Enquanto as duas principais facções criminosas do país, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), organizam uma trégua, outra organização concorrente se expande e leva mais violência a Minas Gerais, Ceará, Bahia e Espírito Santo. O Terceiro Comando Puro (TCP) levou para estes estados a guerra que trava no Rio com o Comando Vermelho.
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A trégua pode impulsionar alianças do PCC com quadrilhas locais, que não podem mais contar com a organização nascida nos presídios de São Paulo, para o pesquisador Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mas antes disso, criminosos interessados em se opor ao CV já buscavam o apoio do TCP.
Foi o que aconteceu no Espírito Santo. Entre 2018 e 2019, o traficante capixaba Luan Gomes de Faria, o Camu, se escondeu no Complexo da Maré, no Rio, e se aproximou da facção. Camu já rivalizava com o Primeiro Comando de Vitória (PCV), ligado ao CV, segundo o delegado André Moreno de Andrade, da Polícia Civil do Espírito Santo. Agora, o TCP e o PCV são as principais facções do estado e vivem em guerra:
— Camu aprendeu a dinâmica criminosa do TCP, principalmente extorsões de distribuição de gás, água e internet — diz Andrade, coordenador do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat) da Polícia Civil. — Não é mais o tráfico que banca as facções, mas a dominação territorial.
Camu foi preso em 2023 e está em uma penitenciária de segurança máxima em Viana (ES), assim como o irmão Gabriel Gomes de Faria, o Buti, do TCP. Conhecidos como Irmãos Vera, os dois se envolveram em uma briga com integrantes do Primeiro Comando de Vitória no presídio e precisaram ser hospitalizados em fevereiro.
Em Minas, a chegada do Terceiro Comando Puro começou após a pandemia. Em novembro de 2024, uma operação do Ministério Público do estado apreendeu mais de R$ 345 milhões e prendeu 14 integrantes da facção, que havia se instalado em municípios do interior e controlava a distribuição de gás, água e internet na favela Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte. A Estrela de Davi, um dos principais símbolos do TCP, era vista nos muros da comunidade desde 2023.
O principal líder da facção em Minas, Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Paraíba, conseguiu escapar com a ajuda de informações passadas pelo sargento da PM Charles Henrique Squarcio, que estava na unidade do MP responsável pela operação. Preso preventivamente em janeiro, Squarcio teria recebido ao menos R$ 30 mil do TCP para ser informante, segundo processos na Justiça de MG.
Paraíba é apontado como um dos chefes do Morro da Mineira, no Centro do Rio. Ele teria chegado à cidade por volta de 2017, depois de fugir da cadeia, e se aproximou de Anderson Rosa de Mendonça, o Coelho, atualmente preso em Gericinó e apontado como principal nome do tráfico no Complexo de São Carlos, onde fica o Morro da Mineira.
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As disputas com o Comando Vermelho são reproduzidas no interior de Minas pelo TCP. Um atentado em Além Paraíba, na divisa com o Rio, deixou dois homens feridos em agosto de 2024. Pouco depois, no feriado de Sete de Setembro, Higor Gomes Dias foi executado com 11 tiros quando lavava o carro em frente de sua casa em Ubá, na Zona da Mata mineira.
No Nordeste, o TCP aproximou-se da facção Guardiões do Ceará (GDE) em 2022. Mas a aliança dividiu o grupo cearense e levou a uma onda de assassinatos em Fortaleza, iniciada por uma ordem de execução de Josenildo Marques Palhano, o Sal, contrário à aproximação com a organização carioca, segundo a polícia.
Palhano foi morto a tiros em um mercado em fevereiro daquele ano. No fim de 2022, o seu cunhado e sucessor José Renan Oliveira Marinho, o Formiga, foi preso no Paraguai. Segundo a Polícia Civil do Ceará, ele estaria envolvido em 46 homicídios em Fortaleza, cometidos após a execução de Sal. Enquanto isso, Ismário Wanderson Fernandes da Silva, uma das lideranças do GDE que se aliou ao TCP, foi preso no Complexo da Maré em 2024.
