Um repórter com mais de um século de vida (a idade exata é segredo) e que cobriu o naufrágio do Titanic e o suicídio de Getúlio Vargas não precisa de apresentações. Mas, talvez por falsa modéstia, ele estende o seu cartão. “Agamenon Mendes Pedreira: jornalista isento, imparcial e mau caráter”.
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Figura lendária neste centenário do GLOBO, no qual manteve uma coluna por 25 anos, Agamenon enfureceu gerações. Seu destemido faro jornalístico lhe trouxe conflitos com personalidades públicas de diferentes espectros. Dizem que, certa vez, um ex-vice-governardor do Estado do Rio ligou para a redação à sua procura. A trajetória do colunista também foi tema de um longa-metragem: o mockumentary (ou doc ficcional) “As aventuras de Agamenon — O repórter” (2012), de Victor Lopes e com Marcelo Adnet e Pedro Bial no elenco.
Avesso a entrevistas, Agamenon anda recluso, mas nem pensa em se aposentar. Ainda sonha, por sinal, com uma vaga na Academia Brasileira de Letras. A reportagem chegou a ele por intermédio de seus dois amigos mais íntimos, os humoristas Marcelo Madureira e Hubert, do Casseta & Planeta.
Para aqueles que se perguntavam sobre o paradeiro do célebre repórter, ele traz novidades. Agamenon se mudou do Dodge 73 em que morava aqui perto do jornal e agora vive na Rua da Amargura. Para pagar as contas, sua fiel esposa, Isaura, pretende exibir toda a sua beleza em uma plataforma de conteúdo adulto. E Agamenon continua destemido, como mostra nesta entrevista.
Quem chegou aos 100 anos mais enxuto: o jornal O GLOBO ou Agamenon Mendes Pedreira?
Apesar de sua idade provecta, até que O GLOBO está bem enxuto: tem muito menos páginas e funcionários, a começar por mim.
Qual foi o maior furo da sua carreira?
Eu poderia dizer que foi o assassinato do Titanic, o suicídio de Kennedy ou o naufrágio de Getúlio Vargas, mas eu não me lembro de nada do que aconteceu. Sabe como é, o brasileiro é um povo sem… sem… sem o quê mesmo?
Dizem que o senhor é um repórter de caráter duvidoso. Tem algum arrependimento na vida ou já esqueceu todos com a idade?
Existem duas coisas que não tenho em absoluto: arrependimento e dinheiro.
O que é mais difícil de encontrar hoje em dia: a paz interior ou uma vaga na porta do GLOBO?
Só tenho um sonho nessa altura da vida: entrar para a Academia Brasileira de Letras. Por muitos anos forneci cogumelos para o famoso chá dos velhinhos. Infelizmente, depois de ingerir aquela beberagem alucinógena, muitos imortais se tornaram vagas.
Que manchete o senhor gostaria de ver estampada na capa dos próximos 100 anos?
Agamenon volta em triunfo às páginas do GLOBO e recebe todos os salários atrasados!
O senhor ainda acredita nas novas gerações ou já tinha perdido a esperança no BBB?
Só assisto a “A fazenda”. Sempre fui defensor da Reforma Agrária.
Sendo uma pessoa de outra geração (ou, podemos dizer, gerações), teme algum dia ser cancelado?
Sou diariamente cancelado, fato que muito me envaidece. No banco, na feira e até mesmo nos cabarés sou proibido de entrar. Poderia ser pior… eu poderia ser imigrante ilegal naquele país estadunidense que fica na América do Norte.
Que evento foi mais traumático de cobrir: a derrota para o Uruguai em 1950, o 7 x 1 ou a nova tatuagem de Neymar?
A única tatuagem que me interessou foi aquela que a Anitta fez em partes remotas de sua anatomia, um procedimento de alta periculosidade supervisionado in loco pelo Dr. Jacintho Leite Aquino Rêgo, meu personal psicoproctologista.
