Encurralado por bombardeios de Israel e dos EUA, o Irã enfrenta dificuldade para calibrar uma resposta adequada — e possível — contra os ataques sofridos, sobretudo contra suas bases militares e centrais nucleares. Entre promessas de retaliação de autoridades políticas e militares, o Parlamento aprovou no domingo uma moção a favor do fechamento do Estreito de Ormuz, a principal rota do comércio global de petróleo e derivados, numa medida que certamente teria repercussão mundial, mas cujo principal prejudicado provavelmente seria o próprio regime dos aiatolás e seus aliados mais próximos.
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O Estreito de Ormuz é considerado o principal gargalo do comércio internacional de petróleo, por onde passam um quarto do petróleo mundial e 20% do gás natural liquefeito do mundo. Com pouco mais de 50 km de largura no trecho mais estreito, entre Irã e Emirados Árabes Unidos, a zona é particularmente suscetível a instabilidades. Um bloqueio iraniano poderia impedir ou dificultar a navegação, o que teria impacto quase imediato no preço dos combustíveis ao redor do mundo.
O preço mais alto do petróleo quase certamente repercutiria no valor cobrado na gasolina e no diesel nos EUA, prejudicando consumidores e empresas americanos, e afrontaria diretamente a meta do presidente Donald Trump de controlar a inflação por meio da redução dos custos de energia. Porém, o impacto para Washington seria muito menor do que teria sido outrora, já que desde 2019 o país reduz sua dependência de combustíveis fósseis produzidos em países do Golfo.
Em 2024, as importações de petróleo bruto dos EUA de países do Golfo Pérsico atingiram o nível mais baixo em quase 40 anos, com o aumento da produção doméstica e das importações do Canadá”, apontou uma análise da agência federal de informação sobre administração de energia dos EUA em junho deste ano, acrescentando que apenas 7% do total das importações de petróleo bruto e condensado dos EUA vieram da região.
Uma vez que a maior parte da produção escoada pela rota naval segue para mercados na Ásia, a medida poderia representar para o Irã um disparo que o recuo após puxar o gatilho é pior do que o impacto provocado pelo projétil. Ao mesmo tempo que Teerã imporia uma dificuldade maior para entregar seu principal produto de exportação aos seus compradores, afetaria diretamente a China, maior aliada no plano internacional, que compra 90% da produção, segundo a empresa de dados de commodities Kpler, diante das sanções internacionais ao petróleo iraniano.
O impacto presumido no mercado chinês pode justificar o apelo feito pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para que Pequim atuasse junto a Teerã para que a rota marítima não fosse fechada.
— Peço ao governo chinês em Pequim que converse com eles sobre essa questão, visto que dependem fortemente do Estreito de Ormuz para seu abastecimento de petróleo — disse Rubio em entrevista à rede americana Fox News. — Seria suicídio econômico para eles [Irã], e nos reservamos o direito de tomar medidas, […]mas outros países também deveriam levar isso em consideração, pois prejudicaria suas economias muito mais do que as nossas.
Em um comunicado nesta segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, disse que a comunidade internacional deve fazer mais para evitar que o confronto entre Irã e Israel “tenha um impacto mais significativo no desenvolvimento econômico global”, e exortou as partes a impedir “a propagação da guerra e retornar ao caminho de uma solução política”. Também enfatizou a importância do Golfo “e suas águas circundantes” para o comércio internacional de bens e energia.
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Para começar a tomar medidas para bloquear Ormuz, a medida aprovada pelo Parlamento iraniano ainda precisa ser aprovada pelo Conselho de Segurança ligado diretamente ao aiatolá Ali Khamenei, o que significa que a aprovação não tem efeito imediato prático. O desafio de Khamenei, segundo analistas, será conseguir fazer com que a represália seja exatamente a razão entre um prejuízo sentido nos EUA, e pouco sentido na China.
— A melhor estratégia [para o Irã] seria abalar os fluxos de petróleo de Ormuz o suficiente para prejudicar os EUA por meio de um movimento moderado de alta nos preços, mas não o suficiente para provocar uma grande resposta dos EUA contra a produção de petróleo e a capacidade de exportação do Irã — disse Andrew Bishop, sócio sênior e chefe global de pesquisa de políticas da empresa de consultoria Signum Global Advisor, em entrevista à rede americana CNBC.
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A depender de como o Irã decida promover o bloqueio do estreito, as consequências também podem variar. Se no passado, o regime iraniano apreendeu petroleiros e interferiu em seus sinais de GPS para dificultar a navegação em períodos anteriores de tensões políticas intensas, uma das alternativas é de usar drones e minas aquáticas para impedir fisicamente a passagem das embarcações.
A operação criaria um cenário caro e perigoso para a Marinha dos EUA, que seria forçada a uma ação para remoção das minas. Um oficial da Marinha ouvido pelo New York Times afirmou que a limpeza do estreito também poderia colocar os marinheiros americanos em perigo direto, enquanto duas autoridades de Defesa afirmaram que o fechamento poderia isolar navios detectores e removedores de minas, e que já há um esforço para dispersar esse tipo de embarcação, para que fiquem menos vulneráveis.
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Apesar da dificuldade que pode impor, a opinião entre analistas ocidentais é que a medida ainda impõe mais riscos e prejuízos ao Irã que aos EUA — incluindo a possibilidade de voltar contra si outros países da região, que tem mantido distância do conflito.
— Muitas das opções do Irã são o equivalente estratégico de um atentado suicida — disse Karim Sadjadpour, especialista em política iraniana do Carnegie Endowment for International Peace. — Eles podem causar enormes danos a outros se minarem o Estreito de Ormuz, destruírem instalações petrolíferas regionais e lançarem uma barragem de mísseis contra Israel, mas podem não sobreviver ao efeito colateral. (Com NYT e AFP)