Nesta sexta-feira foi confirmada a morte da décima-sexta vítima do colapso, em novembro, da estação de trem de Nova Sad — um adolescente, que cursava a Escola Técnica de Economia local e estava internado no hospital militar da segunda maior cidade da Sérvia. Os mortos vão de crianças de 4 a idosos de 74 anos. A tragédia virou o país do avesso, com as maiores manifestações de rua de sua História, lideradas por estudantes, que acabam de custar ao primeiro-ministro seu cargo. Eles exigem mais democracia, imprensa livre e um sistema que responsabilize culpados por crimes. Reformada e inaugurada com pompa em 2022, a estação de vidro e concreto virou ruína e se tornou símbolo do que oposição e instituições da sociedade civil denunciam ser a máquina de corrupção e negociatas do governo de Aleksandar Vucic, desde 2012 no comando do país, ora como primeiro-ministro, ora presidente. O político de 55 anos, que se gaba de ser um dos únicos interlocutores de Vladimir Putin na Europa, dos primeiros a refutar sanções a Moscou após a invasão da Ucrânia, recebeu na semana passada visita inusitada: a de Donald Trump Jr.
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O primogênito do presidente dos EUA deve ter escutado em algum momento o barulho dos milhares de manifestantes que ocupam as ruas da capital em número cada vez maior. Na pauta da reunião estava a liberação de ajuda financeira de Washington ao país balcânico em momento crítico para o presidente. Coincidentemente, justo quando a família Trump inicia empreendimento bilionário em área nobre da capital — a primeira unidade europeia do Trump International Hotel, na antiga sede do Ministério da Defesa da extinta Iugoslávia, bombardeado pela Otan em 1999 e propriedade do governo sérvio. Toma lá, dá cá.
O primeiro contrato de Belgrado com a Affinity Global Development, empresa de Jared Kushner, marido de Ivanka Trump, filha do presidente, foi assinado em maio do ano passado, quando primárias republicanas já indicavam a unção de Donald Trump como candidato do partido à Presidência. De acordo com o New York Times, o documento prevê um investimento de US$ 500 milhões (R$ 2,8 bilhões) para a construção do Trump International Hotel, com 175 quartos, incluindo apartamentos de luxo para moradia. Também determina o arrendamento para a empresa americana, por 99 anos, da área a ser construída em parceria com um investidor dos Emirados Árabes Unidos. O anúncio oficial foi feito em janeiro pela Trump Organization, tocada por Don Jr., que supervisiona o projeto.
Em dois meses de Trump 2.0 este é momento que ilustra de forma mais nítida até agora o conflito de interesses da população americana com os financeiros da família do presidente. Ao New York Times, um porta-voz dos Trump afirmou que não é o caso. E ofereceu a “razão única” do encontro: “O Don Jr. apresenta um dos podcasts mais importantes de política do planeta e foi a Belgrado apenas para entrevistar o presidente Vucic”. Mais: como ao todo a viagem durou menos de oito horas, “não deu tempo” para se aprofundar nos negócios da família. A entrevista foi ao ar e em um trecho o presidente sérvio mostrou ao entrevistador um mapa do centro da capital, região onde fica o futuro hotel. E os dois criticam, juntos e sem prova, o uso de fundos da Usaid, a agência de desenvolvimento internacional dos EUA, desmantelada pelo atual presidente americano, para alimentar a oposição sérvia e “bancar os manifestantes.
O jornal descobriu ainda que a viagem de Don Jr. foi organizada por Brad Parscale, um veterano estrategista político do trumpismo, conselheiro “informal” de Vucic nas eleições de 2022. Parscale tem negócios com uma empresa sérvia, mas se negou a dar o nome aos bois ao Times. Foi ele quem arcou com os custos das passagens da trupe do primeiro-filho dos EUA. Trata-se de um senhor investimento para uma conversa sobre, segundo os sérvios resumiram depois, “os rumos da política e da economia globais”.
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Oito horas deve ter sido pouco tempo para temas tão abrangentes, mas a foto de Trump Jr., barba aparada, ao lado de um sorridente Vucic, teve imenso destaque na mídia sérvia, inclusive nas redes sociais do presidente. Para os manifestantes e a oposição, Washington passou o recado de que tem lado claro na Sérvia. Um dos líderes da oposição, o deputado Dragan Jonic, foi rápido em resumir o teatro político: “É claro que há conflito de interesse. Vucic está tentando se manter no poder e os Trump, por sua vez, querem manter seu negócio imobiliário ativo”.
Em sua primeira temporada na Casa Branca, Donald Trump mediou o acordo de paz entre Sérvia e Kosovo. Grato, o líder sérvio concordou em transferir a embaixada sérvia de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, pedido do republicano. Populista com origem na extrema direita nacionalista sérvia, ele é reconhecido até pela oposição como um sujeito habilidoso, capaz de andar na corda bamba como poucos. Se notabilizou tanto pelo apoio à entrada do país na União Europeia, brecada pela vizinha Croácia, e a receita liberal na Economia, que não para de crescer, quanto pelo confisco da liberdade de imprensa e da atuação livre da oposição e do Judiciário no país. Também é acusado de usar o crime organizado no país para ameaçar rivais.
A oposição foi rápida em usar as imagens em benefício próprio, posto que “apenas escancara mais uma negociata”. Lembrou que Vucic é um velho camarada dos Trump, cujo interesse no prédio data de 2013. E que, por seu valor histórico, não deveria se tornar um hotel de luxo. “Não imagino um presidente americano arrendar West Point para investidores estrangeiros o demolirem e erguerem um complexo turístico lá. Infelizmente, o que é impensável nos EUA é nossa trágica realidade aqui”, comparou outro deputado da oposição, Aleksandar Jovanovic.
Em entrevista na quinta-feira a Christiane Amanpour, na CNN, a diretora-executiva da ONG sérvia Civic Initiatives, Maja Stojanovic, alertou para o risco de os Balcãs se desestabilizarem com a entrada dos Trump no tabuleiro político regional. Ela diz que Vucic usou a visita de Don Jr. para passar a mensagem de que Trump se juntou a outros autocratas, como Putin e o líder turco, Recep Erdoğan, na defesa de seus interesses, “e, por conseguinte, da corrupção e do nepotismo”.
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Por outro lado, frisou a importância dos protestos na Sérvia aumentarem de tamanho justamente durante os primeiros meses do governo Trump. Enfatizou o fato de os jovens exigirem o direito básico de Justiça e de órgãos fiscalizadores do governo. E que o país pode funcionar, nas próximas semanas, como um laboratório importante para experimentos de organização e conscientização popular contra autocracias mundo afora. “Prestem atenção”, pediu.
Já Viriginia Canter, que foi conselheira de práticas éticas em negociações tanto no FMI quanto no governo de Bill Clinton, afirmou ao New York Times não ter dúvidas de que “Don Jr. usou a Presidência dos EUA para manter Vucic no cargo enquanto avança negócios da família no país, uma movimentação agressivamente anti-ética”. Ela também foi crítica do uso do sobrenome Biden pelo filho Hunter, para firmar negócios na Ucrânia, quando o pai, Joe, do Partido Democrata, antecessor e rival de Trump, era presidente.

