A Operação Carbono Oculto, que cumpre mandados de busca e apreensão e de prisão em investigação sobre atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis, atingiu nomes de peso da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. O Banco Genial, a fintech BK Bank e a Reag Investimentos são três das instituições citadas com envolvimento com a gestão de fundos que aparecem no centro do esquema.
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A investigação apura como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou na economia formal, em especial no setor de combustíveis, utilizando gestoras e fintechs para lavar dinheiro. Dos 350 alvos da operação, 42 estão concentrados na Faria Lima.
O Banco Genial S.A., uma das instituições financeiras com sede na avenida, entrou no radar da Operação Carbono Oculto por sua atuação como administrador de um fundo de investimento que, segundo as investigações, teria sido usado em um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A apuração não aponta para um envolvimento direto do banco nas atividades criminosas, mas cita sua função na gestão de ativos que se tornaram centrais no caso.
Um deles é o Radford Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado, usado pelo grupo de Mohamad Hussein Mourad para ocultação de bens e lavagem de dinheiro. Segundo as investigações da Receita Federal, este fundo foi o mecanismo utilizado para ocultar bens e valores da Usina Itajobi Ltda, Açúcar e Álcool, após a empresa ter sido adquirida pelo grupo supostamente liderado por Mohamad. O fundo Radford foi constituído logo depois da aquisição da usina.
Os investigadores encontraram uma transferência de R$ 100 milhões da Usina Itajobi para o fundo Radford, intermediada pela BK Instituição de Pagamento. O movimento foi classificado como suspeito pelo Ministério Público, especialmente diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelas usinas da região
Em decisão judicial, foi determinado que o Banco Genial forneça informações completas sobre o Radford Fundo, incluindo dados cadastrais, fiscais, financeiros, telemáticos e bancários, no período de 2020 até 2025. A Justiça também decretou a indisponibilidade dos bens e valores da Usina Itajobi, incluindo aqueles vinculados ao fundo administrado pelo Genial.
Procurado pelo GLOBO, o Banco Genial manifestou “surpresa e indignação ao ver seu nome mencionado em notícias relacionadas à Operação Carbono Oculto”.
“A instituição tomou conhecimento do assunto unicamente pela imprensa e, até o presente momento, não recebeu qualquer notificação oficial sobre a existência de procedimentos investigativos que a envolvam, seja direta ou indiretamente”. (Leia a nota na íntegra no fim da matéria).
A BK Instituição de Pagamento S.A., também conhecida como BK Bank, é citada na investigação como uma peça central na engrenagem financeira do grupo criminoso. Segundo as investigações, a fintech atuava como o braço financeiro de captação de recursos e aquisição de empresas, viabilizando a movimentação de valores e a ocultação de sua origem ilícita.
O método principal, de acordo com as apurações, era o uso de “contas bolsão” , em que valores de diferentes clientes eram reunidos em uma única conta. Esse mecanismo permitia compensações internas e dificultava o rastreamento dos recursos, criando obstáculos ao sistema antilavagem.
O volume de transações consideradas atípicas na instituição é expressivo, somando cerca de R$ 17,7 bilhões em créditos e um valor idêntico em débitos com empresas ligadas ao PCC. Parte significativa desse fluxo passou pela filial de Ribeirão Preto, que tinha ligação direta com as atividades do grupo nas usinas sucroalcooleiras e distribuidoras de combustíveis.

Megaoperação mira esquema bilionário do PCC no setor de combustíveis; 350 são alvos
Em outro eixo, a BK serviu de canal para uma rede de postos que movimentou mais de R$ 54 bilhões, mas declarou ao fisco apenas 0,17% em tributos, índice considerado incompatível para empresas tributadas pelo lucro real.
Segundo aponta a investigação, a Usina Itajobi, por exemplo, utilizou a fintech para transferir R$ 100 milhões ao fundo Radford, administrado pelo Banco Genial. Já o Fundo de Investimento Mabruk II usou a BK para ocultar a origem de aproximadamente R$ 250 milhões na aquisição de usinas.
As conexões financeiras encontradas pelos investigadores se estendiam ainda a pessoas próximas a Mohamad Hussein Mourad. Seu primo, Himad Abdallah Mourad, recebeu mais de R$ 20,8 milhões pela BK em 2023. A Insight Participações S.A., empresa dele, também aparece como beneficiária em comunicações internas, com registros de R$ 18,5 bilhões em créditos e débitos.
A relação da BK com a Bankrow Instituição de Pagamento S.A. também foi destacada na investigação. Ambas compartilham origem societária, sede em Campinas e até procurações cruzadas em contas bancárias.
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Diante do volume e da complexidade das operações, a Justiça determinou busca e apreensão na matriz da BK, em Barueri, e na filial de Ribeirão Preto, além da quebra de sigilo bancário de todas as contas ligadas aos investigados. Também foi decretado o bloqueio de valores, incluindo as chamadas “contas-bolsão” até o limite de R$ 68,9 milhões.
Procurados pelo GLOBO, o BK Bank ainda não se posicionou. Já a Bankrow Instituição de Pagamento informou em nota que foi pega de “surpresa” com o envolvimento da empresa nas investigações.
