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setembro 26, 2026
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Em jantar com empresários, Lula diz que é preciso 'escolher entre democracia ou barbárie' e fala em conciliar 'responsabilidade fiscal com social'

Por · setembro 25, 2026
Lula a empresários: 'Qual a dúvida? Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Não é isso que está na mesa'


Para uma plateia de empresários a nove dias da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou que é preciso escolher “entre o regime democrático ou a barbárie”, disse que tem feito um governo com responsabilidade fiscal e prometeu fazer uma reforma política e do Judiciário se for eleito para um quarto mandato. O presidente evitou em se comprometer com medidas para a redução dos juros ou para redução dos gastos públicos, anseios do mercado, criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pediu “seriedade” dos empresários.
— Quem de vocês se lembra quando a economia brasileira voltou a crescer acima de 3%? Cresceu em 2010 e quando eu voltei agora para presidente da República. Eu peguei esse país com duas crises. Primeiro, quando eu ganhei a eleição em 2002, os economistas mostravam a dívida externa, nós acabamos com isso. Por uma questão simples: não é respeitoso um país que não sabe tomar conta das suas contas. A minha professora de economia foi a Dona Lindu, não faça dívida que você não pode pagar, e é assim que a gente vem tocando esse Brasil todos estes anos — falou, citando sua mãe.
O evento foi realizado em São Paulo, organizado pelo Esfera Brasil e pelo Grupo Prerrogativas, e na lista de convidados havia cerca de 500 empresários, advogados e representantes de entidades da sociedade civil. Entre os empresários presentes, estão nomes como Joesley Batista, da JBS, Gustavo Pimenta, presidente da Vale, Marcos Almeida, da Brookfield, Sérgio Zimerman, da Petz, Gustavo Furtado, da Centauro, Diego Barreto, do iFood, Silvia Penna, da Uber.
O petista citou como crises seguintes a de 2008, que atingiu sobretudo os Estados Unidos, e a guerra do Irã, no mandato atual, que aumentou o preço do petróleo em todo o mundo, para ressaltar medidas que ele tomou para reduzir os impactos para a economia do país. Em seu discurso, ainda falou que sonha em ter “um país de classe média”, e que não se contenta “com um salário de R$ 2 mil”, acrescentando que é preciso ter “responsabilidade social junto com a responsabilidade fiscal”.
— E vocês empresários precisam entender que quanto mais eles ganharem, vocês vão ganhar mais. Nós, em apenas 12 anos, encontramos de volta 33 milhões de pessoas que estavam passando fome, ou seja, se a gente não tem responsabilidade social junto com a responsabilidade fiscal, a gente não resolve o problema do país. Então a gente tem que decidir que país que a gente quer, um país que seja governado apenas para 35% da população, ou para 100% da população. E vocês sabem quem são os candidatos e sabem quantos têm condição de governar esse país. Vocês estão olhando para o cara que governou o estado mais rico do país por 13 anos, e o presidente que já governou por 12 anos. Qual é a escolha? — indagou.
Em diversos momentos, o chefe do Executivo mencionou que o pleito deste ano não definirá apenas o novo governante, mas o tamanho da influência dos Estados Unidos no país.
— Eu quero dizer para vocês o que está em jogo: é se a gente vai querer fortalecer o regime democrático ou fazer a barbárie no nosso país — disse — É importante que vocês tenham seriedade. Ou vocês votam em alguém que quer ser brasileiro ou votam em alguém que vai beijar a bandeira americana todo dia. Faltam dez dias para vocês escolherem o que vocês querem, e vocês sabem o que pode acontecer nesse país, sabem que o Trump está fazendo aposta que ele vai ser dono da América Latina. E eu quero dizer que, enquanto eu for presidente, o dono disso aqui se chama povo brasileiro e ninguém vai interferir. Isso vale para os empresários brasileiros, porque um país que se preza tem uma indústria muito forte.
