Pular para o conteúdo
setembro 27, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,1985
News

Entre melancolia e euforia dos fãs, Alice Oseman se despede de 'Heartstopper' em passagem pelo Brasil: 'Triste dizer adeus'

Por · setembro 27, 2026
Entre melancolia e euforia dos fãs, Alice Oseman se despede de 'Heartstopper' em passagem pelo Brasil: 'Triste dizer adeus'


O universo de “Heartstopper” representa um terço da vida de sua criadora, a inglesa Alice Oseman. Desde que surgiu como um projeto independente na rede social Tumblr, em 2016, a história de amor dos jovens Nick e Charlie rendeu seis volumes de uma das HQs mais vendidas de todos os tempos, três temporadas de uma série de TV e um longa-metragem. Foi em clima de despedida e euforia (entre os fãs) que a autora desembarcou no Rio, no início do mês, para lançar o último opus da saga, “Heartstopper — Para sempre” (Seguinte), também adaptado para o audiovisual pela Netflix.
Anabolizantes, bulimia, pai abusivo: Sylvester Stallone abre o jogo em entrevista bombástica
O zoológico particular de Ziraldo: novos lançamentos resgatam fascínio do cartunista por animais
— É muito triste dizer adeus, porque eu amo esses personagens e passei praticamente todos os dias com eles durante tanto tempo… Mas também estou muito feliz e orgulhosa de ter chegado ao fim da história e conseguido terminá-la da maneira que eu queria — disse Alice, em entrevista ao GLOBO, pouco antes de participar de um encontro com seus leitores no Teatro Clara Nunes, na Gávea.
Mais do que um fenômeno cultural, “Heartstopper” é o símbolo da nova forma como relacionamentos LGBTQIA+ são representados e vistos na cultura pop. Charlie Spring (Joe Locke na adaptação audiovisual) é um adolescente sensível, que sofre preconceito no colégio por se declarar gay. Ele se apaixona por Nick Nelson (Kit Connor), um jogador de rúgbi popular que senta ao seu lado na aula e, ao que tudo indica, é heterossexual.
O amor parece impossível, mas a amizade evolui para uma jornada de autodescoberta. Nick se descobre bissexual e a convivência com o amado faz Charlie se tornar mais autoconfiante física e mentalmente. Enquanto amadurecem ao longo das temporadas, eles enfrentam o julgamento alheio e outros desafios próprios da adolescência, como montanhas-russas emocionais e dúvidas sobre identidade.
No sexto e derradeiro volume, lançado em julho nas livrarias e na Netflix, o casal passa por momentos de crise e vive a ansiedade do fim do colégio e dos planos para o futuro.
‘Adolescentes reais’
Enquanto muitas narrativas do passado limitavam seus personagens homossexuais a culpabilidade, traumas e tragédias, “Heartstopper” reforça o caminho para uma abordagem bonita, fofa e otimista do amor gay adolescente. Carregar essa influência poderia ser um peso para Alice Oseman, que completará 32 anos agora em outubro. Mas não é o que parece. Tímida e simpática, ela fala de seu trabalho sem nenhuma pretensão.
A autora lembra, aliás, que a série também aborda questões mais sombrias, como homofobia, bullying e bulimia. A trajetória de Charlie é marcada por transtornos de saúde mental (chega inclusive a se automutilar) e, neste último volume, Nick lida mal com a pressão social para beber além da conta. No filme, eles chegam a terminar por um tempo, algo que não acontece na versão em quadrinhos.
— Meu objetivo era mostrar adolescentes reais passando por situações reais — disse ela. — Queria mostrar que, por mais sombrias e difíceis que sejam as coisas pelas quais você esteja passando, sempre pode haver alegria, luz e esperança no meio de tudo isso. Sempre tentei representar a adolescência de uma maneira autêntica nesse sentido.
A própria Alice teve uma adolescência repleta de dúvidas, que a ajudou a entender as identidades em construção de seus personagens. Antes de completar 20 anos, a jovem se forçou a buscar relacionamentos, chegando a achar que era gay por não gostar de meninos. Logo chegou à conclusão de que não se sentia atraída por nenhum gênero: era assexual e arromântica.
Trecho da HQ “Heartstopper – Para sempre”
Divulgação
Debate sobre palavras
A orientação é pouco representada na cultura pop e, pensando em preencher essa lacuna, Alice lançou o romance “Loveless” (Rocco), de 2021. Georgia, a protagonista, é uma jovem “sem crush” que subitamente se vê rotulada com esse termo novo e pouco conhecido.
