova York. Três anarquistas morreram na explosão.
Como os americanos veem os bilionários hoje
Hoje a desigualdade voltou a níveis históricos. O 1% mais rico dos EUA controla cerca de 32% da riqueza do país, o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, nas últimas décadas parecia que muitos americanos não se incomodavam tanto com as grandes fortunas.
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Pelo contrário: muitos admiravam os bilionários. Uma pesquisa de 2025 mostrou que 53% dos americanos dizem admirar bilionários. Mas essa visão pode estar mudando. Hoje, dois terços dos americanos dizem que bilionários criam uma sociedade injusta e quase três quartos acham que eles não fazem o suficiente para melhorar o mundo.
Como se cria uma fortuna gigantesca?
O caminho para virar bilionário — ou trilionário — costuma seguir um padrão simples: criar uma empresa, transformá-la em uma gigante global e manter uma grande participação acionária
O fundador da Nvidia, Jensen Huang, possui apenas 3,3% da empresa, mas isso já o coloca entre os mais ricos do planeta. Rockefeller possuía cerca de 25% da Standard Oil. Se Huang tivesse essa participação na Nvidia hoje, já teríamos um trilionário.
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Rockefeller também usou sua fortuna para transformar o mundo. Durante sua vida, ele doou cerca de US$ 540 milhões para causas filantrópicas. Seu filho doou mais US$ 537 milhões. Esse dinheiro financiou universidades, hospitais, pesquisas médicas, parques nacionais, museus, programas de saúde pública.
Entre outras coisas, a família ajudou a fundar a Universidade de Chicago, financiou pesquisas que ajudaram a combater doenças e doou o terreno onde hoje fica a sede da ONU em Nova York.
O poder invisível dos super-ricos
Bilionários não mudam apenas a economia. Eles também podem mudar a forma como pensamos e vivemos. Os Rockefeller eram batistas rigorosos e financiadores do movimento que levou à Lei Seca nos Estados Unidos, que proibiu o álcool em 1919. Anos depois, Rockefeller Jr. reconheceu que a proibição foi um erro, ajudando a acelerar sua revogação. Depois disso, ele financiou discretamente os fundadores do que viria a se tornar Alcoólicos Anônimos.
Qual será o futuro dos trilionários?
Esse tipo de influência dos ricaços não tem prazo de validade. Quanto mais pacientes, criativos e conscientes forem os super-ricos, maior pode ser seu impacto. E é por isso que a pergunta central deste século pode ser simples: Se o mundo realmente tiver um trilionário, quem será essa pessoa? E o que ela fará com um dinheiro praticamente ilimitado?