“Somente conseguiremos fornecer maiores informações, depois que tivermos acesso aos autos”, concluiu o departamento jurídico da empresa. (Leia a nota na íntegra no fim da matéria)
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Reag administrava fundos usados para comprar usinas
A Reag Investimentos, por meio de diferentes braços societários e fundos sob sua administração, aparece como um dos principais canais utilizados pelo grupo liderado por Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva para dar aparência de legalidade a recursos ilícitos. Segundo os documentos, a empresa funcionava como gestora de fundos instrumentalizados para ocultar bens, lavar dinheiro e promover a blindagem patrimonial de integrantes da organização criminosa.
Um dos principais fundos citados é o Mabruk II que, segundo as investigações, foi instrumental para a aquisição das usinas Itajobi e Carolo pelo grupo investigado, além de ter sido usado para ocultar a origem e o destino de cerca de R$ 250 milhões em movimentações financeiras. Outros fundos geridos pela empresa, como o Reag High Yield, também apresentaram movimentações atípicas.
Investigadores também apontam para a conexão de pessoas ligadas à Reag com o esquema, como João Carlos Falbo Mansur, identificado como parte do “núcleo de Fundos de Investimento”, usado para a ocultação de valores. á Silvana Correa, companheira de Mohamad Hussein, aparece vinculada ao Gold Style Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados, também administrado pela REAG Trust.
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O Ministério Público e a Receita Federal apontam ainda que a estrutura da Reag teria sido usada para inflar artificialmente patrimônio e sustentar transações com declarações fiscais falsas. Comunicações enviadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) reforçam a suspeita, citando operações com diferenças superiores a 100% entre o valor de avaliação de imóveis e o declarado em cartório.
A operação policial cumpriu mandados de busca e apreensão nas sedes de diversas entidades ligadas à Reag e em fundos administrados por ela. A Justiça autorizou a quebra dos sigilos fiscal e bancário das empresas e pessoas físicas relacionadas, além do sequestro e bloqueio de bens e valores para garantir a reparação de danos.
A Reag divulgou fato relevante ao mercado confirmando que foram cumpridos mandados de busca e apreensão em suas sedes no âmbito da Operação Carbono Oculto. Segundo a empresa, fundos de investimentos mencionados na Operação nunca estiveram sob sua administração ou gestão.
“Quanto aos Fundos de Investimento apurados em que a empresa atuou como prestadora de serviço, informa que agiu de forma regular e diligente. Cumpre registrar que tais fundos foram, há meses, objeto de renúncia ou liquidação”. (Leia a íntegra da nota no fim da matéria)
Operação Carbono Oculto
Cerca de 1.400 agentes cumpriram, nesta quinta-feira, mandados de prisão e busca e apreensão em sete estados do país na Operação Carbono Oculto, que mira um esquema bilionário do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis.
Mais de 350 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, são suspeitos da prática de crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato.
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Segundo a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), tratava-se de um esquema complexo com várias frentes, que começava nas usinas sucroalcooleiras e na formulação de gasolina e diesel, e seguia com um esquema de ocultação de dinheiro por meio de fintechs e fundos de investimento.
De acordo com as investigações, entre 2020 e 2024, empresas formuladoras de combustível ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel, usando dinheiro ilegal da facção. Essas empresas sonegavam impostos — que totalizaram R$ 8,67 bilhões — e também adulteravam combustíveis distribuídos nos postos.
Além do setor de combustíveis, outros setores da economia formal são utilizados pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. Entre eles, estão o mercado imobiliário, transporte público, mineração, cigarros, comércio de bebidas, e o próprio setor financeiro. Estas atividades ajudam a esconder produtos de atividades criminosas e diversificar os negócios das organizações criminosas, criando uma aparência de legalidade para a sua atuação.
O que disseram os envolvidos
“O Banco Genial manifesta sua surpresa e indignação ao ver seu nome mencionado em notícias relacionadas à Operação “Carbono Oculto”, deflagrada na data de hoje. A instituição tomou conhecimento do assunto unicamente pela imprensa e, até o presente momento, não recebeu qualquer notificação oficial sobre a existência de procedimentos investigativos que a envolvam, seja direta ou indiretamente.
O Banco Genial sempre conduziu suas atividades com base nos mais elevados padrões de governança corporativa, ética e compliance regulatório, em estrita observância à legislação e regulamentação aplicáveis.
Reiteramos que estamos inteiramente à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários. Ao mesmo tempo, repudiamos de forma veemente qualquer ilação infundada que possa macular a reputação da instituição e seus colaboradores.”
Bankrow Instituição de Pagamento:
“Estamos ainda sem entender porque a Bankrow foi inserida na operação já que é uma empresa auditada pelo Banco Central, com envio diário de todas as movimentações. Somente conseguiremos fornecer maiores informações, depois que tivemos acesso aos autos, o que ainda não aconteceu”
“A REAG Investimentos S.A. informa que colabora integralmente com as autoridades responsáveis pela Operação Carbono Oculto, e permanece confiante no regular funcionamento das instituições e da justiça, com a certeza de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos.
Sobre os fatos objeto de apuração, esclarece que diversos Fundos de Investimentos mencionados na Operação nunca estiveram sob sua administração ou gestão.
Quanto aos Fundos de Investimento apurados em que a empresa atuou como prestadora de serviço, informa que agiu de forma regular e diligente. Cumpre registrar que tais fundos foram, há meses, objeto de renúncia ou liquidação.
Reforça, ainda, que não possui nem nunca possuiu qualquer envolvimento com as atividades econômicas ou empresariais conduzidas por esses clientes.
A REAG permanece em atuação com seu rigor técnico, ética e transparência, em estrita conformidade com as normas e exigências da lei e dos reguladores do sistema financeiro.”