Antes do encontro, Lula assinou uma Medida Provisória (MP) para proibir as bets e sites de apostas no geral no Brasil. Além da MP, o presidente apresentará ao Congresso Nacional um projeto de lei para criminalizar as bets e seus operadores. A medida provisória tem vigência imediata e precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para seguir valendo. Já o projeto de lei só entra em vigor após ser avaliado pelos parlamentares.
Este foi o segundo encontro do presidente com empresários durante a campanha eleitoral. Em 31 de agosto, o petista recebeu um grupo de empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada, mas foi um encontro mais reservado, que reuniu 16 pessoas. Na ocasião, houve queixas dos participantes sobre a alta taxa de juros do país (hoje a Selic está em 13,75% ao ano) e sobre os gastos públicos.
Minerais críticos e taxas de juros
Alguns empresários se dirigiram a Lula e fizeram apelos de seus setores para o governo. O presidente da Vale falou da importância do Brasil explorar mais as terras raras, onde há minerais críticos que poderiam ajudar na “transição verde”, inclusive importante insumos que são essenciais para diversos segmentos no mundo inteiro.
— Uma reflexão que a gente tem feito na indústria é que a gente tem uma oportunidade única de liderar essa transição verde na oferta dos minerais críticos — disse.
Jorge Cury, presidente do Secovi-SP, entidade que representa o mercado imobiliário do estado, agradeceu ao presidente e à Caixa Econômica pelo aumento nos lançamentos de imóveis nos últimos anos, mas reclamou da taxa de juros, que impacta no valor dos financiamentos de imóveis. Atualmente, a taxa Selic está em 13,75% ao ano.
— Eu pergunto se nós vamos ter ao longo desses próximos quatro anos alguma chance de reduzir os juros para permitir que a classe média possa ter acesso ao imóvel. O grande motor desse país foi sempre a classe média. E a gente precisa recuperar isso, eu sei do seu pragmatismo e sua sabedoria, vai achar o caminho para que a gente tenha uma redução de alguma maneira desses juros, fica o pedido — falou .
Nesta sexta, Lula estava acompanhado de vários integrantes do governo, como o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), e os ministros Dario Durigan (Fazenda), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Miriam Belchior (Casa Civil), Esther Dweck (Gestão e Inovação), além dos presidentes da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e do BNDES, Aloizio Mercadante. Os ex-ministros da Fazenda Fernando Haddad (PT) e do Planejamento, Simone Tebet (PSB), também participaram.
Ministros acenam ao mercado
Integrantes do governo Lula reforçaram os resultados do governo na área econômica, e acenaram para os representantes de diversos segmentos em suas falas. Alckmin destacou feitos do governo e falou sobre “o que vem pela frente”, mencionando desafios do país como a energia para possibilidade o avanço da inteligência artificial e a reserva de “minerais raros estratégicos” para o carro elétrico e a energia eólica. Na sua fala, também se dirigiu a Bia Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e elogiou a atuação do tucano na economia.
— Temos desafios pela frente e oportunidades, com a (exploração na) Margem Equatorial, o Brasil já é o sétimo maior produtor do mundo de petróleo, e vamos avançar. Tem candidato querendo adiar a Reforma Tributária. Ela desonera a exportação, pode aumentar em 17% a exportação, então o nosso desafio é implementá-la já a partir de 1º de janeiro. Temos a questão fiscal. Precisamos unir os outros poderes. Não é possível salários de R$ 300 mil, R$ 400 mil, isso é pago pelos assalariados. Tem estado que um deputado tem 146 cargos comissionados. O Senado paga seguro-saúde a seus senadores, 46 vezes o que paga o SUS. Temos que nos indignar perante o que está errado, e o presidente Lula é o homem vocacionado para fazer o pacto entre Legislativo e Judiciário — falou.
