Deflagrada nesta quinta-feira, a Operação Crédito Oculto mira a utilização de “estruturas complexas” de lavagens de capitais para a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país: a Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana. A ação, que é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, apura a participação de executivos do mercado financeiro nesse esquema, que envolveu o uso de fundos, “contas-bolsão” e CDB para ocultar transações e a origem dos recursos no controle de uma usina e, então, na aquisição da Terrana. Investigadores sustentam que a empresa financeira empregada na aquisição simulada da sucroalcooleira movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
MP denuncia ‘Beto Louco’ e ‘Primo’, alvos da Operação Carbono Oculto, por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica
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Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), houve “sobreposição” de estruturas por parte da organização criminosa para, inicialmente, ocultar o controle de uma empresa sucroalcooleira e, depois, a aquisição da distribuidora de combustíveis. Localizada a menos de uma hora de Ribeirão Preto, a Usina Carolo, em Pontal, já havia sido apontada em fase anterior da Carbono Oculto como parte dos negócios fraudulentos de Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, denunciados como líderes da “máfia dos combustíveis” ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e que seguem foragidos da Justiça.
Na sequência, outro operador financeiro, identificado como “titular de fintechs e outras empresas”, teria utilizado a infraestrutura societária e financeira do seu grupo empresarial para movimentações financeiras das empresas da organização criminosa e também para “criar novas camadas de ocultação sobre a titularidade da usina sucroalcooleira, entre outras fraudes”, segundo o MP.
Nesta quinta, entre os alvos de busca estão endereços ligados a Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial; seus irmãos, André e Bruno Tupinambá; e ao empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos. Freixo assinou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito das investigações sobre o Caso Master.
Conhecido como um dos principais operadores do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Freixo é alvo da ação desta quinta por suspeitas de lavar dinheiro para empresários do setor de combustíveis. Segundo as investigações, embora a titularidade formal da empresa sucroalcooleira estivesse distribuída entre fundos de investimento e outras empresas aparentemente independentes, os elementos reunidos indicaram que a estrutura, na verdade, “foi organizada para preservar o controle econômico dela sem que os reais beneficiários fossem revelados”.
Uma das operações envolve cerca de R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu esses créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC). Ainda de acordo com o MPSP, a análise financeira dessa transação apontou que parcela “relevante” dos recursos para a aquisição das cotas se originou de fundos de investimentos controlados pelo mesmo grupo investigado.
O caminho do dinheiro
Os investigadores descrevem a movimentação como “um dos principais achados” no caso, já que esse “fluxo financeiro circular” expôs a tentativa do grupo de conferir “aparência de legitimidade” à operação e dificultar a identificação dos reais beneficiários. Essa ocultação da titularidade em duas etapas, por dois grupos de operadores, é descrita como “providencial” para “blindar” a usina e “instrumentalizá-la” para estruturar um novo negócio: a compra da Terrana.
A aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país se deu por uma estrutura que incluiu banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e empresas de fachada. O esquema, reforçou o MP, foi organizado para distanciar os recursos ilícitos utilizados na operação e os seus verdadeiros financiadores e beneficiários econômicos. Neste ponto, os investigadores teriam se valido das chamadas “contas-bolsão”.
“A usina teria recepcionado em suas contas bancárias R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa para financiar a referida aquisição. Seguindo modus operandi já apontado pelo Ministério Público de São Paulo, os valores passaram ‘em poucos minutos’ por múltiplas contas gráficas de três empresas do grupo ocultadas por contas bolsões em Fintechs, usadas como meras ‘contas de passagem’, até aportarem na conta da referida usina sucroalcooleira”, ressalta o MP.
A usina sucroalcooleira passou então a integrar a carteira de um novo fundo de investimento — no qual os R$ 100 milhões foram aportados — criado especificamente para o novo negócio. A fraude, então, foi arquitetada por intermédio de um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). Segundo as apurações, o fundo de investimento realizou a aquisição de um CDB perante o Banco Tradicional que, por sua vez, utilizou esse dinheiro para realizar uma operação “casada” com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para duas “shell companies” da própria organização criminosa.
“Essas empresas de fachada se capitalizaram mediante este negócio jurídico simulado e foram utilizadas para ocultar e dissimular os verdadeiros beneficiários finais do negócio jurídico, ou seja, a aquisição da distribuidora de combustíveis”, concluíram os investigadores.
A suspeita é que a estrutura criminosa tenha sido liderada por Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, chamado de “Primo”. Ambos, apesar disso, não estão entre os alvos de busca desta fase da Carbono Oculto.
Os dois foram denunciados no começo do mês pelos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, em denúncia fruto de fases anteriores da mesma ação. Segundo a acusação, o esquema envolvia desde a adulteração de combustíveis nos postos até o uso de refinarias e fintechs para ocultar a origem ilícita dos recursos. Beto Louco e Primo seguem foragidos.
O Juízo da 2ª Vara Criminal de Catanduva autorizou buscas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. Além do Gaeco e da Receita Federal, participam da ação a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e a Secretaria Estadual da Fazenda.
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