Motivo de polêmica antes, durante e após a COP30, devido à autorização para a prospecção de petróleo, a região da foz do Rio Amazonas é, sobretudo, uma incógnita. Lá a natureza exibe força extraordinária e nenhuma gentileza. Ela esconde tesouros biológicos e minerais em águas turvas e traiçoeiras, produz campos de lama profundos, quilométricos, intransponíveis; gera marés com fôlego de tsunami e cria animais únicos, como onças-pintadas que pescam no Atlântico, e botos e peixes-boi mestiços, criaturas meio de rio meio de mar. Um mundo que ganhou uma identidade visual em “Amazônia Atlântica” (Cátedra Unesco/USP e Andrea Jakobsson), livro do fotógrafo Luciano Candisani, com lançamento em dezembro.
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Candisani é um dos fotógrafos de natureza mais experientes e respeitados do Brasil. Em mais de três décadas de carreira, já fotografou todos os biomas brasileiros, esteve na Antártica, na Ásia e em alguns dos lugares mais selvagens da Terra. Mas o litoral da Amazônia se mostrou um desafio. Era preciso dar uma face a quem muda de rosto todos os dias e não se deixa ver sem exigir sacrifícios.
O livro é resultado de uma expedição no início deste ano, iniciada na ilha de Maracá, no Amapá. De lá ele seguiu para o estuário do Amazonas, de Macapá a Belém, incluindo a Ilha de Marajó. Depois, foi para o Leste, em direção à fronteira do Pará com o Maranhão, para visitar comunidades costeiras encravadas na maior faixa contínua de manguezais do mundo, com 679 quilômetros de linha de costa.
Candisani atolou na lama muitas vezes. Precisou recorrer com frequência ao drone. E o fez não apenas porque algumas áreas são intransponíveis a pé, de carro ou de barco, mas também porque é tudo tão imenso que, quase sempre, não se pode ver de outra forma, a não ser do alto.
— Mas foi justamente essa hostilidade da natureza que ajudou a manter a região praticamente intocada, em constante transformação e diversa. Queria oferecer uma identidade a esse ambiente tão diferente do que se imagina como sendo Amazônia. Busquei uma estética que desse noção da magnitude colossal desse lugar extremo. Para isso, elegi símbolos — afirma Candisani.
As marés, as correntes marinhas e o volume de sedimentos despejados pelo Rio Amazonas fazem com que a paisagem do litoral mude de uma semana para a outra.
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O mais volumoso rio do mundo e a maior floresta tropical do planeta não se entregam com facilidade ao mar. A pluma de sedimentos do Amazonas chega a cobrir uma área de até 1,5 milhão de quilômetros quadrados.
Em terra, se formam cabos lamosos, que são projeções gigantescas, fluidas e em constante transformação da lama na foz do Rio Amazonas. Esses cabos são resultado da imensa carga de sedimentos (o equivalente a 20% de toda a descarga de rios do mundo) e moldados pelas correntes oceânicas. São uma característica marcante da geografia única da região e cruciais para seu ecossistema rico e complexo.
As marés chegam a sete metros de amplitude, entre as maiores do mundo. Elas obrigam a fauna a se reinventar. Na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca (AP), uma unidade de conservação federal, existe uma população de onças-pintadas com um comportamento único no Brasil. Elas se tornaram “marinhas”. Aprenderam a caçar em áreas de maré, onde perseguir a caça em lamaçais profundos exige habilidade quase sobrenatural. Também sabem pescar no mar, em águas marrons e com fortes correntezas.
O estuário amazônico é uma região de misturas ainda mal compreendidas pela ciência. Dentre elas, possíveis híbridos de peixes-boi marinho e da Amazônia e do boto tucuxi (fluvial) com o cinza (marinho).
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Por isso, o primeiro símbolo retratado é justamente a grande variação de marés. Elas possuem potência para redesenhar a paisagem profundamente em questão de dias, seja por meio de pororocas, do alargamento ou erosão da linha de costa.
O segundo símbolo, diz Candisani, é a presença marcante de Reservas Extrativistas (Resex), onde há comunidades tradicionais que tiram seu sustento dos manguezais e do mar.
O terceiro, a canoa à vela, ainda muito comum na região, mas em vias de desaparecimento em outras partes do país. Há canoas de vários tipos. Mas todas dependem somente do vento e da habilidade do piloto.
— Elas estão na essência do modo de vida tradicional que preserva a região. Se fossem motorizadas, como as rabetas tão comuns no restante da Amazônia, aquele ambiente não seria preservado assim — frisa Candisani.
A pesca comercial em embarcações de pequeno porte, como traineiras, é o quarto símbolo visual:
— Boa parte da pescada que comemos no Brasil vem desse litoral. A soma dessas pequenas partes resulta numa grande pescaria.
Essa natureza crua está no limiar de uma decisão. Poderá ser conservada ou profundamente alterada, se o Brasil tomar ali o caminho de desenvolvimento convencional. E não apenas com o petróleo, mas com uma série de ações de infraestrutura, ressalta Candisani.
— Essa região só foi preservada devido à dificuldade extrema de viver lá. Na hora em que isso mudar, ela também se transformará — acredita.
O ensaio fotográfico de Luciano Candisani é acompanhado de textos do cientista oceânico Alexander Turra, do crítico de fotografia Eder Chiodetto e da geofísica Valdenira Ferreira dos Santos.