O senhor entrevistou Freud. Falaram mais sobre ele ou sobre a senhora sua mãe?
Minha mãe sempre foi muito falada na vizinhança. Se Freud tivesse conhecido mamãe, não teria nenhum problema sexual. Mas ele só queria saber como é que se faz pra não dar recibo.
Já sofreu censura? (Pode contar, não vamos censurar).
Jamais admiti que me censurassem, talvez por isso o editor naqueles tempos costumava me espancar violentamente na frente de toda a Redação. Em seguida, mandava eu escrever tudo de novo. Mas censura, jamais.
A sua coluna já foi processada por difamação, calúnia e vergonha alheia. Se fosse obrigado a se exilar em algum lugar, qual seria?
Sem dúvida nenhuma, o lugar ideal para me exilar seria o Brasil, país onde todos os criminosos curtem a vida numa boa sem ser incomodados pela Justiça.
O senhor é aquele tipo de repórter que toma café com FH, almoça com Bolsonaro e janta com Lula. Mas quem paga a conta?
Nunca paguei uma conta e jamais pagarei, afinal sou jornalista. Muito pelo contrário: peço favores ou faço chantagem, o que der mais dinheiro. Para ser um bom jornalista como eu são necessárias duas características: não saber ler (só escrever) e não ter nenhum escrúpulo.
O senhor se considera um repórter à frente do seu tempo ou apenas um repórter que se perdeu no tempo?
Acredito que sou um jornalista que perdeu muito tempo dando entrevista a repórteres medíocres.
Ao contrário de sua vida sexual, o mundo anda muito movimentado. A ficção já não consegue competir com a realidade?
Vocês fazem umas perguntas muito difíceis… por que não falar de coisas mais simples como astrofísica, mecânica quântica e os limites do humor? Eu prefiro viver numa realidade abstrata a sonhar numa ficção concreta.
O senhor já usou inteligência artificial ou prefere seguir com sua burrice natural?
Eu prefiro usar “Tadala”. No ano que vem vou colocar uma prótese de bombinha.
O Brasil é uma invenção do capitalismo para vender ansiolítico?
O Brasil é um experimento genético fracassado, deveria ser exibido numa feira de ciências dentro de pote cheio de álcool. Mesmo assim, demos ao mundo o churrasco rodízio, a depilação brazilian wax, o açaí e as emendas parlamentares.
Se pudesse escolher, qual seria o título da sua biografia? E quem deveria escrevê-la?
Já escrevi várias autobiografias a meu respeito, a melhor foi a do meu amigo, o imortal Ruy Mastro, que, inclusive, fez uma ponta no meu filme. Graças a sua performance, Ruy pegou muitas mulheres e por isso me é grato até hoje.
O senhor vive num Dodge Dart 73 estacionado. É um estilo de vida ou falta de crédito?
É bom não esquecer que a minha residência, o Dodge Dart 73,enferrujado, ficou 25 anos estacionado na porta do GLOBO. Depois que fui “descontinuado”, mudei-me de mala e cuia para a Rua da Amargura, s/n, fundos.
Sua esposa Isaura é famosa por sua fidelidade incondicional — ao senhor, e a vários outros homens. O senhor diria que foi pioneiro do poliamor?
A Isaura, a minha patroa, é uma mulher empoderada e virtuosa. Não tivemos filhos porque eu sou impotente e a Isaura, a minha patroa, fez vasectomia. Internauta pioneira, Isaura tem mais seguidores que a Deolane Bezerra. No mês que vem vai estrear no Only Fans.
Já pensou em se aposentar ou ainda está esperando o FGTS de 1954 cair?
Sempre fui freelancer, nunca paguei o “instituto” e vivo de favores, do extrativismo e da coleta de ervas selvagens. Para resolver meus problemas financeiros, teria que ser nomeado ministro do STF.
O senhor tem medo da morte?
Como diria Al Capone, a Morte é que tem medo de mim. Não guardo rancores, os últimos que tive fui obrigado a vender num brechó.