Jude Law e Jason Bateman admitem que não são fãs de gastronomia. E, no entanto, ano passado, eles se encontraram em uma série de menus degustação, escolhendo entre os pratos principais — pernil de cordeiro en papillote, um sanduíche de caranguejo — “como se fôssemos nos casar”, disse Bateman.
- ‘Hamnet: a vida antes de Hamlet’: filme com Paul Mescal cotado para o Oscar, encerrará o Festival do Rio
- Homenagem: Neto de Robert Redford pede a fãs para enviarem histórias do avô pelo Instagram e recebe uma avalanche de carinho
— Estávamos apenas escolhendo acompanhamentos e copos.
Tudo era preparação para sua nova minissérie de oito episódios, “Black Rabbit”, que estreou quinta-feira na Netflix. Law e Bateman interpretam irmãos movidos por atritos, e a série, ambientada em um restaurante fictício e movimentado em Manhattan, os une e os coloca em um thriller dramático de alto risco. Apesar das perseguições e a violência desleixada, o cerne emocional está, na verdade, nos laços familiares expostos pela ambição e pela ganância.
— Provavelmente remonta às primeiras formas de contar histórias — disse Law. — Irmãos em guerra, irmãos apaixonados, opostos.
Bateman, que dirigiu os dois primeiros episódios, acrescentou:
— Estruturalmente, serem irmãos te dá uma margem que permite um comportamento inadequado massivo, sem destruir a conexão.
- ‘O agente secreto’: Critics Choice Awards anuncia prêmio em homenagem a Kleber Mendonça Filho
Casamentos podem se dissolver em divórcio. Com irmãos, “eles podem literalmente se agredir”, disse ele, e ainda assim, “nós sempre seremos irmãos. Você está (palavrão) preso a mim.”
A união deles pode parecer um pouco confusa — o elegante Law, 52, é um exemplo de um certo tipo de drama britânico com maçãs do rosto salientes; Bateman, 56, filho de Hollywood, é um ícone da comédia que se tornou um peso-pesado da multimídia.
Embora a série seja contemporânea, seus criadores, os roteiristas Zach Baylin e Kate Susman, marido e mulher, inspiraram-se no cenário atmosférico do centro de Manhattan na era hipster. Eles apresentaram o projeto a Bateman e Law, e os atores buscaram um ao outro. Law era fã da sombria e irônica trama que Bateman ajudou a orquestrar em “Ozark” (2017-22), série policial da Netflix que estrelou e dirigiu com frequência. E Bateman era apenas um fã.
— Não houve ninguém que me tenha deixado mais entusiasmado sendo uma nova pessoa na minha vida — disse ele, quando Law apareceu, ano passado, como convidado do “SmartLess”, o podcast de sucesso que Bateman apresenta com Will Arnett e Sean Hayes.
Eles tagarelaram sobre a carreira de Law em obras como “O Talentoso Ripley”, “Sherlock Holmes” e “The Young Pope”, da HBO, entre tantas. Os dois vêm de diferentes tradições de atuação, mas ambos começaram jovens: Bateman quando criança, em sitcoms dos anos 80, Law quando adolescente, no palco. Ambos alcançaram o sucesso rapidamente. Ambos têm olhos azuis impressionantes e tatuagens. E combinam bem na tela.
— Atuar é um trabalho estranho — disse Law. — É ótimo ter um parceiro; é como praticar um esporte.
- ‘Apocalipse nos trópicos’: filme de Petra Costa, ganha força na briga por indicação ao Oscar de melhor documentário
Na série, Law é o irmão mais novo, Jake Friedken, um sujeito aparentemente esperto que administra o Black Rabbit, um pub clubhouse à beira do grande sucesso. Ele espera transformá-lo em um estabelecimento mais sofisticado com um fluxo de caixa menos gorduroso. Bateman interpreta Vince, o velho malfeitor em dívida com um mafioso (o vencedor do Oscar Troy Kotsur, de “Coda”). A mistura de carisma e caos deles muda ao longo da série.
As críticas à série, desde sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto, foram mistas, mas elogiam a química entre os protagonistas. O relacionamento na tela se destaca “porque eles são tão diferentes”, disse Laura Linney, que interpretou a esposa de Bateman em “Ozark” e dirigiu os episódios 3 e 4 de “Black Rabbit”. Ela também estrelou com Law o filme “Genius”, de 2016.
— Jude é uma pessoa incrivelmente revigorante para se conviver — disse ela.
— Ele é um galvanizador — disse Linney. — Seu entusiasmo é contagiante.
Como diretor do primeiro bloco de episódios, Bateman cuidou de todos os detalhes; ele planejava os movimentos de câmera enquanto os roteiros eram escritos.
— Jason é a mente mais rápida que já vi no set — disse Baylin, roteirista indicado ao Oscar por “Rei Ricardo”.
Por sua vez, Law não se esquivou da intensidade. Em uma cena emocionante, lembrou Baylin, o diretor do episódio, Justin Kurzel, disse a Law para jogar os sapatos no trânsito e sair descalço. Law aceitou. Em outro momento, Vince e Jake estão brigando na Brooklyn-Queens Expressway.
— Carros passavam a cem quilômetros por hora, e eles ficaram lá de cueca por seis horas, contando piadas uns aos outros — disse Susman.
Visualmente, a série tem uma iluminação sombria, um noir filmado principalmente com câmeras portáteis, ressaltando o quão instável as coisas estão neste mundo. Os Friedkens são jovens que primeiro experimentaram a fama como roqueiros indie, o que significa que a trilha sonora é rica em artistas de Nova York como Interpol e Beastie Boys.
Visitando um bar — já fora de operação — que serviu como locação externa do Black Rabbit para uma sessão de fotos, Bateman e Law colaram adesivos com o logotipo da série pelo bairro, perto da South Street.
— Me sinto um fora da lei — disse Bateman enquanto tentava alcançar o alto de uma placa de trânsito.
A propósito, ambos são pais: Law tem sete filhos, com idades entre adultos e duas crianças em idade pré-escolar, com sua esposa de seis anos, Phillipa Coan, psicóloga. Bateman tem duas filhas adolescentes com sua esposa, Amanda Anka, atriz e produtora. Sua filha mais velha tinha acabado de começar a estudar cinema na faculdade, disse ele com orgulho.