O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a acusar Israel de promover um genocídio na Faixa de Gaza ao criticar a falta de liderança política na comunidade internacional e por parte da ONU nesta sexta-feira, durante um encontro preparatório para a Cúpula dos Brics, que será sediada no Rio.
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— O problema nosso não é nem econômico. O problema nosso é político. Porque há muito tempo eu não via o mundo carente de lideranças políticas como hoje. Há muito tempo eu não via a nossa ONU tão insignificante como ela se apresenta hoje — disse Lula. — Uma ONU que foi capaz de criar o Estado de Israel, não é capaz de criar um Estado Palestino. Não é capaz de fazer um acordo de paz para que o genocídio do Exército israelense [não] continue matando mulheres e crianças inocentes em Gaza.
A declaração foi feita durante a abertura da reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos Brics, que começou nesta sexta e segue até o sábado no Hotel Fairmont, em Copacabana. A referência ao conflito no Oriente Médio surgiu na parte final da fala de abertura do presidente, em um momento em que Lula falava de improviso, ao término de um discurso por escrito, mais focado em aspectos econômicos e da abordagem da instituição financeira fundada em 2015.
— Essas lideranças políticas é que tem que tomar as decisões econômicas. É por isso que a discussão de vocês sobre a necessidade de uma nova moeda de comércio é extremamente importante — acrescentou o presidente, concluindo seu raciocínio sobre o peso político nos aspectos econômicos.
O evento reúne ministros de Estado dos países-membros e convidados, integrantes do conselho do Banco do Brics e líderes empresariais. O tema do evento é “impulsionando o desenvolvimento, promovendo inovação, cooperação e impacto por meio de um banco multilateral de desenvolvimento para o Sul Global”.
Operação de guerra
A acusação de Lula sobre as operações militares israelenses ocorre no mesmo dia em que o Alto Comissariado das Nações Unidas voltou a expressar preocupação com violações à população civil palestina, indicando ter registrado 613 mortes desde o início de maio durante distribuições de alimento no enclave, sendo 509 delas nas proximidades de pontos de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), organização apoiada por EUA e Israel e criticada por entidades que atuam na área há anos.
— Registramos 613 mortos desde o início das operações da fundação até 27 de junho, dos quais 509 nas proximidades dos pontos de distribuição da GHF — disse Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, em uma coletiva de imprensa em Genebra, acrescentando que as demais pessoas morreram perto de comboios da ONU e de outras organizações. — Quanto aos responsáveis, está claro que o Exército israelense bombardeou e atirou contra palestinos que tentavam chegar aos pontos de distribuição. Quantas pessoas morreram? Quem é o responsável?
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Ao longo da parte previamente preparada do pronunciamento, Lula se voltou para o papel do NBD na configuração atual do mundo, classificando o banco como um “fórum multilateral inclusivo, eficaz e inclusivo”, cujo objetivo disse ser “superar déficit de financiamento para o desenvolvimento sustentável”. O presidente também destacou o esforço da instituição para fortalecer o uso de moedas locais.
— Em um cenário global cada vez mais instável, marcado pelo ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo, impactado pela crise climática, o papel do NDB na redução de nossas vulnerabilidades será crescente — afirmou o presidente. — Nosso banco é mais do que um grande banco para países emergentes, ele é a comprovação de que uma arquitetura financeira reformada é viável, e que um novo modelo de desenvolvimento mais justa possível.
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Antes de se dirigir ao público de improviso, o presidente fez uma brincadeira, afirmando que sabia que alguns temas não deveriam ser discutidos naquele espaço, mas que precisava abordá-los “com as pessoas do dinheiro do mundo”. Foi então que criticou abertamente a austeridade fiscal pregada pelos bancos atualmente, acusando-o de empobrecer os mais pobres.
— Vocês podem, e devem, mostrar ao mundo que é possível criar um novo modelo de financiamento sem condicionalidades. O modelo da austeridade não deu certo em nenhum país do mundo. — disse Lula. — A chamada austeridade exigida pelas instituições financeiras levaram os países a ficar mais pobres, porque toda vez que se fala em austeridade, o pobre fica mais pobre, e o rico fica mais rico. É isso que acontece no mundo de hoje, e é isso que temos que mudar.