Há uma ideia de que a transmissão de jogos dos times do Rio de Janeiro, na época de capital federal — primeiro pelo rádio, depois pela televisão —, para outras regiões do Brasil é a principal responsável pelo tamanho atual da torcida do Flamengo. Este fator ajudou a tornar nacional não só a massa de apoiadores do rubro-negro, como as de Vasco, Botafogo e Fluminense, mas não explica o porquê da quantidade de flamenguistas (21,8%) ser tão maior que a dos rivais da cidade (3,4%, 1,5% e 0,9%, respectivamente) como aponta a Pesquisa O GLOBO/Ipec-Ipsos de Torcidas. Para entender isso, precisaremos voltar no tempo.
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Muitas tentativas de se tentar legitimar uma torcida nos dias atuais, seja como a maior ou a mais democrática do âmbito local, é invocar o argumento do “clube do povo”. Esta é uma construção mais recente que não faz jus às origens de grande parte dos maiores clubes do país, geralmente nascidos em meio a elites ou camadas mais altas de certo grupo social.
O próprio Flamengo foi formado na Zona Sul carioca, mesma região onde Fluminense e Botafogo surgiram com a tradição de aceitar apenas a “fina flor” da sociedade local, excluindo até mesmo o público geral das partidas. O Vasco é da Zona Norte da cidade, mas, apesar do caráter mais inclusivo até no aspecto racial que marcou seu início, representava os ideários da colonização portuguesa em seus primórdios.
— Por ter essa marca moderna, o esporte era muito associado a um evento social, era uma prática restrita aos jovens modernos, que eram jovens endinheirados da cidade. Por isso, os primeiros clubes formados, tanto em São Paulo, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, mas principalmente no Rio, eram clubes de composição social muito restrita — destaca Leonardo Affonso de Miranda Pereira, professor de História da PUC-RJ.
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Esse paradigma se mantém até meados da década de 1930, quando se decretou o profissionalismo no futebol e a relação entre clubes, jogadores e torcida mudou. A instauração do Estado Novo por parte de Getúlio Vargas colocou de vez o esporte no papel de instrumento político, criando uma identidade de integração nacional. E foi o Flamengo o clube que melhor soube surfar essa onda.
Dois presidentes em especial, José Bastos Padilha e Gilberto Cardoso, exploraram ideais nacionalistas, em voga no Estado Novo, relacionando-os ao Flamengo no imaginário popular. Um dos artifícios foi contratar Leônidas da Silva e Domingos da Guia, ídolos e negros, gerando mais identificação com as camadas inferiores economicamente. O período acabou mais propício para o crescimento da torcida do que quando o Vasco dos anos 1920 foi campeão permitindo que negros jogassem. Já Fluminense e Botafogo demoraram um pouco mais para se afastar dos estereótipos elitistas.
— Na Copa de 1938, já no Estado Novo, a seleção foi aquela que, pela primeira vez, a própria imprensa se vangloriava do fato de representar efetivamente a nacionalidade. Os maiores ídolos daquela seleção eram justamente o Leônidas da Silva e o Domingos da Guia, que eram dois jogadores do Flamengo — aponta Pereira.
Neste mesmo período, Mário Filho, com uma ajuda de Padilha e Roberto Marinho, adquiriu o Jornal dos Sports. À frente do JS, Mário promoveu diversos concursos de torcida, em que exaltava o novo perfil dos torcedores, ajudando a reverberar as identificações populares que se consolidavam na época, como explica o historiador Renato Sores Coutinho no livro “Um Flamengo grande, um Brasil Maior”. Além disso, as transmissões via rádio para outras regiões potencializaram o caráter nacional rubro-negro, muito antes da geração de ouro da década de 1980.
Depois do Flamengo, na preferência nacional aparecem as torcidas da maior cidade do país: Corinthians (11,9%), Palmeiras (6,5%) e São Paulo (6,4%). O “trio de ferro” também tem enorme projeção e se aproveitou do poderio financeiro local.
— O futebol espelha esse poder. Durante muito tempo, o Santos orbitava em torno disso, porque teve a era Pelé e o poder do Porto de Santos, mas cada vez mais, Palmeiras, Corinthians e São Paulo conseguem galvanizar essa influência — explica Bernardo Buarque de Hollanda, professor da FGV. — Esse poderio econômico cada vez mais mostra a força que o Corinthians já tinha, que o São Paulo vem a ter nos anos 90 com os títulos, e que agora o Palmeiras conseguiu chamar para si, a partir também de questões administrativas e mudanças infraestruturais, que vem criando um ciclo virtuoso para o clube.
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Já fora do eixo Rio-São Paulo, mas com clubes igualmente expressivos ao longo da história, Porto Alegre e Belo Horizonte ficam à margem na questão de alcance nacional. Por exemplo, Grêmio (3%) e Internacional (1,7%) estão inclusos em um contexto no qual o sentimento de pertencimento local é forte. Não à toa, a região Sul é a mais “fiel” do país, segundo a Pesquisa O GLOBO/Ipec-Ipsos.
Por sua vez, Cruzeiro e Atlético-MG ficam empatados (2,3%) em um estado dos mais populares do país. Historicamente, o alvinegro nasceu como uma equipe menos aristocrática dentro de Belo Horizonte e atraiu a maior parte do público da capital mineira. Nascido depois, o time celeste é originário da colônia italiana que ajudou a construir a cidade, mas encontrou mais margem de crescimento no interior do estado, o que rendeu o apelido de “China Azul”.
— É interessante destacar esse equilíbrio das torcidas em Minas, o que não acontece tanto nos outros estados, onde um clube desponta. Dependendo da região de Minas, até há uma influência geográfica que vai para outros estados. Por exemplo, a Zona da Mata é muito vinculada a times do Rio. Sul de Minas e Triângulo Mineimuito ligados a times de São Paulo. E há uma concentração de torcedores de Atlético e Cruzeiro muito na região Central e Norte, com menos influência do eixo Rio-São Paulo — avalia Georgino Neto, professor da Unimontes e pesquisador de Estudos de Futebol.