Franz Welser-Möst estava no Café Imperial, em Viena, quando recebeu uma partitura musical por baixo da mesa. Ele estava acompanhado do magnata da mídia Herbert G. Kloiber, que empurrou uma pasta preta em sua direção com o pé. Kloiber não disse o que havia dentro, apenas pediu a Welser-Möst, na época diretor musical da Orquesta de Cleveland e uma eminência da regência na Áustria, que guardasse a pasta por alguns dias.
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O maestro imaginava o que havia na pasta, mas esperou chegar ao seu apartamento para abri-la. Ao destravá-la, deparou-se com o manuscrito original da Sinfonia “Ressurreição”, de Gustav Mahler (1860-1911) — uma obra fundamental do repertório orquestral. Foi, como ele descreveu em uma entrevista recente, “um momento verdadeiramente sagrado”.
Por quê? As partituras estão mais acessíveis do que nunca: em inúmeras edições publicadas, online em acervos de domínio público, em bibliotecas e em outros lugares. No entanto, um manuscrito — música escrita pela própria mão do compositor — possui o poder quase mágico de tornar próximos e vivos até mesmo gigantes distantes no tempo. É possível conhecer a personalidade de figuras como Ludwig van Beethoven ou Johannes Brahms por meio de sua caligrafia. Pode-se acompanhar suas dúvidas e mudanças de ideia. Pode-se debater, consigo mesmo e com os outros, o significado de algo tão pequeno quanto um simples ponto.
O manuscrito de Mahler permaneceu por muito tempo em um museu nos Países Baixos. Alma Mahler, viúva do compositor, havia entregue a partitura ao maestro holandês Willem Mengelberg. Mais tarde, foi adquirido por Gilbert Kaplan, empresário e grande admirador de Mahler. Após sua morte, a Sotheby’s o vendeu em 2016 pelo valor recorde de US$ 5,6 milhões.
O comprador foi Kloiber, que manteve o anonimato enquanto, em particular, contava a Welser-Möst sobre sua preciosa aquisição. Como um gesto de amizade, ele emprestou a partitura ao maestro no Café Imperial. Mais tarde, em 2019, Kloiber compareceu a um jantar para celebrar a apresentação da Orquestra Jovem da Orquestra de Cleveland na Áustria e fez um anúncio surpresa: queria doar a obra à Orquestra de Cleveland.
Welser-Möst ficou às lágrimas ao receber a notícia naquela noite. Kloiber entregou a partitura em uma sacola plástica, e Welser-Möst a trouxe de volta aos Estados Unidos em uma mochila. (Ele tinha um plano de segurança: dizer que se tratava de “um livro antigo, nada de interessante”.) Para proteger o manuscrito ao máximo, a orquestra providenciou sua guarda no Museu de Arte de Cleveland. Recentemente, a obra foi levada para o Severance Music Center, sede do grupo, do outro lado da rua, onde Welser-Möst a estendeu sobre uma mesa grande e folheou suas páginas durante uma entrevista.
— Você se sente muito mais próximo do compositor quando vê aquele pedaço de papel em que ele escreveu algo, com a caligrafia dele — disse Welser-Möst. —É uma sensação especial.
O manuscrito, com sua instrumentação detalhada e correções ocasionais em azul, pode inspirar novas perspectivas de interpretação ou ajudar os músicos a compreender melhor as intenções de Mahler em momentos específicos. Welser-Möst mostrou três páginas que considera particularmente fascinantes.
Uma arcada desconfortável
O segundo movimento da sinfonia “Ressurreição” começa com as cordas tocando um tipo de dança rústica. A música balança levemente porque compassos inteiros são executados em ligaduras, com as notas conectadas por uma única arcada.
Detalhe do manuscrito autógrafo da Sinfonia nº 2 de Mahler, também conhecida como Sinfonia “Ressurreição”, no Severance Music Center, em Cleveland
Dustin Franz/The New York Times
Welser-Möst, que estudou violino durante sua formação, recordou que, ao interpretar esse movimento, um spalla lhe disse que a frase inicial seria muito mais confortável se fosse executada com duas notas ligadas em uma arcada, seguidas por outra arcada com três notas em portato: ligadas, porém suavemente separadas.
