Nos últimos anos, o mercado de idiomas passou por uma transformação significativa com a ascensão de aplicativos e plataformas digitais. Ferramentas como Duolingo, Memrise e Babbel chamam a atenção por serem gratuitas, interativas e práticas, permitindo que milhares de usuários estudem novos idiomas no seu próprio ritmo.
Para competir com essas novidades cibernéticas, os cursos tradicionais que ainda combinam sala de aula e professor de carne e osso, têm investido cada vez mais em aulas on-line. Esse formato tem atraído principalmente o público adulto mais jovem, que querem encaixar o estudo de um novo idioma no cotidiano corrido de quem trabalha.
- Entenda o conceito: Depois do fim da escala 6×1, entra no radar o ‘direito descansista’
- ‘Prefiro sair’: Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas
Além de oferecer mais flexibilidade, eliminando deslocamentos, os cursos on-line costumam ter mensalidades que chegam a ser até 40% menores que no modelo presencial, o que também ajuda a atrair novos alunos.
Mesmo com o crescimento das turmas virtuais, as escolas mantêm suas unidades físicas, adaptando a estrutura e reduzindo o número de alunos por sala. O uso de tecnologias, como a inteligência artificial (IA), tem sido um diferencial para tornar o aprendizado mais dinâmico e personalizado, mas a transição completa para o digital ainda está em andamento.
- IA em processos seletivos: como preparar seu currículo para ser lido por algoritmos
Um estudo da pesquisadora Verônica Melendez, parceira da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), revela que, em 2019, um ano antes da pandemia de Covid-19, havia cerca de 2 milhões de matrículas em cursos de idiomas na modalidade on-line. Já em 2023, esse número chegou a 4,2 milhões, o que representa um aumento de 110%. A projeção para 2025 é de 5,5 milhões de alunos.
— O que ainda permanece majoritariamente no formato 100% presencial são as franquias de algumas grandes marcas que atendem bairros. Mas, no geral, como modelo de negócio, migrar para o digital é mais lucrativo e acompanha as tendências do mercado — afirma a pesquisadora.
Na visão da professora, essas mudanças não apenas ampliaram o acesso ao ensino de línguas, mas também redefiniram o que significa ser proficiente em um idioma no século XXI, além de trazer efeitos profundos e variados no jeito como as pessoas aprendem idiomas no Brasil.
Uma das marcas tradicionais que aumentou sua oferta no ambiente on-line foi o Ibeu, com 88 anos de existência. Além de oferecer aulas ao vivo em ambiente virtual, a instituição tem desenvolvido aplicativos que tornam o estudo mais dinâmico e prático.
- Entenda: Empregados faltam mais ao trabalho e afetam resultado financeiro das empresas
Hoje, cerca de 30% do total de alunos matriculados estão na modalidade 100% remota. Além da busca por comodidade e flexibilidade para estudar de onde estiverem, os estudantes também encontram uma vantagem no preço: em comparação com o presencial, o valor da mensalidade é 30% menor.
— Depois da pandemia, vemos ano a ano o percentual de pessoas no digital aumentando. Ainda temos a maior parte das matrículas no presencial, mas nossa projeção é que, nos próximos quatro anos, esse número seja equivalente, pelas vantagens oferecidas e pela qualidade do que fazemos aqui — diz Vânia Furtado, superintendente acadêmica e de operações de filiais do curso.
Ela explica que o Ibeu tem implementado o uso de inteligência artificial nas aulas para tornar o aprendizado mais dinâmico e interativo. Em sua visão, a tecnologia deve ser usada como aliada, e ignorar esses recursos é seguir na contramão do que o mercado demanda.
— A tecnologia que usamos é de uma empresa parceira e está sempre sendo melhorada. Com a inteligência artificial, conseguimos adaptar o ensino ao ritmo de cada aluno e deixar as aulas mais dinâmicas e envolventes. O principal é usar essas ferramentas para entender melhor os estudantes e proporcionar uma aprendizagem mais interativa, pois é isso que chama atenção — destaca.
Crianças ainda no presencial
Especialistas apontam que há maior interesse pela modalidade on-line entre adolescentes e jovens adultos. Já para crianças, pela necessidade de maior interação com os professores e pelo controle de tela feito por alguns responsáveis, o presencial ainda é dominante.
