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Emendas parlamentares crescerão em ritmo três vezes maior que o Orçamento livre do governo até 2030

A proposta orçamentária de 2027 prevê que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Poder Executivo. O cenário de rápida alta dos gastos definidos por deputados e senadores tem sido criticado por especialistas devido à redução da margem para o governo fazer políticas […]

Quase 80% dos deputados eleitos no Rio e em São Paulo em 2022 tentarão reeleição este ano


A proposta orçamentária de 2027 prevê que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Poder Executivo. O cenário de rápida alta dos gastos definidos por deputados e senadores tem sido criticado por especialistas devido à redução da margem para o governo fazer políticas públicas. Problemas de transparência e de destinação, às vezes mais alinhada a interesses paroquiais do que a objetivos de desenvolvimento nacional, também são citados.
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Os dados do governo mostram que as despesas discricionárias do Poder Executivo subirão de R$ 222,1 bilhões em 2027 para R$ 233,9 bilhões até 2030 (+5,3%), e as emendas, de R$ 44,8 bilhões a R$ 51,9 bilhões (+15,8%).
Despesas discricionárias são aquelas cujo destino o governo pode escolher, como obras e manutenção da máquina pública.
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Por isso, mesmo que o Orçamento rode na casa de R$ 2,2 trilhões anualmente, é sobre a fatia de discricionárias que se concentra a disputa pelos recursos. E elas vêm caindo em proporção ao total do Orçamento tanto pela rápida expansão dos gastos obrigatórios — como a Previdência e os pisos de saúde e de educação — quanto pelas emendas.
Redutos eleitorais
O valor das verbas parlamentares (geralmente destinadas aos redutos eleitorais dos congressistas, em obras e serviços) pode vir a ser ainda maior em 2027 e nos anos seguintes, já que o governo só prevê na proposta orçamentária as emendas impositivas (individuais e de bancadas estaduais), mas é praxe que os congressistas incluam também, durante a tramitação do projeto, as emendas de comissão, que poderiam chegar a R$ 12,7 bilhões no ano que vem.
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No total, as verbas parlamentares chegariam a R$ 57,5 bilhões em 2027, um aumento de quase 500% em valores nominais ante os R$ 9,6 bilhões de 2015 — quando começou a articulação do Legislativo para abocanhar uma parcela maior do Orçamento. Até então, não havia emendas impositivas. O movimento fez as emendas representarem até 25% das despesas discricionárias totais nos últimos anos.
Num momento de insatisfação com o governo Dilma Rousseff, o Congresso Nacional aprovou, em 2015, a vinculação de 1,2% da Receita Corrente Líquida (RCL) para o total das emendas individuais. Na gestão de Jair Bolsonaro, esse movimento escalou.
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Em 2019, as verbas referentes a bancadas estaduais foram vinculadas a 1% da RCL, e foram criadas as “emendas Pix”, em que os recursos são enviados para prefeituras e governos estaduais sem objetivo definido.
Por fim, em 2020, foi criado o orçamento secreto, que não era impositivo nem tinha vinculação, mas permitia que o relator-geral do Orçamento destinasse verbas por indicação dos congressistas, sem identificar o autor da indicação.
O orçamento secreto foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por falta de transparência, em 2022, mas as emendas impositivas passaram a corresponder a 2% da RCL.
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O governo atual, em meio ao forte desafio fiscal, já adotou algumas medidas para limitar tanto a impositividade quanto o crescimento vertiginoso das emendas.
Para reajustar as verbas impositivas, passou a valer o indicador de menor variação anual entre três opções: o limite de despesas do arcabouço fiscal, a RCL e o crescimento das despesas não obrigatórias. Já as de comissão foram fixadas em R$ 11,5 bilhões para 2025 e são revisadas anualmente pelo IPCA acumulado em 12 meses até junho do ano anterior.
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Teresa Ruas, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), afirma que a participação do Legislativo no Orçamento é fundamental na democracia, mas a maneira como o crescimento das emendas vem se dando é bastante preocupante.
A especialista cita que os apontamentos do STF e de outros órgãos mostram que há dificuldade no controle sobre essas verbas e que as discussões ainda não se traduziram em avanços suficientes. Além disso, a destinação das verbas segue mais critérios políticos de curto prazo do que os desafios socioeconômicos do país.
— Temos muitos desafios, como enfrentar a pobreza, melhorar a educação, a crise climática, e precisamos de planejamento de médio e longo prazo — diz.
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Outra questão apontada por Teresa Ruas é que, no regime presidencialista, cabe ao Executivo a execução das políticas públicas:
— Há uma incongruência. Do Executivo, é sempre cobrada a responsabilidade fiscal, mas, ao mesmo tempo, do lado do Legislativo vemos crescente pressão de aumento de despesas com emendas. Qual é o poder que o Executivo passa a ter nesse cenário e qual é a prestação de contas a que o Legislativo está sujeito de fato nessa dinâmica que está se cristalizando?
Hélio Tollini, consultor aposentado da Câmara e ex-secretário de Orçamento do Ministério do Planejamento, propõe que as emendas sejam corrigidas de modo a seguir um percentual das despesas discricionárias — segundo ele, como ocorre nos Estados Unidos, onde as emendas são 1% das discricionárias.
Essa é uma forma, inclusive, de criar incentivos para os parlamentares corrigirem gastos obrigatórios, afirma.
— Toda saída é política e não tem solução porque eles (parlamentares) são os maiores beneficiários do sistema atual — diz.
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Uma questão singular do modelo brasileiro é haver uma reserva para emendas no projeto orçamentário. Ou seja, o próprio governo é obrigado a separar uma parte dos recursos a ser usada por deputados e senadores no Orçamento que está propondo.
Assim, os parlamentares sequer precisam ter o ônus de escolher o que cortar para acomodar seus gastos.
— O Executivo acaba sendo impedido de programar alguns recursos — diz Tollini.
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É a primeira vez que o próprio Orçamento faz projeções para quatro anos, e elas mostram o Executivo perdendo participação relativa dentro da despesa discricionária. Na projeção do governo, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Bolsa Família, por exemplo, encolhem em termos reais até 2030.
Revisão de gastos
O PAC vai de R$ 102,1 bilhões em 2027 para R$ 90,3 bilhões em 2030 — queda de 11,6% nominal, algo em torno de 19% real pelo IPCA de 3% que o próprio projeto prevê. O montante de transferência de renda do Bolsa Família aparece com exatos R$ 155,8 bilhões em 2027, 2028, 2029 e 2030.
Congelado nominalmente, perde perto de 9% do poder de compra. Ou seja: o governo reconhece que duas das suas principais vitrines perdem poder de compra no horizonte do próximo mandato, caso nada mude.
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No projeto orçamentário do ano que vem, o governo também admitiu a necessidade de medidas adicionais de revisão de gastos para conseguir pagar, em 2028, todas as políticas públicas atualmente vigentes.
De acordo com a análise do Executivo, o espaço no limite de gastos do arcabouço fiscal pode ser insuficiente para acomodar os custos dos programas atuais, mesmo sem considerar expansões ou novas iniciativas.

Emendas parlamentares crescerão em ritmo três vezes maior que o Orçamento livre do governo até 2030

Autor

BRCOM