Detalhe do manuscrito autógrafo da Sinfonia nº 2 de Mahler, também conhecida como Sinfonia “Ressurreição”
Dustin Franz/The New York Times)
Na partitura, no entanto, Mahler coloca a ligadura das duas primeiras notas dentro de uma ligadura mais ampla que abrange todas as cinco notas. Isso não parece natural para os instrumentistas de cordas. Para Welser-Möst, é preciso imaginar que, como um compositor cuja concepção dos instrumentos foi moldada por sua atuação como um dos maiores regentes de sua época, Mahler sabia exatamente o que estava fazendo.
— É um pouco desconfortável, mas, ao mesmo tempo, confere um balanço diferente se você executa tudo em uma única arcada — afirmou Welser-Möst. A melodia, acrescenta, “torna-se menos presa ao chão e mais flutuante, com um certo ar de leveza”.
Nesta página da partitura, Mahler faz correções em alguns pontos: baixa uma nota Mi bemol em uma oitava na seção dos violoncelos e altera uma indicação de dinâmica para tornar o som mais suave. Por isso, disse Welser-Möst, é possível sentir ainda mais confiança nas arcadas indicadas para os violinos: “A caligrafia me mostra que ele tinha um plano muito claro”.
Uma Misteriosa Linha Azul
Mahler é menos claro no terceiro movimento. Em sua última página, antes do compasso final, ele traça uma linha azul que atravessa todas as partes da orquestra e escreve a palavra “Coda” no topo, com um traço duplo embaixo. Será que deveria haver mais música antes do desfecho? Welser-Möst não faz ideia. “Isso é um enigma para mim”, disse ele. O movimento encerra-se com o som sombrio de um gongo (tam-tam).
— Esse instrumento é usado por muitos compositores como símbolo da morte — afirmou. — Uma espécie de som final. Assim, da maneira como termina, a música meio que se desintegra no nada. Mas será que ele pensou em escrever algo mais depois disso?
É possível que Mahler tenha cogitado escrever uma coda, mas desistiu da ideia e esqueceu de riscar a anotação. Talvez a coda fosse apenas uma repetição do final, mas ele não inseriu sinais de repetição para indicar quais compassos deveriam ser incluídos. Welser-Möst comentou, dando de ombros: “Não podemos mais perguntar isso a ele”. Certos enigmas, acrescentou, foram feitos para permanecerem enigmas.
Pedindo o impossível: ‘ppp’
O quarto movimento é uma canção: “Urlicht”, ou “Luz primordial”. Uma solista contralto, que aguardava no palco durante os primeiros 45 minutos da sinfonia, entra sozinha cantando a palavra “O”. A intenção é que ela seja cantada de forma muito suave. Mahler indica a dinâmica como “pianississimo” (ou “ppp”), um grau extremo e impossível de suavidade. “Isso era viável na prática?”, questiona Welser-Möst. “É uma ideia, digamos assim.”
A edição publicada pela Universal traz a linha vocal marcada com um “piano” mais realista. No entanto, Welser-Möst acredita que esse momento — que emerge da ressonância residual do “tam-tam” do terceiro movimento — foi influenciado pela experiência de Mahler como diretor da Ópera Estatal de Viena.
Detalhe do manuscrito autógrafo da Sinfonia nº 2 de Mahler, também conhecida como Sinfonia “Ressurreição”
Dustin Franz/The New York Times
— Em sua primeira temporada, ele regeu 41 óperas diferentes — afirmou. — Portanto, além de seu conhecimento do repertório, ele realmente sabia do que os cantores eram capazes.
Welser-Möst apontou para a indicação “choralmässig” (ou seja, “como um coral”) na partitura:
— Na minha visão, isso não deve ser apenas muito suave; deve soar, na verdade, como uma ideia, algo que não busca o realismo.
Segundo ele, Mahler fornece pistas suficientes sobre como conceber o início de “Urlicht” no contexto de tudo o que o precede e o sucede. Tratava-se de um compositor que fazia alterações práticas em suas partituras, dependendo da acústica da sala ou do andamento da execução. Mas, em meio a tudo isso, observou Welser-Möst, “ele era claramente um perfeccionista”.