O ministro da Fazenda Dario Durigan mencionou três desafios que o governo federal tem que enfrentar: segurança pública, institucionalidade e taxa de juros. Ele citou a Operação Carbono Oculto, realizada em conjunto pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Receita Federal e outros órgãos, e cuja terceira fase foi deflagrada na última quinta-feira (24), mirando empresas que lavam dinheiro para o crime organizado no setor de combustíveis. Ele prometeu que, “para o futuro, a União vai entrar mais na segurança pública”, com a “inteligência financeira do Ministério da Fazenda” para “moralizar” o mercado de fundos e “alguns poucos integrantes do sistema financeiro”.
— Já o tema das contas públicas, é importante fazer uma distinção entre o que nós fizemos, que foi muito, e o que precisa ser feito. Quando a gente olha para o resultado do governo anterior, do que a gente pegou, tinha muita coisa errada — falou. — Não teve nenhum projeto enviado pelo governo e aprovado pelo Congresso sem a previsão de receita ou adequação orçamentária. Diferente do governo, que agora se diz liberal, fez no passado. As poucas medidas que foram aprovadas pelo Congresso (sem previsão orçamentária), nós fomos ao STF exigir a responsabilidade fiscal. A responsabilidade fiscal é do Executivo, mas também do Congresso e do Judiciário e, nesse precedente da desoneração da folha, o STF disse com todas as letras que o Congresso não pode aprovar medidas sem previsão orçamentária — falou.
Durigan disse que vai fazer “revisão periódica” de isenções fiscais para empresas, e “estabelecer um limite”. Já para os juros, admitiu que a taxa está alta, mas que essa mudança deve ser feita “de modo estruturado”
– Esse esforço envolve sim uma melhoria fiscal. O discurso fiscal tem que ser feito na política do dia a dia, com transparência e com espírito republicano e, com isso, vamos seguir numa trajetória de melhorar as contas públicas. Temos que seguir dando eficiência para o gasto público, isso tem que se intensificar. Dinheiro público tem que ser gasto com austeridade, temos que revisar política pública, que seja pago para quem precisa, e não para dar privilégio e penduricalho. Com justiça social e combate a privilégios — afirmou Durigan.
O ministro Márcio Elias Rosa destacou resultados do governo Lula na área econômica, especialmente no comércio internacional, afirmando que “o Brasil com protagonismo e não um mero coadjuvante no desenvolvimento”. Ele ainda lembrou da taxação que os Estados Unidos implementou sobre os produtos brasileiros.
— Frente ao tarifaço, o Brasil respondeu com o Brasil Soberano. Nós respondemos ao tarifaço com a diversificação do mercado e com a negociação, sem se afastar jamais dos interesses dos brasileiros – falou.
O presidente da Caixa, Carlos Vieira, ressaltou a importância do banco para a área imobiliária, com os financiamentos de imóveis, sobretudo no âmbito do Minha Casa Minha Vida. A presidente do Banco do Brasil, por sua vez, lembrou que foi a primeira mulher a presidir a instituição em mais de 200 anos, e comparou os créditos disponibilizados ao agronegócio do país pelo governo atual e pela gestão anterior, de Jair Bolsonaro (PL), por meio do Plano Safra, e falou das operações do banco voltadas para a indústria, sobretudo para aqueles que exportam, e endereçou indiretamente as preocupações do mercado com a responsabilidade fiscal do governo Lula.
— Voltamos a fazer o papel que um banco público precisava fazer. Em nenhum momento o desenvolvimento do pequeno empreendedor até a agroindústria, de uma pequena empresa até uma multinacional, deixou de ser feito. Há muito a ser feito, com responsabilidade. A gente entende que há questões a serem corrigidas e nós temos um presidente que sabe todos os números, de cada setor da economia brasileira, e que exige de nós o cuidado, carinho e a responsabilidade com a gestão das nossas empresas — falou Tarciana.
O advogado Marco Aurélio Carvalho, do grupo Prerrogativas, que ajudou a organizar o evento, fez um dos discursos mais duros contra Flávio Bolsonaro, chamou ele de “miliciano” e reconheceu que “muitas das pessoas da plateia têm diferenças” com Lula, mas disse que “não há no país nenhuma condição de ter um país seguro e previsível” se não for “pelas mãos desse homem”.

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