— Eu sou uma pessoa bastante introspectiva e me sinto muito ligada a histórias sobre solidão e sobre pessoas tentando descobrir quem são, especialmente em um mundo em que as respostas nem sempre são fáceis — disse ela. — Pode ser difícil descobrir quem você é e se sentir confortável com isso. Escrevi “Loveless” porque a maioria das pessoas não sabe muito bem o que termos como assexual e arromântico significam. Mesmo dentro da comunidade há muito debate sobre as palavras, sobre o que elas significam especificamente, se deveríamos usá-las ou se deveríamos usar termos diferentes. São experiências muito diversas. Pessoas assexuais, por exemplo, podem vivenciar a assexualidade de muitas maneiras diferentes.
A passagem de Alice no Rio abriu o “Estação Bienal”, evento da Bienal do Livro do Rio que promove encontro entre escritores e o público em formato itinerante. Ela participou de um bate-papo com o influenciador Luca Guadagnini, dedicado a conteúdo cultural LGBTQIA+, em que falou sobre sua carreira e a relação com os seus personagens. O público (quase todo na casa dos 20 anos) vibrava cada vez que eram mencionados termos como “bissexual”, “demissexual” e “não binário”.
Quando fãs selecionados pela organização subiram ao palco para contar suas histórias de autodescoberta, detalhando como “Heartstopper” os ajudou a entenderem a si mesmos e superarem seus medos, ela ouviu cada um deles com a mão no peito, emocionada.
— Muitos adolescentes queer se sentem isolados em suas experiências e não têm adultos para desabafar — respondeu ela, ao ser perguntada no evento sobre a importância dos laços de amizade entre pessoas LGBTQIA+. — Achar uma comunidade para chamar de sua pode salvar vidas. Queria que minhas histórias fossem também um meio para pessoas criarem grupos e encontrarem amigos do mesmo universo. “Heartstopper” traz um lindo grupo de amigos e cada um tem suas própria experiência queer, vidas familiares diferentes, mas todos apoiam um ao outro.
Alice Oseman no Teatro Clara Nunes, na Gávea, Zona Sul do Rio
Guito Moreto/ Agência O GLOBO
Referência saudável
Prêmio Jabuti por “O crime do bom nazista” (Todavia), o escritor Samir Machado de Machado, de 45 anos, não é da mesma geração dos jovens que lotaram o Teatro da Gávea, mas gosta de “Heartstopper” da mesma forma. Para ele, a obra de Alice Oseman é o tipo de narrativa que toda pessoa LGBTQIA+ que “sobreviveu psicologicamente” aos anos 1980 e 1990 gostaria de ter visto aos 13 anos.
— Até a minha geração, havia o fenômeno da adolescência tardia dos gays — diz Samir. — Como muitos de nós não conseguiram vivê-la normalmente, acabam por vivê-la só quando saem do armário, já na vida adulta. As atuais fazem isso mais cedo, e alguns até conseguem viver sem tabu experiências como paixonite, primeiro amor, etc. Quando usa os clichês do romance romântico, “Heartstopper” dá uma referência saudável a gerações anteriores que, como eu, não tiveram essas referências.
Oseman admite que se surpreendeu ao descobrir que “Heartstopper” tinha leitores mais velhos. A primeira aparição de Nick e Charlie aconteceu em “Um ano solitário”, romance jovem-adulto escrito quando a autora tinha apenas 17 anos e que foi disputado por diversas editoras. Quatro anos depois, ela teve a ideia de transformar a dupla, antes coadjuvante, em protagonistas de uma história em quadrinhos.
— Quando comecei a produzir a HQ, eu não estava pensando muito sobre quem seria o público-alvo — contou. — Estava fazendo para mim mesmo. Sabia que adolescentes provavelmente gostariam, porque a história era sobre adolescentes, mas logo percebi que havia muitos leitores adultos. E faz sentido, porque é uma história que pode fazer o leitor voltar para a própria juventude, relembrando sentimentos que não são exclusivos da adolescência.
Na casa dos trinta
Agora que já é trintona e se despediu de Nick e Charlie, Alice se diz disposta a escrever seu primeiro “romance adulto”. Entre as suas referências na área estão a japonesa Sayaka Murata, do best-seller “Querida Konbini”.
— Eu meio que caí na literatura jovem-adulta porque eu mesma era adolescente quando comecei a escrever — disse a autora. — Era o mundo que eu conhecia. Agora estou bem mais distante da minha própria adolescência, então acho que seria interessante, pela primeira vez, escrever sobre pessoas da minha idade. No momento, não tenho um projeto definido, quero apenas descansar (risos).

Entre melancolia e euforia dos fãs, Alice Oseman se despede de 'Heartstopper' em passagem pelo Brasil: 'Triste dizer adeus'