O candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, discutiu com o jogador Richarlison a disputa judicial entre o atacante do Tottenham e o advogado Willer Tomaz pela posse da Ilha Comprida, em Angra dos Reis. Os prints das mensagens trocadas pelo Instagram entre o final de março e o início de julho de 2026, fornecidos por Richarlison à equipe da coluna, mostram que o senador teve acesso a documentos de caráter privado que não constam no processo que tramitou no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
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Na troca de mensagens a que a equipe da coluna teve acesso, Flavio enviou a Richarlison imagens de visualização única fotografadas por um outro celular com trechos de um acordo extrajudicial privado que Willer fez com o ex-empresário do jogador, Renato Velasco, sem seu consentimento, para desistir do processo e dar ao advogado a posse da ilha. O atacante rompeu com o ex-empresário em 2024, ao acusá-lo de obter vantagens financeiras indevidas em seu nome.
Nas imagens enviadas por Flávio a Richarlison, constam três contas bancárias de Renato Velasco para as quais a empresa de Willer, a WT Administração de Imóveis e Bens, fez pagamentos em função do acordo: uma no Itaú, outra na Caixa Econômica e uma terceira no Bradesco.
Na conversa, de 1° de julho deste ano, depois de ser cobrado pelo jogador a respeito da briga pela ilha, o candidato do PL à Presidência da República pede que o jogador faça uma nota pública.
“Estão usando o assunto contra mim, que não tenho nada a ver com isso. Tem que cobrar do seu empresário. Gostaria de te pedir que soltasse uma nota dizendo que eu não tenho nada a ver com o assunto”, escreveu o senador, prontamente respondido por Richarlison: “Foi ele mesmo (Velasco) que disse que você (Flávio) pegou a ilha lá”.
Flávio responde: “Craque, mentira pura!”
Acordo relâmpago
As imagens mostram que o acordo extrajudicial foi assinado por Renato Velasco em 20 de agosto de 2025.
Nos prints, porém, não constam os valores pagos. Questionados a respeito pela equipe da coluna, nem Flávio, nem Willer e nem Velasco esclarecem quanto foi pago e nem quando. O espaço está aberto para manifestação.
Cinco dias depois de assinar o acordo com Willer, em 25 de agosto, Velasco desistiu da causa oficialmente. Em 1° de setembro, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que relatava o processo, Ricardo Villas Bôas Cueva, encerrou o caso. Assim, Willer passou a ser dono definitivo da ilha. Segundo a defesa de Richarlison, só depois o jogador ficou sabendo do desfecho do processo.
Disputa judicial
O caso voltou à tona nas últimas semanas, depois que Richarlison publicou vídeos em suas redes sociais, cobrando de Flávio Bolsonaro o dinheiro que investiu na propriedade avaliada em cerca de R$ 10 milhões.
Em razão da polêmica, o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, mandou abrir um inquérito na Polícia Federal (PF) para investigar as circunstâncias em que ocorreram as negociações sobre a ilha. A denúncia será incorporada ao inquérito que já investiga a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
Atualmente, a PF investiga se Flávio e Willer atuaram juntos em um suposto esquema de lavagem de dinheiro, em inquérito que está em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Como revelado pela equipe da coluna, o senador estava cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária em nome da Alcazar Holdings, empresa administrada por Willer com sede na Ilha da Madeira, em Portugal.
O atacante do Tottenham comprou a ilha em 2020 por meio da empresa que mantinha com Velasco, a Sport 70, em parceria com Alencar da Silveira Júnior, ex-presidente do América-MG, clube pelo qual ele foi revelado.
Na época, segundo um dos ex-proprietários, o empresário Antônio Marcos Pereira Silva, declarou ao portal Metrópoles, Flávio Bolsonaro o procurou interessado em comprá-la, mas ele já estava negociando com Richarlison.
Em janeiro de 2021, Flávio voltou à ilha e, de acordo com Antônio Marcos, teria tentado fazer uma visita junto a Willer, mas Richarlison já era o dono e ele não foi autorizado a entrar. Mesmo assim, o senador fez vídeos do local com um drone, que constam até hoje em seu Instagram.
Em julho de 2022, Richarlison e Velasco, que na época ainda não estavam rompidos, foram surpreendidos com uma ação policial de reintegração de posse determinada pela Justiça atendendo a um pedido de Willer, que alegou ter comprado a ilha de sua verdadeira dona. Na época, quem morava no imóvel era a esposa de Velasco, que estava grávida.
Iniciou-se, então, uma longa batalha judicial no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que depois foi para o Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O atacante e o ex-sócio acusaram o advogado de ter fraudado documentos de uma empresa inativa que tinha sido dona da ilha e forjado uma venda à revelia dos últimos donos do local — os que venderam a propriedade a Richarlison.
De acordo com a versão de Richarlison, embora ele estivesse tentando a regularização da posse do imóvel na Secretaria de Patrimônio da União (SPU) desde 2021 sem sucesso, Willer Tomaz obteve a posse em dois meses – entrou com processo em maio de 2022 e conseguiu a autorização em julho do mesmo ano.
Na época, durante o governo Bolsonaro, a SPU era então subordinada ao ministério da economia de Paulo Guedes e seu chefe era o Coronel Paulo da Silva Medeiros.
Em mensagens a Richarlison, Flávio Bolsonaro enviou trechos de acordo privado sobre ilha em Angra fechado por Willer Tomaz