Como em Minas, o TCP avançou para o interior do Ceará. Em janeiro, na operação que prendeu o foragido Leonardo de Souza Pádua, o Peixinho, em Campo Limpo Paulista (SP), foram achados 1,3 tonelada de maconha e 1 quilo de cocaína que iriam para municípios cearenses do Vale do Jaguaribe.
O TCP também teria feito uma aliança com a facção Bonde do Maluco, rival do CV na Bahia. Líderes do BDM foram presos em territórios do Terceiro Comando Puro no Rio, como Jeimes Cassiano Lisboa, o Lacoste, capturado em outubro no Complexo de Israel.
— Se você não tem mais como se aliar ao PCC contra o CV, a opção é o TCP — avalia Roberto Uchôa, do Fórum de Segurança Pública, que aponta ainda que a facção vive um momento difícil, um desafio a sua expansão — Há uma pressão grande no Rio, tanto do CV quanto do Governo do estado.
O avanço do TCP segue um fortalecimento da facção no Rio de Janeiro, aponta o professor Daniel Hirata, pesquisador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF). Segundo ele, levantamentos recentes indicam que a facção é a que detém maior saldo de conquistas territoriais na cidade, apesar da maior área dominada ser do CV. Outro elemento importante é o histórico de alianças com as milícias:
— É uma facção que tem desde sempre essa plasticidade. No CV isso acontece de forma absolutamente circunscrita, como na Gardênia Azul (bairro da Zona Oeste do Rio). Com o TCP isso é mais frequente. Em outros estados, é uma vantagem para negociar com facções locais — diz Hirata, que completa — Cada estado tem uma configuração muito diferente. Bahia e Minas Gerais, por exemplo, não são estados com facções grandes. Mas no Ceará já há facções mais estruturadas.
A aproximação com as milícias rendeu à facção um aprendizado quanto à atuação na distribuição de água, gás e internet, algo já reproduzido em outros estados. Foi a prática de extorsões associadas a esses negócios que levou à deflagração da operação Conexão Perdida contra os Irmãos Vera em fevereiro. As investigações das autoridades capixabas revelaram que o TCP cobrava de provedores de internet uma mensalidade de R$ 10 mil para atuar nas comunidades sob o seu domínio. Um empresário se juntou à facção e passou a danificar o cabeamento de rivais para obrigar moradores a se tornarem seus clientes.
— A partir deste momento, as investigações deixam claro que a facção se torna uma espécie de sócia desse empresário. Uma central de internet chegou a ser desativada no Morro da Garrafa, em Vitória — disse o delegado Andrade, na época da operação.
Na favela Cabana do Pai Tomás, em BH, tática semelhante se repetiu. Segundo processos na Justiça de Minas, a empresa Top Net Telecom, na qual entre os sócios constava o pai de Paraíba, José Carlos Ferreira, estava associada à facção e impunha seus serviços aos moradores da comunidade. A atuação de concorrentes na região só se dava com autorização de nomes ligados à Paraíba, que mensalmente recebia R$ 50 mil das empresas do setor. No final de janeiro, a Justiça de MG concedeu um Habeas Corpus ao pai do criminoso, que teve a prisão preventiva revogada.
Procurada, a defesa de José Carlos Ferreira negou ligações entre o suspeito e a facção. Conforme defesa apresentada nos autos, na região do Cabana operam diversas outras empresas de Internet e fibra ótica, inclusive com alcance nacional e, o percentual de clientes da empresa pertencente ao José Carlos é ínfimo (…) O José Carlos jamais se associou ao TCP, sempre exerceu atividade lícita e a empresa dele apenas comercializa serviços e produtos como qualquer outra”, disse em nota o advogado Leon Gonçalves.

