Documentos avaliados pela 2ª Vara Criminal de Catanduva (SP), responsável por analisar denúncias e pedidos de medidas cautelares do Ministério Público de São Paulo na Carbono Oculto, apontam a participação de empresários ligados ao PCC no esquema bilionário no setor de combustíveis que, segundo as investigações, era chefiado por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo” ou “João”, e que tinha como colíder Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”. A lista de alvos inclui nomes que já haviam entrado na mira da Operação Rei do Crime, deflagrada em 2020 contra um braço financeiro da facção, e que se associam ao delator do PCC Antonio Vinícius Lopes Gritzbach, assassinado no aeroporto de Guarulhos em 2024, e a Marcola, chefe do PCC.
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A acusação descreve negócios realizados pelo trio Ricardo Romano, José Carlos Gonçalves, vulgo “Alemão”, e Leandro Cavallari com Mourad, ligado ao grupo Aster/Copape, e destaca vínculos deles com o PCC. Os documentos não estabelecem uma relação de comando da facção no esquema, mas indicam que o crime organizado teria se beneficiado das fraudes para lucrar e ocultar o dinheiro ilícito, desde o setor de combustíveis às fintechs, usadas para dificultar o rastreio dos recursos.
Os documentos destacam que “foram identificados fortes laços” do grupo de Mourad com a organização criminosa “através das redes de postos e distribuidoras” e cita os nomes de “pessoas vinculadas a essas redes”, como Ricardo Romano e Leandro Cavallari, que, segundo a acusação, “possuem mídias negativas associando-os ao PCC”.
Além disso, segundo o Ministério Público e a Receita Federal, Gritzbach foi sócio de Alemão. Não há informações nos documentos, porém, sobre quando ou em que contexto se deu essa sociedade. O delator também relatou ter recebido ameaças de morte de um homem que se identificou como Ricardo Romano. Não há detalhamento das ameaças ou informação sobre se houve alguma apuração em relação à denúncia.
Alemão já estava na mira das autoridades por supostos elos com o PCC. O contador dele compartilha procurações em oito empresas com o contador do grupo de Mourad, que somam movimentação financeira de R$ 1,64 bilhão, entre 2020 e o primeiro semestre de 2024. Para os investigadores, isso evidencia “conexões intrínsecas entre os grupos investigados”.
Em 2020, Alemão chegou a ser preso na Operação Rei do Crime, sob suspeitas de integrar organização criminosa e lavar dinheiro. Na época, as autoridades destacaram que a família dele detinha ao menos 50 postos de combustíveis. Na ocasião, o delegado Rodrigo de Campos Costa informou que a investigação conseguira comprovar que o grupo liderado por Alemão lavava dinheiro do crime organizado. A PF também sustentou que o empresário tinha “vínculo direto” com o Marcola, chefe da facção.
A operação teve como base um relatório de inteligência financeira recebido pela PF, no qual eram apontadas 78 empresas utilizadas para lavar dinheiro do PCC. Já em 2020, os investigadores afirmavam que Alemão “lavava dinheiro para o PCC há mais de dez anos”.
Ele foi vinculado a outros membros da facção, como Jean Galian, preso pelo furto ao Banco Central do Brasil. Segundo a PF, a delação do piloto de helicóptero Felipe Ramos de Morais foi “preponderante” para chegar a Alemão e ao esquema de lavagem do crime. Ele participou do homicídio de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro de 2018, no Ceará, e denunciou integrantes da facção para as autoridades. Em 2023, a delação do piloto foi considerada nula, e a Justiça de São Paulo extinguiu a ação penal contra Alemão e outros alvos. O processo foi arquivado.
Ainda segundo a PF, numa das movimentações de lavagem de dinheiro para o PCC, uma empresa em nome de uma das filhas de Alemão depositou R$ 55 mil para uma conta de companhia de Leandro Cavallari, também citado como alguém vinculado ao PCC nos documentos da Carbono Oculto.
Também apontado como “figura-chave”, Romano confeccionou declarações fiscais falsas para justificar a aquisição de postos de combustíveis e constituiu 18 novas conveniências nos mesmos endereços anteriormente utilizados por uma de conveniências da irmã de Mourad. A apuração apontou que ela extinguiu filiais de forma sincronizada em 2023 e foi sucedida por um grupo “sem perfil empresarial” e com o nome de laranjas, substituído mais tarde pela rede fundada por Romano. As investigações apontam que a Família Gonçalves Salomão, ligada a Alemão, também repassou postos de combustíveis para Romano e citam elos com empresas de Mourad.
Ao adquirir a rede de postos, Romano passou a enviar recursos para Cavallari por meio da BK Instituição de Pagamento, instituição que teria sido um “duto” para as operações fraudulentas. Em nota, a empresa disse ter “compromisso com a transparência, a legalidade e o estrito cumprimento das normas que regem o setor financeiro, permanecendo inteiramente à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos que se fizerem necessários”. A defesa dos demais acusados não foi localizada.