O presidente Donald Trump expressou nesta segunda-feira o desejo que os produtores de energia reduzam os preços do petróleo bruto após os ataques militares dos Estados Unidos contra o Irã, em meio a temores de que um conflito crescente no Oriente Médio e interrupções no fornecimento possam prolongar a recente alta nos mercados petrolíferos.
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“Todo mundo, mantenham os preços do petróleo baixos. Estou de olho! Vocês estão fazendo o jogo do inimigo. Não façam isso!”, postou Trump nesta segunda-feira em uma rede social.
Em uma publicação posterior, Trump pediu ao Departamento de Energia que “Perfure, bebê, perfure!!!! E quero dizer agora mesmo!!”
O secretário de Energia, Chris Wright, respondeu com uma publicação na plataforma X dizendo que “estamos cuidando disso.”
O Irã alertou que a decisão de Trump de se juntar à ofensiva militar de Israel com ataques contra suas três principais unidades nucleares provocaria retaliação. As Forças Armadas iranianas afirmaram que responderiam aos ataques dos EUA de forma “proporcional”.
Em reação aos ataques americanos a instalações nucleares do país, Teerã ameaça fechar o Estreito de Ormuz, uma passagem marítima na entrada do Golfo Pérsico por onde circula cerca de um quarto do comércio mundial de petróleo transportado por via marítima.
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O fechamento da via marítima foi aprovado no domingo pelo Parlamento iraniano, mas a medida ainda não entrou efetivamente em vigor pois precisa passar pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional. Após isso, o chefe de Estado do país, o aiatolá Khamenei, irá bater o martelo sobre o tema.
Embora a preocupação esteja concentrada nesse ponto estratégico, qualquer retaliação possível pode afetar outras infraestruturas essenciais para o processamento e o transporte de petróleo na região. Cerca de 70% a 75% do petróleo bruto, condensado e produtos refinados que saem do Golfo passam por cerca de nove instalações, que podem se tornar gargalos, segundo Colby Connelly, pesquisador sênior do Middle East Institute.
O principal assessor econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, disse em uma breve entrevista à Bloomberg Television nesta segunda-feira que os mercados de petróleo “parecem estáveis”.
— Até o momento, não há sinais de interrupções sérias — afirmou ele.
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Preços mais altos do petróleo — assim como da gasolina e do querosene de aviação produzidos a partir dele — pressionariam os consumidores americanos, cujas finanças já foram afetadas nos últimos anos pela inflação, o que poderia causar danos políticos a Trump e aos republicanos.
Se o estreito for fechado ao transporte marítimo, o preço do petróleo pode ultrapassar US$ 130 por barril, segundo uma estimativa da Bloomberg Economics. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou mais cedo, nesta segunda-feira, que os EUA estão “acompanhando ativamente e de perto essa situação no Estreito de Ormuz, e o regime iraniano seria tolo se tomasse essa decisão.”
Os índices globais de referência do petróleo estão cerca de 10% mais altos do que estavam imediatamente antes de Israel atacar o Irã no início deste mês. Mas, na segunda-feira, os mercados apagaram os ganhos iniciais, à medida que diminuíram os temores de uma interrupção imediata no fornecimento. O tipo Brent, referência em todo mundo, chegou a subir para US$ 81,40 por barril, maior patamar em cinco meses, mas depois caiu para abaixo de US$ 77.
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A diretriz de Trump para mais perfuração nos EUA, por si só, não é suficiente para impulsionar o desenvolvimento de petróleo e gás. Executivos do setor petrolífero dos EUA têm demonstrado pouco interesse, nos últimos anos, em aumentar drasticamente a produção, especialmente considerando que o preço do tipo Texas, referência nos EUA, chegou a ficar, em certos momentos, abaixo do custo de produção em alguns locais.
As empresas de petróleo, em geral, baseiam suas decisões de investimento nos EUA em previsões de preço de longo prazo — e não em picos temporários causados pelos ataques ao Irã e pelo temor de interrupções no fornecimento no Oriente Médio.
Muito antes do ataque americano, autoridades do governo Trump já discutiam o potencial de interrupções no fornecimento de petróleo que poderiam elevar os preços do barril, bem como opções para conter essa possível alta, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
A atual escalada reflete “o mercado precificando o potencial de interrupção”, e não uma reação a perdas reais no fornecimento, disse Connelly. Ainda assim, “há impactos que já começam a ser sentidos em outras partes do mundo, e a perspectiva macroeconômica sentirá isso quanto mais tempo durar, mesmo que não haja uma perda efetiva de fornecimento.”
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A publicação de Trump sugere que os efeitos emergentes nos preços do petróleo — que podem se espalhar pela economia — estão pesando sobre ele. Por semanas antes do conflito, Trump elogiava a queda nos preços do petróleo, para desgosto de executivos que ajudaram a financiar sua campanha presidencial de 2024.
No entanto, o presidente americano tem opções limitadas para conter os impactos dos preços internamente. Embora ele possa recorrer à reserva estratégica de petróleo dos EUA, essa reserva foi reduzida para cerca de 400 milhões de barris de petróleo bruto — aproximadamente metade de sua capacidade.
Analistas alertam que mesmo uma liberação estratégica de petróleo de emergência faria pouco para compensar a perda potencial de milhões de barris por dia através do Estreito de Ormuz, caso o Irã retalie semeando o estreito com minas navais para interromper o tráfego marítimo.