Com sua audácia característica, o cantor uruguaio Jorge Drexler propõe construir “pontes” entre as pessoas através da música, especialmente em um mundo “mais insensível” e em ruínas, como afirma em seu mais recente álbum.
Drexler está atualmente em turnê internacional para apresentar “Taracá”, álbum pelo qual recebeu oito indicações ao Grammy Latino, incluindo Melhor Álbum, Melhor Gravação e Melhor Canção por “¿Cómo se ama?” (Como se Ama?).
O compositor fala sobre as faixas de seu novo álbum e aborda os males de nossa época em entrevista à AFP, poucos dias antes de seu show na sexta-feira em Paris, no prestigiado Grand Rex.
— O mundo se tornou um lugar mais polarizado, mais extremo, mais duro, mais insensível e mais inconsciente desde que Donald Trump se tornou presidente dos Estados Unidos — reflete o músico de 62 anos durante uma videochamada.
A canção “Nuestro trabajo/Los puentes” (Nosso Trabalho/As Pontes) foi escrita exatamente um dia antes de Trump assumir o poder, em janeiro de 2017.
— Tive um ataque de pânico, um medo que se mostrou justificado — diz ele.
De volta ao Uruguai
Diante deste mundo que está “indo para o inferno”, como diz a canção, Drexler propõe que “todos nós aprendamos a nos colocar no lugar do outro, mesmo que achemos que ele está errado”.
— É o ato básico para apaziguar conflitos — insiste ele.
E isso pode ser feito através da música.
— A música em si é uma ponte entre as pessoas, ela te coloca em sintonia com o outro — observa o cantor e compositor, usando seus óculos de armação vermelha e uma camiseta preta com estampas amarelas.
“Taracá”, seu décimo quinto álbum de estúdio, representa seu retorno ao Uruguai, seu país natal, onde não gravava há duas décadas.
— A música uruguaia está vivendo um momento muito especial e frutífero, especialmente em torno do ritmo afro-uruguaio, o candombe — explica ele. — É o ritmo que, de certa forma, dá a espinha dorsal do álbum.
Faixas como “Toco madera” (Eu Bato na Madeira), “El tambor chico” (O Tamborzinho) e “¿Qué será que es?” (O Que Será Que É?) estão diretamente relacionadas a esse ritmo tradicional uruguaio.
Capa do álbum “Taracá”, do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler
Reprodução
‘Un buen concepto’
O álbum está indicado a oito Grammy Latinos, que, se concedido em 12 de novembro, poderá somar-se aos quinze gramofones que ele já possui e ao Oscar que ganhou em 2005 por “Al otro lado del río” (Do Outro Lado do Rio), da trilha sonora de “Diários de Motocicleta”.
— Tenho o mesmo número de indicações que a Rosalía, que fez um álbum histórico. Isso me deixa muito feliz — comenta Drexler, surpreso com o feito. — Parece que meus colegas têm uma boa opinião de mim, porque senão não sei explicar — brinca o autor de “Todo se transforma” (Tudo se transforma).
Embora tenha sido indicado cerca de cinquenta vezes ao longo de sua carreira, Drexler ainda se surpreende por estar concorrendo com a cantora espanhola Rosalía e a artista colombiana Karol G na premiação deste ano.
— Meu projeto não segue os caminhos mais comuns; ele trilha os caminhos alternativos — diz o médico de formação. — Sempre fui um péssimo vendedor de discos — acrescenta.
‘Riachuelito’
Em relação ao sucesso que a música em espanhol está vivenciando, com fenômenos globais como Bad Bunny e Rosalía, o cantor e compositor uruguaio está mais do que satisfeito.
— É um ótimo momento para a música, para a cultura hispânica em geral, para a língua espanhola — afirma. — Os lugares que a música em espanhol está alcançando hoje são lugares que Cervantes jamais alcançou em sua época — declara.
Quando questionado sobre como ele vê essa onda cultural da qual também faz parte, ele comenta modestamente que sua participação é “apenas um fio d’água”.
Será que um dia ele poderia colaborar com o artista porto-riquenho Bad Bunny, de quem é um grande fã? O que ele proporia?
— Não acho que ele esteja interessado, mas se estiver […] a primeira coisa que eu diria para o Bad Bunny seria: ‘Se você gosta do que eu faço, vamos trabalhar juntos. Se não, continuarei ouvindo sua música com admiração.'”
Em seu terceiro álbum, Jorge Drexler propõe a música como 'ponte' em um mundo 'mais insensível'
