A cem dias da COP30, as pressões por uma mudança de sede ganham força e já são admitidas até pelo embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência. Na ultima terça-feira, o escritório climático da Organização das Nações Unidas (ONU) realizou uma reunião de emergência para debater soluções para a situação hoteleira de Belém, diante da queixa internacional por conta do alto preço cobrado por acomodações na capital do Pará. Na quinta-feira, Corrêa do Lago afirmou que, durante o encontro, países pediram abertamente que o evento, previsto para novembro, passe por uma alteração de local.
O embaixador reconheceu, porém, que os preços das hospedagens estão “completamente abusivos” e disse haver um esforço do governo federal, coordenado pela Casa Civil, para convencer o setor hoteleiro a baixar os valores das diárias. A declaração ocorreu durante um evento com o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), promovido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros (AIE).
— Tornou-se público que diversos países do grupo que faz parte da administração da convenção (veem) a questão do preço dos hotéis como uma preocupação. Representantes de regiões pediram para tirar a COP de Belém. Isso aconteceu em uma reunião anteontem (na terça-feira) — disse Corrêa do Lago.
O embaixador enxerga “uma sensação de revolta, sobretudo por parte dos países em desenvolvimento, que estão dizendo que não poderão vir à COP por causa dos preços extorsivos que estão sendo cobrados”.
—Talvez os hotéis não estejam se dando conta da crise que estão provocando.
O encontro on-line de terça-feira teve participação de membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), além de representantes do governo federal e do governo do Pará. Segundo a Secretaria Extraordinária da COP30 (Secop), uma nova reunião está agendada para 11 de agosto, com o objetivo de “dar continuidade ao diálogo sobre o conjunto de ações” para a realização do evento em Belém.
Em nota, a Secop reiterou o “compromisso com a realização de uma conferência climática ampla, inclusiva e acessível” e informou que “o plano de acomodação está sendo implementado em fases, com prioridade, nesta etapa, para as delegações que participarão diretamente das negociações oficiais”. Atualmente, destaca o texto, estão disponíveis 2.500 quartos individuais com tarifas fixadas entre US$ 100 e US$ 600.
Presidente do Grupo Africano de Negociadores, que convocou a reunião emergencial, Richard Muyungi disse à Reuters que o Brasil concordou em abordar as preocupações dos países sobre acomodações e se comprometeu a apresentar um relatório no próximo encontro:
— Recebemos a garantia de que revisitaremos isso no dia 11 para ter certeza se a acomodação será adequada para todos os delegados. Não estamos prontos para reduzir os números. O Brasil tem muitas opções em termos de ter uma COP melhor. Por isso, estamos pressionando para que sejam fornecidas respostas melhores, em vez de nos dizer para limitar nossa delegação.
Os altos preços de hospedagem já vinham se tornando o principal ponto de tensão às vésperas da COP30 desde o encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que ocorreu em junho, em Bonn, na Alemanha, quando diferentes delegações criticaram os custos elevados. Um dos temores é que o cenário dificulte a participação de nações mais pobres, prejudicando os debates multilaterais. Desde fevereiro, as repetidas promessas da presidência da COP de colocar no ar uma plataforma de hospedagem não são cumpridas.
Diferentes países de Europa, África e Oceania, além de representantes da sociedade civil, já indicaram nas reuniões preparatórias que devem reduzir suas comitivas. Em alguns casos, os valores cobrados em Belém chegam a superar US$ 2 mil por noite.
Como mostrou o GLOBO recentemente, diante da insatisfação internacional com a estrutura de Belém, o governo federal decidiu ampliar o leque de soluções improvisadas. Uma das alternativas à mesa é utilizar habitações de um conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida em Belém, cuja construção sequer foi concluída, como estadia temporária para parte dos participantes. Já a Polícia Rodoviária Federal (PRF) planeja adotar salas de aula como abrigo para os cerca de 900 agentes que atuarão ao longo do evento.
Também foi anunciada, em julho, a contratação de dois navios de cruzeiro como unidades temporárias de acomodação na capital do Pará. A medida prevê a oferta de cerca de 3.900 cabines, com capacidade para até 6 mil pessoas, a bordo dos navios MSC Seaview e Costa Diadema. Para firmar a parceria, porém, foi preciso oferecer uma garantia de R$ 259 milhões às empresas, montante que precisará ser repassado caso as embarcações acabem com capacidade ociosa durante o encontro, de acordo com o percentual de desocupação.
Além das hospedagens, as obras de requalificação do Aeroporto Internacional Júlio Cezar Ribeiro (Val-De-Cans), em Belém, também colocaram os participantes da conferência em alerta, conforme relatos ouvidos pelo GLOBO. Embora o prazo anunciado para conclusão das intervenções vá até o fim de agosto, a um mês do tempo-limite, a reforma encontra-se 85% concluída. São esperados 40 mil de pessoas na COP30, a maioria chegando por via aérea.
Entre as mudanças previstas no aeroporto estão a ampliação da área de embarque de 1.593 m² para 4.303 m², a modernização dos sistemas de climatização, iluminação e energia (com fontes 100% renováveis) e a construção de um novo pátio para aeronaves. Também ocorrerá a instalação de sistemas de apoio à navegação e balizamento noturno automatizado, além da restauração de pista, taxiways e sinalização horizontal.
Segundo a Secop, a concessionária Norte Amazônia Airports (NOA), responsável pela gestão do aeroporto, executa um conjunto de obras no valor de R$ 450 milhões. “Previsas originalmente para conclusão em 2026, essas intervenções fazem parte do contrato de concessão, mas tiveram seu cronograma antecipado em articulação com o governo federal, para assegurar que toda a infraestrutura esteja plenamente operacional durante a COP30”, diz a secretaria.
Com a proximidade do evento, a malha aérea do aeroporto será ampliada no mês de novembro. Haverá um aumento de 23,3% na oferta de assentos em voos domésticos e 44% em voos internacionais, quando comparado ao mesmo mês de 2024.
Procurado pelo GLOBO, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que vem atuando, por meio da Secretaria Nacional de Aviação Civil, em conformidade às demandas previstas em virtude da realização da COP30. A pasta alega que a atuação se vale da “experiência adquirida nos grandes eventos anteriores e utilizando dados do Ministério das Relações Exteriores”. Além da modernização da estrutura, o ministério destaca a ampliação de uma estratégia de parking para receber aeronaves para pernoite e abastecimento, “desafogando o fluxo aeroviário na capital paraense”, como um dos trabalhos sendo executados.
“Em relação à execução das obras, há um cronograma estabelecido e acompanhado por meio de visitas técnicas”, diz a pasta. Já a NOA afirmou que o calendário de obras “segue conforme planejado” e que as intervenções farão com que o aeroporto receba “com ainda mais agilidade, excelência e conforto os milhares de participantes da COP30”.
A situação rodoviária de Belém também preocupa os organizadores do evento, uma vez que boa parte dos deslocamento interno de participantes brasileiros ocorrerá de ônibus. A obra do BRT Metropolitano na capital paraense, por exemplo, estava prevista para ser encerrada até julho, mês que terminou ontem, mas não houve qualquer anúncio formal de conclusão. Procurado, o governo estadual não retornou o contato.