— Na pandemia, quando as crianças estavam obrigatoriamente no ambiente digital, o desafio era muito grande. As telas, para elas, não são a forma mais adequada de ensino. Porém, para adolescentes, esse modelo funciona melhor, e é possível perceber um engajamento maior — explica o professor Rafael Oliveira.
No Brasas, 20% dos alunos on-line
O Brasas, uma escola de idiomas tradicional, também tem investido no ensino on-line. Em 2025, cerca de 20% dos alunos estão matriculados no “Brasas Online”, modalidade que cresceu 300% nos últimos dois anos. O curso optou por separar bem os formatos presencial e digital, o que, segundo a direção, ajuda a atrair perfis diferentes de alunos e a ampliar o alcance da marca.
Os preços também são um atrativo: 28,6% mais baixos em relação ao presencial. Apesar do crescimento do ensino on-line, isso não levou ao fechamento de unidades, mas sim à ampliação de um formato que alcança um público diferente. A principal mudança observada foi a diminuição do tamanho das unidades e da quantidade de alunos por turma no presencial.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/8/D/Bauw6PTCWkBShgt2V5Lw/whatsapp-image-2025-08-01-at-00.10.18.jpeg)
— Hoje, uma pessoa em qualquer lugar do Brasil é um potencial cliente. Podemos oferecer aulas sem que o aluno precise vir até nossas unidades; levamos o conteúdo e nossa capacidade de ensino até a casa dele — explica Alexsander Vieira, diretor do Brasas Online.
Segundo ele, embora os aplicativos ajudem na prática do idioma, ainda têm limitações e, sozinhos, dificilmente garantem fluência. Para os cursos tradicionais, o diferencial está no contato direto com professores e no acompanhamento mais próximo dos alunos.
Com o objetivo de consolidar sua presença digital, o Brasas criou uma plataforma digital com todo o material didático. O “My Brasas” oferece conteúdo acessível a qualquer momento e conta com recursos de inteligência artificial para tornar o aprendizado mais interativo e atrativo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/j/8/BZRT1sQVK2Cp3N5vtshQ/whatsapp-image-2025-08-01-at-00.12.13.jpeg)
Para Vânia, outro ponto que torna o modelo on-line mais interessante é a possibilidade de os professores assumirem mais turmas, sem a necessidade de deslocamento.
— Os profissionais conseguem dar aulas em horários que antes não eram viáveis, o que é muito positivo. Antes, alguns recusavam determinadas turmas e precisávamos de um quadro maior. Agora, esses mesmos professores estão no digital, trabalhando de casa. Do ponto de vista de negócio, é bom para todos — explica.
‘Sempre haverá publico para todos os formatos’
A Cultura Inglesa, outra tradicional escola de idiomas, também expandiu o formato on-line e prevê maior crescimento nos próximos anos. Para a empresa, oferecer múltiplas possibilidades com qualidade é o diferencial das marcas tradicionais no mercado.
Em 2025, 25% dos alunos da Cultura Inglesa estão matriculados na modalidade on-line. A expectativa é de que esse número continue crescendo nos próximos anos, sem prejuízo ao público que ainda prefere o formato presencial.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/e/1/VW7evZR5KIn7kyABtBeg/whatsapp-image-2025-08-01-at-00.11.45-1-.jpeg)
— Sempre haverá público para todos os formatos. Existem tíquetes diferentes, o que torna cada tipo de negócio viável. Para o público adulto, casado, que trabalha e tem muitas responsabilidades, o digital tende a ser preferencial, permitindo que o negócio se expanda de várias formas — explica Wilson Diniz, CEO da Cultura Inglesa.
Com o objetivo de inovar e oferecer ainda mais alternativas para quem quer estudar idiomas, a empresa lançou uma nova modalidade 100% on-line chamada “Turbo”, que permite aos iniciantes aprenderem uma nova língua em até dois anos.
Além de aulas com uma abordagem mais prática e interativa, voltadas para a imersão no idioma desde o início, o valor do curso nesta opção é 40% mais barato que o tradicional e utiliza o mesmo material didático, mesclando recursos de inteligência artificial e conteúdo totalmente digital.